Passaram pelo Carvalho dos Faunos e pelo Lago de Noroelle. Ainda ontem estivera aqui com Farodin e Nuramon. Noroelle se perguntava se voltaria a ver um dia como esse.
Quando a torre de fortificação ao pé da ponte Shalyn Falah surgiu no horizonte, fizeram uma breve parada para se despedir de Aigilaos; ele não podia atravessar a ponte branca com as ferraduras em seus cascos. O centauro praguejou várias vezes contra a velha construção.
— Vejo vocês no portal — disse ele, e saiu trotando.
Noroelle seguiu o centauro com os olhos, e pensou em todas as histórias sobre ele que se ouviam por aí. Ele certamente invejava os cavalos dos elfos, que sem ferraduras e com toda a sua agilidade eram capazes de cavalgar sobre a ponte sem dificuldade.
— Mas então por que ele ferrou os próprios cascos, se é esse o motivo de não poder passar pela ponte? — perguntou Mandred.
— Dizem que os duendes da corte contaram a ele que, com ferraduras, ele conseguiria cavalgar mais rápido — respondeu Lijema. — Agora ele acha que é mais rápido, mas precisa ir pelo desvio.
Mandred riu.
— Isso parece mesmo coisa do Aigilaos!
Continuaram o caminho. Próximo à torre da Shalyn Falah, Ollowain aguardava o grupo. Mandred recebeu-o com frieza, o que o fez abrir um sorriso divertido. Atravessaram o portão rapidamente. Noroelle perguntava-se o que teria ocorrido entre Ollowain e Mandred.
Eles atravessaram a Shalyn Falah e, do outro lado, seguiram pelo largo caminho que passava pelas ruínas de Welruun. Um dia os trolls destruíram o círculo de pedras. Ela própria não presenciara o fato, mas as árvores se lembravam dele, como os espíritos da floresta. Antes, o portal de Welruun levava a um dos principados dos trolls. Ali Noroelle sentia nitidamente os poderes das sete trilhas albas, que se cruzavam formando uma grande estrela — a estrela dos albos. Os trolls haviam fechado o portal. E nenhum elfo sabia qual fora a mágica que usaram para isso.
A mata tornava-se cada vez mais densa. Noroelle lembrou-se de quando vinha com frequência a este bosque. Gostava dele. Os companheiros desceram pelo caminho entre as bétulas e finalmente chegaram à grande clareira, onde havia a colina com o círculo de pedra. Foi nas ruínas da torre que, certo dia, Landowyn dera o último golpe contra os trolls. Triste, Noroelle pensava em quantos elfos haviam morrido ali.
O grupo se deteve ao pé da colina para esperar por Aigilaos. Mandred apeou e, silencioso, distanciou-se dos companheiros. Queria ir até Atta Aikhjarto.
Noroelle ouvira dizer que o carvalho salvara a sua vida. Ela se perguntava o que Atta Aikhjarto vira em Mandred. O Carvalho dos Elfos certa vez contara a ela que o velho Atta Aikhjarto podia prever o futuro. Então o que será que o velho carvalho sabia, para decidir sacrificar a sua força para salvar um filho de humanos?
Noroelle deixou que Farodin a ajudasse a descer do cavalo. Nuramon chegou tarde demais, e por isso foi Obilee quem ele ajudou a apear. O gesto de Nuramon agradou tanto a jovem elfa que a deixou com as faces coradas. Ele conduziu-a até Noroelle.
Sentaram-se juntos sobre a grama, mas ainda era cedo demais para palavras. Logo os outros companheiros também se calaram. Até os lobos estavam estranhamente quietos.
Só quando Aigilaos chegou eles voltaram a falar.
— Demorei demais? — perguntou ele, sem fôlego. O suor brilhava no seu tronco.
— Não, Aigilaos. Não se preocupe — disse Noroelle.
O centauro estava esgotado e precisava descansar. Mais uma vez o silêncio tomou conta do grupo.
Agora era Mandred quem estava faltando, e então a Caçada dos Elfos partiria definitivamente. Mais de uma hora se passou até que o filho de humanos retornasse até eles. Noroelle daria tudo para saber o que Mandred descobrira junto a Atta Aikhjarto. Mas ele só perguntou:
— Estão prontos?
Os companheiros confirmaram com a cabeça. Noroelle sentia-se um pouco culpada. Sabia que o silêncio do grupo era sua culpa e agora queria consertar a situação.
