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Guillaume fixou o olhar na mesa, e então repentinamente começou a chorar. Essa visão doía em Nuramon, não só pelo fato de o milagreiro se parecer tanto com Noroelle, mas porque se punha no lugar dele. Precisou se controlar para também não irromper em lágrimas.

Depois de um longo silêncio, o curador disse, por fim:

— Que tolo fui ao achar que era um escolhido de Tjured!

— Tanto faz de onde vem a sua vocação: você a usou para fazer o bem para os humanos, exatamente como a sua mãe usava a dela para cuidar dos filhos dos albos. Até a noite em que ela... — Não quis dizer mais uma vez.

— Conte-me mais sobre a minha mãe — pediu Guillaume em voz baixa.

Sem pressa, Nuramon contou ao milagreiro sobre seus vinte anos na companhia de Noroelle. Ficou até tarde da noite. Suas palavras trouxeram-lhe de novo à lembrança tudo o que viveu com a amada. Mas, quando terminou, seu ânimo mudou; agora que havia contado tudo, ficou claro para ele que tudo estava perdido e que Noroelle jamais retornaria. Guillaume também parecia profundamente perturbado agora que sabia do sacrifício da mãe.

— Você rasgou o véu que havia em torno da minha origem — disse o curador. — E me esclareceu de onde vieram os meus poderes. Mas não me disse o que o trouxe aqui.

Nuramon respirou fundo. A hora tinha chegado.

— Perguntei à minha rainha o que poderia fazer para salvar Noroelle. E ela me disse que eu deveria partir para matá-lo.

Guillaume recebeu a notícia com muita calma.

— Você já poderia ter feito isso há muito tempo. Por que me deixa viver?

— Pelo mesmo motivo que sua mãe o trouxe até este mundo. Porque eu não sinto nenhum traço do devanthar na sua alma.

— Mas, se os meus poderes de cura mataram o seu companheiro, isso deve ter sido herança do meu pai. E quem sabe o que ainda há adormecido dentro de mim!

— Você aceitaria a morte de Gelvuun para curar a mão do homem?

— Jamais.

— Então ao menos o seu espírito está livre da força sombria do devanthar, mesmo que a essência dele se reflita na sua magia.

— Mas assim é o destino. Mesmo inocente, eu sou culpado. Por minha causa minha mãe foi banida. Por minha causa o seu companheiro morreu. E eu não posso fazer nada a respeito. Parece que minha culpa é estar vivo.

— E exatamente por isso é errado matar você. E por isso eu gostaria de levar a cabo a minha tarefa de maneira diferente da que a rainha previu. Mesmo que assim eu volte a ira dela contra mim.

— Você me deixaria fugir?

— Sim, eu faria isso. Mas os meus companheiros descobririam-no rápido. — Nuramon pensou em Ollowain. — Você precisa entender por que estou aqui. Se não fosse assim, agora você já estaria morto. Eu vim para fazer uma proposta que talvez possa salvar a sua vida e libertar Noroelle. Mas ela não é mais do que uma vaga esperança.

— Faça-a!

— Posso levá-lo até a rainha e mantê-lo a salvo de qualquer perigo a caminho da Terra dos Albos. Se você falar com Emerelle na corte, talvez consiga convencê-la da sua verdadeira natureza, da mesma forma como convenceu a Noroelle e a mim. Isso é a única coisa que posso oferecer.

— Aceito a sua proposta. Por minha mãe.

Nuramon admirou o curador em segredo. Havia se perguntado se ele aceitaria assim prontamente, pois não havia qualquer garantia de que a rainha se mostraria misericordiosa. Podia ser que Emerelle se mantivesse firme em sua decisão. Mas, apesar de tudo o que acontecera, Nuramon tinha tanta confiança na sua soberana que duvidava que ela ignoraria a sua objeção.

— Quando devemos partir?

— Devemos deixar a cidade no máximo até meio-dia. Não precisamos ter pressa.

— Então conte-me algo sobre a Terra dos Albos.

