Quando ele quis entrar atrás de seus companheiros, os guardas cruzaram as lanças na sua frente.
— Desculpe-nos, filho de humanos — disse um deles. — Esta noite não é permitido a você ver a rainha. Só o fato de estar participando desta festa já é uma honra maior que qualquer outra já concedida a outros humanos.
Mandred preparava-se para dar uma resposta ácida quando ouviu nitidamente a voz da rainha vindo da barraca. Era possível ver sua sombra através do tecido. Ela lhe parecia maior que na sala do trono, mas devia ser por causa da luz.
— Estou feliz por vê-los sãos e salvos.
— Minha rainha, o seu desejo foi cumprido. O filho de Noroelle está morto.
— Você sabe muito bem qual era o meu desejo e que ele não foi cumprido. Guillaume não morreu pelas suas mãos e ainda menos pelas dos seus companheiros. Então não me diga que meu desejo se cumpriu! — a voz da rainha dos Elfos era gelada como a luz do luar. Mandred nunca a ouvira falar assim antes. — Vocês não seriam capazes de mensurar o quanto me decepcionaram nem o tamanho do dano que vossas ações causarão. Não se trata de Guillaume morrer, mas também de como morreu. Então nem ousem me perguntar sobre Noroelle! O êxito de vocês poderia ter pago a dívida dela, mas dessa forma nada mudou.
Mandred mal acreditava em seus ouvidos. O que Emerelle queria? Guillaume estava mesmo morto! Farodin e Nuramon não mereciam ser tratados dessa forma. Sua vontade era nocautear os dois guardas para entrar na barraca e ensiná-la uma lição de justiça.
— Senhora! — respondeu Nuramon insolente. — Só lamento não ter conseguido impedir a morte de Guillaume. O filho de Noroelle não era o que você via nele. E se ele tinha alguma culpa, era somente a de ter nascido.
— Você viu o que a magia dele podia causar, e queria trazê-lo aqui! Tanto faz o que você diz: ele continuava sendo o filho de um devanthar. E mesmo na morte ele foi um instrumento. Você teve uma noite inteira para cumprir a minha ordem sem ser notado. Naquela noite você mudou o destino da Terra dos Albos. Lá fora, no outro mundo, algo está acontecendo... Não posso ver no meu espelho-d’água, mas estou sentindo. O devanthar... Ele está usando a maneira como o filho de Noroelle morreu para os seus propósitos. Não desistiu da sua vingança contra nós. De agora em diante, precisamos ficar vigilantes. Ninguém mais poderá deixar a Terra dos Albos. E ninguém vai voltar para cá. Nomeei Ollowain guardião dos portais, pois ele provou ser meu escudeiro mais fiel. Agora vocês já podem ir.
Mandred estava perplexo. O que a rainha temia? Nenhum soberano humano era tão poderoso quanto ela e, ainda assim, ordenava que fechassem os portais — como se a Terra dos Albos fosse um castelo esperando para ser sitiado e invadido.
Alaen Aikhwitan
Cavalgando ao lado de Nuramon, Mandred adentrou uma grande floresta. Em algum lugar dali estava a casa do elfo. Farodin estava com a família. Queria vir à noite para discutir com eles o que restava a fazer, agora que todos os portais entre os mundos estavam sendo vigiados pelos guardas da rainha. Nuramon parecia abatido. Mandred compreendia bem os seus sentimentos, já que a rainha frustrara toda e qualquer esperança sua de algum dia rever Noroelle.
A floresta era estranha para Mandred. Não conseguia orientar-se ali, pois as árvores pareciam confundir os seus sentidos. Quanto mais fundo penetravam na mata, mais difícil era para ele estimar em que direção cavalgavam. Talvez fosse por causa do caminho que Nuramon escolheu. Mandred observava o companheiro; para ele era como se o elfo estivesse deixando o seu cavalo decidir por onde ir. O animal deslocava-se pela floresta de forma tão determinada que mal precisava mudar de direção. Aparentemente conhecia o caminho até a casa de Nuramon.