— Venham, eu os acompanharei até lá em cima, até o círculo de pedras.
No caminho até o topo, Noroelle sentiu o poder da estrela alba como uma lufada de vento que ia de encontro a ela. O lugar não perdera nada de sua magia. Recostado em uma pedra, ali estava Xern, olhando para dentro do círculo, cujo centro estava tomado de névoa. Sem se voltar, ele perguntou:
— Quem vai entrar? — como falou em fiordlandês, aparentemente sabia que era Mandred.
O filho de humanos tomou a dianteira e respondeu:
— A Caçada dos Elfos!
Xern virou-se para eles.
— Então o portal está aberto para vocês. Mandred, você chegou a este mundo quase sem nenhuma fagulha de vida. E você o deixa com a força de Atta Aikhjarto. Que os poderes dele protejam você e o seu grupo! — Mostrou com a mão a cortina de fumaça.
Farodin e Nuramon encararam Noroelle, cheios de expectativa. Ela finalmente quebrou o longo silêncio.
— Lembrem-se de que estão fazendo isso por mim. Lembrem-se de que os amo muito, os dois. Cuidem um do outro; é o que peço a vocês.
— Cuidarei de Farodin com a minha vida — disse Nuramon.
Farodin confirmou:
— O sofrimento de Nuramon será o meu próprio. O que afetá-lo afetará a mim também.
— Por todos os albos! Suplico a vocês: não descuidem de vocês mesmos para proteger os outros. Não tomem conta só dos outros, mas também de vocês mesmos. Eu não quero que o destino tome minha decisão por mim de forma dolorosa. Retornem os dois!
— Farei de tudo para que ambos retornemos — disse Farodin.
— E eu prometo que nós dois retornaremos — acrescentou Nuramon.
Farodin parecia surpreso de ver seu companheiro prometer algo que não podia. Afinal, quem sabia o que aconteceria lá fora? Mas era justamente essa promessa que Noroelle queria ouvir.
Ela fez um sinal a Obilee e voltou-se novamente para seus amados.
— Gostaria de lhes dar um presente que os fará lembrar de mim durante a viagem.
Obilee trouxe duas bolsinhas. Noroelle apanhou-as e entregou uma a Farodin e outra a Nuramon.
— Abram! — pediu ela.
Ambos obedeceram o seu desejo e olharam o conteúdo. Enquanto Nuramon só sorriu, Farodin disse surpreso:
— Amoras!
— Elas carregam um feitiço — explicou ela. — Darão força a vocês e enchem a barriga mais do que podem imaginar. Pensem em mim quando comerem!
Os dois trocaram um breve olhar. Nuramon então disse:
— Faremos isso. E não só quando as comermos.
Noroelle abraçou Farodin primeiro e deu-lhe um beijo de despedida. Ele queria dizer algo, mas ela pôs os dedos sobre seus lábios.
— Não. Sem palavras de despedida. Sem doces juras de amor. Eu sei o que você sente. Sua língua não precisa dizer o que já vejo no seu rosto. Uma só palavra e você vai me fazer chorar. E eu ainda estou sorrindo. — Ele se calou e acariciou os cabelos da elfa.
Noroelle soltou-se de Farodin e abraçou Nuramon, beijando-o também. Ele tomou-lhe o rosto entre as mãos e olhou-a longamente, como se quisesse guardar a sua visão na memória nos mínimos detalhes. Sorriu pela última vez e soltou-a.
Os caçadores montaram em seus cavalos, exceto Aigilaos, que não precisava fazer isso, e já observavam a cortina de fumaça. Mandred então gritou:
— Sigam-me, companheiros!
E a Caçada dos Elfos adentrou o círculo de pedras.
Farodin e Nuramon cavalgavam atrás dos lobos, no fim do grupo. Olharam para trás, para Noroelle, uma última vez... e então também desapareceram na névoa.
Xern afastou-se do círculo de pedras e começou a caminhar lentamente. Obilee agarrou a mão de Noroelle. Quando a névoa se dissipou, um grande medo se apoderou da elfa. Tinha a sensação de ter visto Farodin e Nuramon pela última vez.
O mundo dos homens
Quando a névoa se dissipou, o hálito gelado do mundo dos homens acertou os caçadores como um golpe. Nuramon murmurou algumas magias de calor para expulsar o frio ao menos de suas roupas. Olhou em volta, curioso. Eles estavam em um círculo de pedras, no topo de um alto penhasco. Bem lá embaixo havia um vilarejo.