Thorwis tirou uma pedra do meio das pregas de sua túnica. Era um cristal de rocha, trespassado por cinco linhas negras. A pedra alba dos anões!
— Nós agradecemos por ter cumprido o seu juramento — disse o feiticeiro.
— Eu não disse a ninguém que vocês possuem uma pedra. Mesmo tendo de confessar que insinuei saber que vocês viriam.
— Qual é o seu plano, Emerelle? — Wengalf quis saber.
A rainha repetiu mais uma vez o que dissera antes: que um feitiço deveria separar as terras do outro lado da Shalyn Falah e o Outro Mundo de toda a Terra dos Albos. Thorwis e Wengalf ouviram as palavras da rainha atentamente.
— Então que assim seja! — gritou Wengalf. — Meu exército ficará na ala direita, entre o fim do desfiladeiro e a floresta, a não ser que as terras tenham mudado.
— Ainda é assim como você se lembra. Mas os humanos vêm em massa. É claro que vocês não terão de lutar sozinhos. — A rainha olhou por cima dos anões. — Mandred! — chamou ela.
O jarl se apresentou, sendo observado com curiosidade pelos anões. Nuramon lhes contara a respeito de Mandred.
— Precisaremos dos mândridos nesta luta. Você precisa ir até os seus e convencê-los a participar da batalha amanhã.
Mandred concordou com seriedade:
— Farei isso, Emerelle!
— Farodin! — disse a rainha. O companheiro de Nuramon deu um passo à frente e se curvou. — Você defenderá Shalyn Falah ao lado de Ollowain e Giliath. Eu atribuirei minha guarda pessoal como reforço, e você deve comandá-la. — E olhando para cima, para Orgrim: — E os trolls os ajudarão, pois eles próprios um dia avançaram contra a ponte. Se defensores e antigos agressores estiverem unidos, Shalyn Falah resistirá.
— Agradeço a você, rainha — disse Farodin sem emoção.
Emerelle voltou seu olhar para Nuramon.
— E agora você! Gostaria que liderasse os elfos que lutarão ao lado dos anões.
— Liderar? — perguntou Nuramon.
— Espadachins, cavaleiros de Alvemer e arqueiros de Nomja estarão à sua disposição, assim como os guerreiros do seu clã.
— Obrigado, Emerelle — Nuramon ouviu-se dizer.
Mas não se via como comandante. Farodin era feito para isso, ou então Obilee, Ollowain e Giliath. Com certeza ele não era a pessoa certa para assumir uma responsabilidade como essa.
A rainha voltou-se novamente para Wengalf:
— Peço a você, Wengalf... rei de Aelburin. Tome o lugar nesta roda que cabe a você. Com isso o círculo do destino estará fechado e estaremos preparados para a tempestade que colocará fim nesta era.
O silêncio se instaurou, enquanto o rei dos anões caminhou com Thorwis e Alwerich em direção à pedra de frente para a rainha. Chegando lá, parou e olhou em volta. Deu um sinal a Alwerich, que fincou com toda a força o mastro do estandarte no chão enquanto o rei se sentava.
Uma alegria que Nuramon raramente presenciara entre os filhos de albos irrompeu no acampamento. Os elfos exultaram, os centauros relincharam, os trolls urraram e Mandred...
Mandred também urrou.
O ancestral vivo
O corpo de Liodred havia sido amortalhado em um coche coberto de tecidos brancos. Cinquenta centauros fizeram o cortejo para o rei tombado de Firnstayn. Ao lado dos rústicos homens-cavalo, Mandred sentia-se bem, embora as notícias sobre seu povo tivessem-no assolado com a tristeza mais profunda. Somente poucos haviam abjurado voluntariamente os antigos deuses para abraçar a fé em Tjured. Então os cavaleiros da ordem massacraram aldeias inteiras. Emerelle prometera asilo na Terra dos Albos a todos os habitantes da terra dos fiordes. Cavaleiros elfos e trolls haviam sido destacados para escoltar os refugiados, mas milhares deles perderam a vida em tempestades de neve ou em avalanches junto às passagens. Aqueles que saíram ilesos da fuga foram conduzidos ao Vale do Lamiyal, a cerca de quinze quilômetros de distância do castelo de Emerelle. A rainha e também Ollowain haviam alertado Mandred. O moral dos humanos estava destroçado; todo o sofrimento do passado tinha deixado marcas profundas. Contavam que talvez não mais de duzentos participassem da batalha que estava por vir.