Nuramon descreveu a região central para Guillaume e também contou-lhe sobre Alvemer, onde Noroelle nasceu. Nuramon terminou quando o galo cantou, e propôs que partissem com o raiar do dia, para que pudessem sair despercebidos.

Guillaume concordou e arrumou suas coisas. Então agradeceu a Nuramon por ter lhe contado a verdade.

— Nunca vou me esquecer do que fez.

Nuramon estava satisfeito. Havia alcançado a sua meta, mesmo que com isso estivesse agindo contra as ordens da rainha. Era certo que Ollowain resmungaria, mas eles levariam o filho de Noroelle até Emerelle. Isso era um meio-termo com o qual o mestre da espada também tinha de se dar por satisfeito. Mas ele seria cuidadoso, e não perderia o guerreiro elfo de vista.

Guillaume preparou um mingau de painço, avelã e uvas-passas. Perguntou a Nuramon se também queria comer alguma coisa. O elfo recusou, agradecendo. O curador tomava seu café da manhã quando um tumulto se formou lá fora, na cidade. Nuramon pôs-se a escutar e acreditou ouvir gritos. Ao escutar cascos de cavalos, levantou-se num pulo, com a mão segurando a espada.

— O que está acontecendo? — perguntou Guillaume.

— Pegue as suas coisas! — disse Nuramon.

Nas vielas o som de luta agora se misturava com gritos de dor. A cidade estava sendo atacada!

Guillaume se levantou e agarrou a trouxa.

Os sons de luta ficaram mais próximos. De repente houve um estrondo na porta da casa, que cedeu, para o horror de Nuramon. Uma silhueta entrou violentamente. Nuramon puxou a espada para atacar o intruso. Mas assustou-se ao reconhecer o vulto. Não era ninguém menos do que...

O infortúnio

Farodin bateu a porta com pressa e empurrou a trava de madeira.

— Guarde essa espada, senão vai matar o único amigo que ainda tem na cidade. — E olhando depressa ao redor: — Há outra saída?

Guillaume o encarava como se fosse um fantasma.

— O que está acontecendo lá?

— Homens armados. Ocuparam todas as estradas que saem da cidade e invadiram o templo. Parecem ter pouca paciência com sacerdotes como você. — Farodin aproximou-se da janela que dava para a praça do templo e abriu somente uma fresta. — Veja!

Os guerreiros estavam muito bem armados. Quase todos vestiam trajes de malha de ferro e elmos com caudas negras de cavalo. Cerca de metade deles estava munida de machados ou espadas. Nos escudos redondos e vermelhos estava estampado um brasão de armas com uma cabeça branca de touro. Os demais homens estavam equipados com bestas. E mesmo que tivessem arrancado os sacerdotes do templo sem nenhum respeito, estava claro que não eram simples saqueadores. Eles avançavam disciplinadamente. Os besteiros cercavam a praça enquanto os soldados com machados empurravam os sacerdotes até o grande carvalho.

Por ordem de um enorme guerreiro louro, um dos sacerdotes, um homem corpulento e já um pouco mais velho, foi separado de seus companheiros de sofrimento. Amarraram-lhe uma corda ao redor dos pés, lançaram a outra ponta sobre um galho forte e puxaram-no pelas pernas. Desesperado, o religioso tentava puxar o hábito, que insistia em escorregar, exibindo suas partes íntimas.

— Pai Ribauld! — murmurou Guillaume, atemorizado. — O que eles estão fazendo?

— Ouvi dizer que os homens armados perguntaram por seu nome, Guillaume. — Farodin examinou o jovem sacerdote da cabeça aos pés. Certamente não era um guerreiro. — Parece que você acaba de fazer inimigos mortais em dois mundos. O que você fez para que esses homens estejam procurando por você?

O sacerdote afastou o cabelo do rosto, pensativo. Foi só um pequeno gesto, mas Farodin foi invadido por uma dor profunda. Dessa mesma forma Aileen e também Noroelle tiravam o cabelo da testa quando estavam mergulhadas em pensamentos. O sacerdote tinha traços admiravelmente delicados. Farodin via Noroelle no rosto dele, como num espelho distante. Nele, ela continuava viva.