Também o confundiam todos os sentimentos que um dia nutrira por Emerelle, mas que ela nunca pudera retribuir. Muitos elfos viam Emerelle e sonhavam secretamente com o seu amor. Não havia mulher sobre a qual houvesse mais histórias apaixonadas e canções de trovador que a rainha dos Elfos...
O som de passos diante da porta despertou nele a lembrança da noite anterior à partida da Caçada dos Elfos. Virou-se; tinha ideia de quem vinha vê-lo. Quando a porta se abriu, exibindo Emerelle, soube que não havia se enganado. A rainha viera como na noite em que tudo começou para ele. Como daquela vez, ela vestia uma túnica cinzenta de feiticeira e seus cabelos louro-escuros caíam em ondas suaves sobre seus ombros. Ele olhou dentro de seus olhos castanho-claros e neles também encontrou o brilho daquela noite tão distante.
Ela fechou a porta atrás de si e sorriu para ele como se esperasse alguma reação dele.
— Emerelle — disse ele, olhando-a demoradamente. — Não é por acaso que você veio até mim, não é?
— Não. Nada que dizemos ou fazemos é por acaso. Aqui o círculo se fecha, Nuramon, pai de Weldaron e filho de Valimee e Deramon.
Quando a rainha pronunciou os nomes de seus primeiros pais, retornou-lhe a lembrança deles. Seu pai fora um guerreiro e sua mãe, uma feiticeira. Haviam partido cedo para o luar, mas o amaram da forma como só os primeiros filhos dos albos amavam seus filhos e filhas.
— Eu sou assim tão velho? — perguntou ele.
A rainha fez que sim com a cabeça.
— Eu já sabia há muito tempo que o seu destino era grande, e um dia chegaria a hora de enfrentá-lo. Na época, você era um dos meus companheiros de luta. Nós nos conhecemos em Ischemon, na luta contra os dragões do sol. Ainda não havia rainha. Eu estava em busca do meu destino e nós fomos juntos até o oráculo Telmareen. O que ele disse você já sabe.
Nuramon se lembrava de tudo o que a rainha falava. Suas palavras eram como fórmulas de feitiços que ordenavam sua memória verso a verso e traziam de volta todas as sensações de antes. Até a silhueta de luz do oráculo ele reviu de repente diante dos olhos e, depois de tanto tempo, sua voz ainda ressoou em seus ouvidos: Escolha a sua própria família! Não se preocupe com a sua aparência! Pois tudo o que é está dentro de você mesmo.
Agora a rainha estava bem à sua frente e o olhar dela passeava encontrando e desviando do seu.
— Naqueles dias havia poucas regras. Nós próprios tínhamos de criá-las e, por isso, em todas as suas vidas você sempre teve dificuldades para viver sob as regras dos outros. Você se lembra do que eu lhe disse antes de dar o seu último suspiro?
Na época ele havia sido ferido pela luz ardente de um dragão do sol. Agora recordava-se das palavras de Emerelle, e pronunciou-as:
— O oráculo me mostrou você e a criança poderosa. Yulivee! Você já tinha visto Yulivee naquele tempo?
— Sim. Eu sabia desde aquela época que você um dia a conduziria até mim. Mas não sabia quando. Então exercitei a minha paciência. Tive de esperar muito e dizer e fazer coisas que não vinham do coração. Mas tudo o que disse naquela noite antes da Caçada dos Elfos é verdade. Tive, contudo, de omitir algumas coisas de você, como os oráculos costumavam fazer. No entanto, agora você deve descobrir o que ainda não sabe. Venha!
Emerelle segurou a mão de Nuramon e conduziu-o até o banco de pedra. Eles se sentaram. A rainha, então, começou:
— Eu não compreendo o que você sente agora, pois eu nunca morri. Minhas lembranças são as de uma única e longa vida. Mas sei que não é fácil lidar com todas as experiências. Você precisa crescer para compreender isso. E esse é um dos seus fortes. — Ela soltou sua mão e apontou para o teto, para o retrato de Gaomee. — Naquela época, designei este quarto a você propositalmente. Sabia que você estava diante de uma grande viagem. Era o momento certo de entregar-lhe a espada dela. Mas eu não disse o que aquela arma tem de mais. — Emerelle ergueu-se, caminhou até a cama de Nuramon e apanhou as duas espadas. Então retornou e sacou a espada curta de Gaomee. — Os anões certamente contaram alguma coisa sobre a arma.
