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Os olhos do guerreiro brilharam.

— Nenhum escudo será capaz de protegê-lo como eu farei.

— Eu sei — sorriu Mandred. — Agora já posso ir até a rainha?

Beorn desapareceu rapidamente para dentro da barraca. Mandred então ouviu uma voz aguda de mulher.

— Entre, Mandred Torgridson, antepassado do meu clã.

A cobertura da barraca esmaecia a luz do sol em uma meia-luz esverdeada. Era parcamente mobiliada. Havia um leito estreito, uma mesa pequena, duas arcas guarnecidas de ferro e, como único luxo, uma poltrona lindamente entalhada com um banquinho alto para os pés. Gishild era uma mulher jovem. Mandred estimava que não tivesse mais que 25 anos. Seu rosto tinha traços elegantes, mas era atipicamente pálido. Cabelos de um louro-avermelhado desciam-lhe volumosos até os ombros. Ela vestia um espartilho verde-escuro amarrado bem justo e, por baixo, uma camisa branca. Gishild estava sentada na poltrona com os pés apoiados no banco. Tinha uma coberta fina envolvendo suas pernas. Sobre a mesa ao seu lado, um punhal delgado estava à mão.

A rainha não fez menção de se levantar quando Mandred entrou. Dispensou Beorn com um gesto fugaz.

— E agora ainda vem você, antepassado — disse amargamente. — Nós o esperamos com ansiedade quando as primeiras brechas na muralha de Firnstayn foram abertas. Também naquela noite, quando meu marido liderou uma incursão na tempestade de neve contra o acampamento dos cavaleiros da ordem, para que os sobreviventes da cidade pudessem fugir para as montanhas. Mesmo no Desfiladeiro da Rapina eu ainda orei a Luth para que você finalmente chegasse. Agora é tarde demais, antepassado. Não há mais terras pelas quais o seu povo possa lutar. Nós somos refugiados, mendigos no estrangeiro, dependentes das esmolas de Emerelle. Pelo que parece, nem mesmo os elfos são capazes de vencer o poder dos sacerdotes. O carvalho queimado está projetando sua sombra até mesmo sobre o coração da Terra dos Albos.

Mandred respirou fundo. O que podia dizer a ela? Quão cruel foi estar ali em pé no refúgio do devanthar tendo de assistir impotente ao seu próprio povo lutando em uma guerra desesperada?

— Eu não posso reverter nada do que aconteceu. E para nós também não haverá caminho de volta para a pátria. Mas Emerelle me prometeu conceder um reino próprio para nós na Terra dos Albos. Só teremos de lutar mais uma vez e, então, os sacerdotes de Tjured serão afastados para sempre. Emerelle fechará os portais da Terra dos Albos e nunca mais um sacerdote virá para torturar e matar um fiordlandês porque ele se mantém leal aos seus antigos deuses.

A rainha encarou-o cansada.

— Eu ouvi falar demais de últimas batalhas, antepassado. — E apontando para a entrada da barraca: — Você está vendo o que o seu povo se tornou. As pessoas perderam todas as esperanças. As derrotas seguidas destruíram o seu orgulho.

— Nós os faremos recobrar o ânimo! Hoje à tarde quero sepultar Liodred. Então gostaria de falar com eles. Por favor, fique de pé ao meu lado. Tenho certeza de que eles a continuam honrando-na, Gishild.

— Nunca mais vou ficar de pé ao lado de quem quer que seja!

A rainha afastou a coberta com um golpe e Mandred pôde ver dois cotos vermelhos e inflamados, manchados de negro. Seus pés haviam sido amputados logo acima dos tornozelos.

— Não quero nem uma palavra de compaixão. Isto não é nada! No Desfiladeiro da Rapina, o meu filho pequeno congelou nos meus braços. Eu não pude dar calor suficiente a ele... — Ela parou. — Um par de pés congelados não é nada perto dessa dor. Eu... Eu não quero ter de olhar para mais nenhuma cova aberta, Mandred. Eu mesma sou uma. Sou um parco reflexo do seu povo.

Desolado, Mandred olhou para as pernas mutiladas.

— Você poderia ter pedido a ajuda dos elfos. Seus feitiços são poderosos. Eles teriam...

— Eu devia ter mandado arrancarem um de seus curandeiros do leito de uma criança doente? Nós trouxemos mais desgraças para a Terra dos Albos do que os poderes mágicos deles seriam capazes de sanar.