A trilha era plana e não havia quaisquer obstáculos que precisassem transpor. Talvez pudesse ser isso o que confundia Mandred. Pelo que vira ao longe, parecia erguer-se no meio da floresta uma colina coberta de árvores. Deviam há muito tempo ter alcançado o sopé. Mas ali ao redor não havia nada mais alto que formigueiros. E talvez a diversidade da vida que o cercava também o confundisse: pássaros e animais selvagens não tinham medo de observá-los a distância, como se quisessem ver Nuramon voltando para casa.
Quanto mais avançavam floresta adentro, maiores e mais velhas ficavam as árvores. A variedade das florestas élficas surpreendia Mandred o tempo todo. Ali havia carvalhos ao lado de álamos, bétulas perto de pinheiros e faias junto de salgueiros. E tudo em perfeita harmonia. Parecia até que cresciam assim intencionalmente, para combinar com as suas vizinhas. Foi inevitável lembrar do carvalho Aikhjarto.
— Quantas destas árvores são como o velho Atta Aikhjarto? — perguntou ao elfo.
Nuramon o encarou como se estivesse contando com tudo, exceto com essa pergunta.
— As árvores também são filhas dos albos? — prosseguiu ele, surpreendendo Nuramon outra vez.
— Mas é claro! — respondeu o elfo. — Só as que têm alma, naturalmente. Mas nesta floresta não há mais muitas delas. Foi-se o tempo em que o grande Alaen Aikhwitan dava conselhos.
— Alaen Aikhwitan? Ele é irmão de Atta Aikhjarto?
— Você pode ver desta forma. Os carvalhos são os mais antigos. Alguns dizem que foram os primeiros filhos dos albos. Logo você já poderá ver Aikhwitan. —
Nuramon sorriu. Mandred não conseguiu decidir se o sorriso foi amigável ou de gozação. Para ele ainda era difícil interpretar sentimentos nas feições dos rostos dos elfos.
Eles cavalgavam, passando por árvores cada vez maiores, e Mandred se perguntava o quão poderoso Alaen Aikhwitan devia ser. Até onde seu poder era capaz de chegar?
— Todas essas árvores tiveram almas um dia? — insistiu.
— Sim. Elas formavam um grande conselho. Mas isso já faz muito tempo. E desse conselho restou somente Alaen Aikhwitan. As outras árvores com almas são muito mais jovens.
Mandred olhou ao redor respeitosamente. Se as árvores um dia formaram um conselho, agora a floresta parecia um plenário vazio, onde estava sentado somente o seu chefe. Quão solitário o Aikhwitan devia se sentir!
As ramas das árvores sobre as cabeças deles eram densamente entrelaçadas, quase como uma renda finamente tecida. O sol permanecia escondido por cima daquele telhado de madeira; raramente um fio de luz conseguia penetrar e descer até o chão. Os troncos pareciam colunas construídas por gigantes. A atmosfera solene parecia curar a melancolia de Nuramon, que estava agora com uma aparência um pouco mais relaxada.
Desviaram de um tronco imponente. Mandred virou-se na sela e olhou para trás. Era um pinheiro! No seu mundo não havia sequer carvalhos que tivessem um tronco como esse.
— Algo de errado? — perguntou Nuramon, rindo.
— Grande mesmo o... — Mandred parou no meio da frase.
Haviam alcançado a borda de uma clareira. No meio dela erguia-se um enorme carvalho. Como se para essas árvores gigantes não houvesse mais estações do ano além da primavera e do verão, ainda tinha folhas. Era tão gigantesco que a sombra do tronco alcançava a margem oposta da floresta.
Mandred prendeu a respiração. O tronco do carvalho era tão imenso quanto um rochedo. Ele não parecia uma árvore, mas algo em que cresciam árvores. Uma escada subia tronco acima, em várias curvas. Logo abaixo da copa, Mandred viu uma só janela. Ficou perplexo. A janela devia ser realmente grande, mesmo que parecesse minúscula proporcionalmente ao tronco.
— Você não mora lá, não é? — perguntou Mandred.
— Moro sim. Minha casa é ali, sobre o Alaen Aikhwitan — respondeu Nuramon calmamente.
— Em cima dessa árvore gigante?
— Sim.