— Mas você disse que ela tem alma.
Mandred achava muito estranho morar em algo capaz de pensar. Todos deviam se sentir como pulgas na pele de um cão!
— Ele é muito hospitaleiro, isso eu posso assegurar. Minha família mora nessa árvore há muitas gerações.
De repente Nuramon baixou o olhar. Com certeza pensava na vergonha que cercava a sua família. Mandred não conseguia entender. O renascimento! Os homens sonhavam com isso, mas, para Nuramon, isso parecia uma maldição. Bem que alguns filhos de albos esperavam milênios por sua redenção. Milênios... Isso era fácil de dizer da boca para fora, mas Mandred percebeu que não conseguia preencher essa palavra com significado. Uma vida assim tão longa era inimaginável para um humano. Todavia, aos elfos ela permitia que concluíssem tudo o que faziam até a perfeição. Mas será que eles se recordavam de suas vidas anteriores quando renasciam? Mandred lembrou da festa de duas noites atrás. Era assim quando um elfo partia para o luar? Fora realmente lindo e igualmente aflitivo. Estranho. O que aconteceu naquela colina certamente não foi feito para os olhos dos humanos!
Eles apearam e conduziram os cavalos ao encontro do carvalho. A cada passo, a árvore parecia mais ameaçadora para Mandred.
— Quem é mais poderoso, Aikhjarto ou Aikhwitan? — perguntou por fim.
Nuramon abanou a cabeça.
— Como o poder é importante para vocês, humanos! Mas acho que quer saber qual é o papel de Aikhjarto neste mundo. Sobre isso só posso dizer uma coisa: o poder de Aikhjarto está no portal dos mundos e em sua sabedoria e generosidade. — E apontando para adiante: — O poder de Aikhwitan está no seu tamanho, conhecimento e hospitalidade.
Mandred não ficou satisfeito. Esses elfos sempre dão voltas para dizer qualquer coisa! Será que com isso Nuramon queria dizer que não era possível comparar os dois? Ou será que tinham o mesmo valor? Essa maldita conversa mole de elfo! Será possível que para eles nunca havia respostas simples?
O elfo prosseguiu:
— Você não precisa se preocupar, Mandred. Olhe como as folhas são tranquilamente embaladas pelo vento, como brincam com a luz graciosamente! Veja a casca! Os sulcos são tão largos e profundos que, quando eu era criança, conseguia enfiar as mãos neles e até encontrar apoio para meus pés. Eu subia assim daqui debaixo até a casa lá em cima. Ele pode parecer ameaçador por causa do tamanho, mas a alma do velho Aikhwitan é boa.
Mandred examinou a árvore melhor. Viu as folhas de que Nuramon falou e a luz encoberta. Lá em cima, de fato, parecia tranquilo.
Chegaram até a escada, que era feita de madeira clara. Ali desarrearam os cavalos. Mandred se perguntou onde estava o estábulo para os animais. Até a rainha tinha um estábulo no castelo. Nuramon não fez menção de levar os cavalos a algum lugar. Soltou os animais das rédeas e colocou-as junto ao tronco do carvalho, ao lado das selas.
— Eles não sairão daqui — disse. — Vamos subir.
O cavalo de Nuramon era leal, mas a égua de Mandred certamente ainda não o desculpara pelas grosserias das últimas luas. Que pena seria perdê-la! Contrariado, ele seguiu o elfo.
Depois de começar a subida dando a primeira volta no tronco, Mandred olhou para cima. Ainda havia um longo trecho diante deles. Como Nuramon fazia se voltasse bêbado para casa alguma vez? Dormia lá embaixo, nas raízes? Ele nunca vira o amigo embriagado. Ao contrário de Aigilaos, os elfos não entendiam nada de festejar e encher a cara. Mandred se perguntou por que eles faziam festas.
Para se certificar de que era firme, o Jarl tentou sacudir o corrimão da escada. Belo trabalho de carpintaria! Se a cabeça girasse, pelo menos dava para se segurar ali.
Nuramon avançava com passos flexíveis.
— Venha! Você precisa ver isso!
Mandred seguiu o elfo. Estava difícil respirar. Era loucura morar numa árvore como esta! Pessoas sensatas só precisavam dar um passo para cruzar a soleira e chegar em casa. Maldita subideira!
Quando chegaram alto a ponto de poder olhar por cima das copas das árvores, Nuramon apontou para o cume nevado de uma montanha no horizonte:
— Aqueles são os Iolídens. Lá viveram um dia os filhos dos albos das trevas.