Mandred sentia-se impotente. O que mais poderia dizer a essa mulher amargurada? Palavras de esperança deviam soar como escárnio a seus ouvidos. Se ele ao menos tivesse retornado antes! Então se curvou:

— Retiro-me com sua permissão. Prepararei o funeral do rei Liodred.

— Espere, antepassado! — Ela sinalizou que se aproximasse. — Ajoelhe-se ao meu lado.

Admirado, o guerreiro obedeceu.

Gishild baixou a voz até se tornar um sussurro.

— Ouvi como falou com Beorn. Desde o dia no Desfiladeiro da Rapina ele é um homem destruído. Você lhe deu de volta a coragem. Leve a armadura de Alfadas e vista-a quando falar com o seu povo junto à cova de Liodred. Talvez você ainda consiga inflamar mais uma vez uma fagulha de esperança nas cinzas do luto. Eu não tenho mais essa força, Mandred Torgridson. Mas eu sei que muitos esperam até agora pelo retorno do antepassado vivo. Fale com eles. Você tem razão. Não pode ser que, depois de todos esses séculos de amizade, na última batalha, a bandeira de Firnstayn não tremule mais ao lado da dos elfos. Livre o nosso povo dessa vergonha.

Duas espadas e lembranças

Nuramon estava no quarto que fora de Gaomee. A rainha o pusera à sua disposição uma outra vez. O fato de encontrar um retrato dele próprio na parede surpreendera-o profundamente. Era verdade que haviam dedicado a todos que passaram a noite anterior a uma Caçada dos Elfos naquele quarto uma cena no friso que o circundava, mas Nuramon não estava pronto para avistar o seu próprio semblante na parede. O que mais o admirava era a maneira como estava retratado: em pé, segurando suas duas espadas nas mãos, ameaçando uma sombra que envolvia uma pedra preciosa dourada — o devanthar com sua pedra alba. Ou essa pintura fora feita em algum momento após a batalha marítima, ou então o olhar da rainha tinha alcançado bem longe no tempo.

Nuramon examinou os traços do rosto do seu retrato. Eram de um elfo corajoso que parecia superior a qualquer perigo, mas sem parecer feroz. Esse elfo certamente seria um bom líder. A pergunta era só se Nuramon conseguiria fazer justiça a esse retrato na manhã seguinte. Hoje ele não correspondia tanto assim. Tinha sido cansativo, principalmente porque sua memória ainda estava muito confusa.

Ele havia transferido muitas responsabilidades a Nomja e, para isso, sequer chegara a ver a arqueira, só havia trocado mensageiros com ela. Ela encontrava-se na ala direita do acampamento do exército, a umas boas cinco horas de distância do castelo de Emerelle. Wengalf e ela haviam falado sobre o posicionamento dos guerreiros e Nuramon deixara tudo em suas mãos.

Em vez de comandar, estava ali sentado naquele quarto, refletindo. Seu clã o visitara para equipá-lo; por desejo seu haviam lhe dado uma armadura de placas, para a qual a armadura de dragão de Gaomee servira de molde. Despediu-se logo depois, até porque ali não havia mais ninguém que conhecesse de tempos anteriores. O velho Elemon partira havia muito tempo para o luar; mesmo os mais jovens como Diama não estavam mais ali há tempos. Entre seus descendentes, Nuramon tornara-se uma lenda. Que decepção eles viveriam no dia seguinte, quando o grande Nuramon, que vencera um devanthar com seus companheiros, cavalgaria na batalha como um elfo absolutamente comum, e nada o distinguiria dos demais!

Foi inevitável sorrir. Na época em que esteve naquele quarto pela primeira vez, a aversão de sua linhagem o atormentava. E agora era desconfortável para ele que o tratassem com respeito e reconhecimento! Isso não podia ser verdade! Sua memória lhe dizia que o reconhecimento de modo algum era desconhecido para ele. Já o experimentara antes, principalmente junto aos anões. Mas isso tinha sido em uma outra vida...

Gradativamente suas lembranças se ordenavam; não demoraria muito mais para que conseguisse encaixar as pedrinhas do mosaico. Naquele momento, simplesmente havia coisas demais para entender. Então ele se lembrou de um dia ter amado uma elfa de nome Ulema. Desse amor resultou uma criança, que chamaram de Weldaron. Esse era o nome do fundador do seu clã. Será que ele, Nuramon, porventura teria sido o pai de Weldaron? Nisso ele não seria capaz de acreditar.