Ao chegar ao outeiro sobre o vale, o coração do jarl pesou. Uma quantidade imensa de fugitivos estava acampada ali. Mal havia barracas suficientes; os humanos precisavam dormir ao ar livre sobre o chão de terra. A fumaça da lenha de centenas de fogueiras pairava como uma redoma escura sobre as campinas.
Os humanos observavam Mandred descer a encosta e cravaram os olhos nele. Não o reconheciam. Mas, também, de onde? Ninguém no acampamento dos elfos conseguira ou quisera lhe dizer quantos séculos havia perdido na armadilha do devanthar. Também, não fazia diferença. A única coisa que contava era que no dia seguinte eles revidariam o ataque.
Ao observar aquela multidão de desesperados, Mandred não sabia se os humanos ainda deveriam participar dos combates. O que mais lhe doía era ver as crianças. Com rostos encovados e olhos fundos, consumidas pela fuga, elas ladearam os caminhos, observando os centauros e a suntuosa carroça branca passar. Algumas até sorriam e acenavam, embora mal conseguissem se manter sobre as pernas tamanha era a fraqueza. Que espécie de monstros eram os sacerdotes de Tjured, que caçavam até a morte mesmo as crianças?
No meio do acampamento de refugiados havia uma barraca de linho verde desbotado. De pernas afastadas na frente da entrada estava um guerreiro gigantesco. Vestia uma armadura enegrecida e apoiava-se em um grande machado. Seus olhos azuis e gelados emprestavam-lhe uma expressão de poucos amigos; assim ele encarou Mandred:
— Então os elfos o mandaram para dar uma de antepassado conosco.
O jarl lançou-se da sela e conteve o impulso de enfiar o punho na goela do sentinela.
— Onde eu encontro o rei? Trago a armadura dele.
— Seus amigos o instruíram mal. O rei morreu no Desfiladeiro da Rapina. Lá ele resistiu com cem homens contra o exército dos cavaleiros da ordem, em troca de algumas horas a mais para a fuga de nossas mulheres e crianças.
A ira de Mandred contra o guerreiro se dissipou.
— E quem está no comando em seu lugar?
— A rainha Gishild.
— Posso vê-la? A rainha Emerelle me enviou. Eu... Eu estou vindo agora mesmo de Firnstayn. Vi tudo.
O guarda alisou o bigode e franziu a testa.
— Há dias ninguém mais atravessa as filas dos cavaleiros da ordem. Como conseguiu?
— Um de meus companheiros abriu uma trilha alba.
Uma ruga profunda dividiu a testa do guerreiro. Ele olhou para a carroça branca.
— Para que você está trazendo esse coche?
— O rei Liodred está amortalhado nele. Ele morreu lutando ao meu lado.
O guarda arregalou os olhos, assustado. Então pôs-se de joelhos.
— Perdão, antepassado! Eu... Ninguém acreditava mais que a velha profecia ainda se realizaria. Nós tivemos tantos...
Mandred agarrou o guerreiro pelos braços e puxou-o de volta para cima.
— Eu não gosto de homens ajoelhados à minha frente. Você tem razão para desconfiança. E eu estou orgulhoso por ainda haver homens como você na terra dos fiordes. Como você se chama?
— Eu sou Beorn Torbaldson, antepassado.
— Ficarei satisfeito em saber que amanhã estará ao meu lado na batalha, Beorn. — Mandred percebeu que o guerreiro apertava os lábios como se quisesse reprimir uma dor repentina. — O rei despachou-o do Desfiladeiro da Rapina, não é?
Um músculo na face do guarda tremeu levemente.
— Sim — soltou ele, sufocado.
— Não sei que tipo de homem foi o meu descendente. Só posso dizer o que teria feito no lugar dele. Eu teria escolhido meus guerreiros mais valentes e leais para pôr minha mulher em segurança. E, se um dia eu presenciar alguém chamá-lo de covarde porque não virou comida de corvo jazendo ao lado do rei no Desfiladeiro da Rapina, vou encher essa pessoa de pancada até ela reconhecer a verdade. Cavalgue amanhã ao meu lado esquerdo. Você precisa saber o quanto eu odeio carregar escudos. Seja o meu escudo!