— Eles me disseram que foi forjada para um elfo por um anão chamado Teludem. — Nuramon teve uma suspeita, e perguntou: — Esta arma um dia já foi uma espécie de presente para mim?
— Não, os anões a deram de presente para mim. Eles disseram que iriam ao Outro Mundo procurar um reino onde Wengalf pudesse continuar sendo rei. Eram tempos em que eu não podia tolerar ninguém ao meu lado para que pudesse acontecer o que tinha de acontecer. Nós nos separamos em cólera. Mas Wengalf não é tolo. Ele me deu a arma de presente e disse que deveria mandá-la a ele quando estivesse pronta para respeitá-lo como rei.
— Sobre isso os anões nunca me disseram nada.
— Eu dei a arma a Gaomee, porque ela descendia da estirpe que estava destinada a se aproximar dos anões.
A rainha pareceu esperar alguma reação da sua parte.
De repente Nuramon compreendeu o que ela queria dizer.
— Gaomee descendia da minha linhagem?
— Ela não só descendia da sua linhagem. Ela era sua filha.
A notícia atingiu Nuramon como um soco. Gaomee era filha dele!
— Eu não me lembro dela.
— Você já havia morrido há muito tempo quando Diyomee a teve.
— Diyomee! — explodiu Nuramon.
Aquele tinha sido um amor infeliz. O pai dela o odiava, e o rival de Nuramon o matara em um duelo.
— A família renegou Diyomee. Então eu decidi tomá-la sob meus cuidados. Ela teve a criança, chamou-a Gaomee e partiu para o luar. Então eu adotei a recém-nascida. Mais tarde, quando a convoquei para aquela Caçada dos Elfos, senti que era certo confiar a espada a ela. Contei-lhe tudo sobre seu pai e ela o admirou por seus feitos em Ischemon. Só assim ela pôde vencer o dragão Duanoc.
— Mas eu renasci. Por que ela não veio a mim?
— Ela não ousou fazer isso. Temia que você pudesse rejeitá-la. Antes de encontrar seu amor e partir para o luar, no entanto, ela me confiou a espada e disse que deveria guardá-la e entregá-la a você quando o tempo chegasse. E foi o que fiz. — Ela guardou a arma de Gaomee. — Você levou a espada para os anões e logo eles souberam qual seria o fim desta era. Eles descobriram pelo oráculo Dareen quando retornariam para suas velhas salas. — Emerelle então puxou a espada longa, a antiga arma de Nuramon. — Thorwis e Wengalf foram sábios. Eles deram-lhe sua velha espada. Quando eu a vi com você, soube que esteve com os anões. Assim você se tornou mensageiro do destino. Lembrou-me de onde essa arma vinha. Tive então certeza de que os anões viriam.
— Você sabe? — perguntou Nuramon surpreso.
— Você não se lembra de nada a respeito?
Nuramon refletiu. A espada o acompanhara ao longo de algumas vidas. Seus companheiros de luta a haviam levado para o seu clã, onde ela esperou por ele. Mas de onde ela vinha?
— Não fique quebrando a cabeça — disse Emerelle, empurrando a espada de volta na bainha. — Ela foi um presente meu. Na época eu presenteei cada um dos meus companheiros de luta com uma arma.
Nuramon não conseguia se lembrar e isso o aborrecia.
A rainha pousou a mão em seu ombro.
— Sua memória retornará. Você precisará de tempo para descobrir tudo. É uma viagem muito particular, diferente da que você viveu até agora. Cumpra-a como os anões. Guarde as minhas palavras na memória até você se lembrar por si próprio.
Nuramon fitou a arma ao lado da rainha.
— Então a magia nesta espada é a sua magia.
Emerelle riu.
— Na época eu era outra, assim como Yulivee antes também era diferente. Nem o devanthar reconheceu o feitiço da sua espada.