O som do nome não agradou Mandred. Albos das trevas! E seus filhos! Eles deviam ser os lendários elfos das trevas, sobre os quais se contavam histórias terríveis no seu mundo. Diziam que eles arrastavam humanos até fendas nos rochedos para devorar sua carne. À noite não era possível vê-los, pois sua pele era negra como a escuridão. Mandred não queria nada com esses seres e estava surpreso que Nuramon falasse deles com toda essa tranquilidade. O elfo era mais corajoso do que ele queria admitir.
Em silêncio, deixaram o restante do caminho para trás, parando diante da entrada da casa. Dali era possível ver até o castelo da rainha e as terras que o cercavam. Ali, do outro lado do castelo, devia estar Shalyn Falah, e atrás dela, o portal dos mundos. Todo o restante era desconhecido para Mandred. Certamente nenhum humano jamais conhecera todas aquelas terras. Desde que deixaram Firnstayn, Mandred refletira sobre tudo o que teria de começar como náufrago no reino dos elfos. O que lhe restava ali a realizar que um elfo não pudesse fazer mil vezes melhor?
Lembrou-se de Aigilaos. Se ao menos ele ainda estivesse vivo! Vaguear com ele pelas florestas; caçar e beber; contar mutuamente feitos heroicos inventados e indignar as finas damas elfas da corte com elogios grosseiros... Isso sim seria vida! Sorriu, afundado dentro de si. Sentia falta do centauro. Ele teria sido o melhor de todos os seus companheiros! Mandred estava decidido a levar sua dívida de sangue com o devanthar até o fim. Não sabia onde deveria começar a sua busca, nem como deixar a Terra dos Albos depois que Emerelle cercara todos os portais com guardas. Mas ele encontraria um jeito! Devia isso a Aigilaos... E a Freya!
Nuramon empurrou a porta redonda, que não parecia estar fechada nem trancada. Parecia que os filhos dos albos não tinham medo de ladrões. O elfo hesitou antes de entrar.
— O Outro Mundo confundiu a minha noção do tempo — disse ele. — Para mim é como se tivessem passado séculos em vez de anos.
— Não é o tempo. É o destino.
Nuramon parou por um instante.
— O que você disse?
— Essas palavras não são minhas — respondeu Mandred, constrangido. — Um sacerdote de Luth as pronunciou uma vez. Ele disse: o tempo parece longo quando o destino tem muitas faces.
— São palavras de um homem lúcido, e é sinal de sabedoria mantê-las na mente.
Mandred ficou satisfeito. Finalmente recebia algum reconhecimento que não fosse por força e lutas.
— Venha, você é meu hóspede em minha casa — o elfo fez um gesto convidativo em direção ao interior da árvore.
Mandred entrou. Reparou imediatamente no perfume peculiar do lar de Nuramon. Cheirava a nozes frescas e folhas. As paredes e também a porta da casa eram da mesma madeira que a escada pela qual subiram. A luz, que penetrava pela janela escurecida pela folhagem, distribuía-se tão bem que de fato havia um pouco de sombra em alguns lugares, mas nenhuma parte ficava totalmente escura. Mandred viu pedras de barin castanhas nas paredes. Elas o faziam lembrar do quarto de caçador no castelo da rainha, e de como começavam a brilhar à noite. Que preciosidade seria ter uma que fosse dessas pedras no mundo dos humanos!
Um sopro frio percorreu a sala. No chão havia agora algumas folhas do carvalho. Mas não estavam murchas: viviam como se ainda fossem um pedaço da árvore. Mandred olhou ao seu redor e perguntou-se como é que não sentia nenhuma corrente de ar na casa mesmo com todas aquelas aberturas. Os móveis eram simples e combinavam com a atmosfera do cômodo. Ali não havia nada de supérfluo, e ainda assim era bonito. Nada parecia frágiclass="underline" tudo era tão robusto quanto o próprio carvalho.
Uma escada de madeira levava até o andar de cima, que não foi possível ver de fora por causa da folhagem espessa. Esse outro piso foi feito escavando parcialmente o tronco do carvalho. Mandred perguntava-se como Alaen Aikhwitan podia ter concordado com isso. Que tipo de feitos heroicos os antepassados de Nuramon deviam ter realizado para que ele lhes concedesse essa honra? O teto arredondado era tão suave que parecia que a madeira de Aikhwitan se fundia com a madeira mais clara das paredes e do chão.