— De que árvore é essa madeira clara? — Mandred quis saber.
Nuramon pôs sua bagagem sobre um banco.
— Essa é a madeira da Ceren.
— Isso é uma espécie de árvore?
— Minha mãe dizia que era uma bétula. Naquela noite da Caçada dos Elfos eu descobri que seu nome era Ceren. Ela devia ser uma lenda entre as árvores.
— Sei... Aikhwitan vai me tolerar aqui? Com certeza nenhum humano já pôs o pé na sua casa.
Nuramon sorriu.
— Mas você conseguiu chegar até aqui. Não está se sentindo muito bem?
Mandred teve de concordar. Sentia-se seguro e protegido. Olhou ao redor mais uma vez.
— E aqui não mora mais ninguém? Sua casa não parece ter ficado mais de trinta anos sem ninguém pisar nela.
Nuramon fez cara de quem não entendeu.
— O que você quer dizer?
— Não vejo poeira nem sujeira. Só essas folhas ali no chão. Mas de alguma forma parece que elas fazem parte do ambiente.
— Ainda está como eu deixei.
Esses elfos tinham uma vida fácil. Provavelmente a árvore se encarregava de deixar tudo limpo. Talvez Nuramon sequer tivesse pensado nisso alguma vez.
Enquanto o elfo subia com suas coisas, Mandred deu uma olhada nos cômodos adjacentes. Embora nunca tivesse estado ali, sentia como se a casa lhe fosse familiar. Talvez porque conhecia Nuramon e seu lar combinava com ele.
No meio da casa na árvore havia uma sala ampla, com uma longa mesa de jantar. “Que desperdício!”, pensou Mandred. A mesa era grande demais para um único morador. Então lembrou-se de que Nuramon falara de sua família. Talvez um dia todo o seu clã tivesse vivido ali. Nessa mesa tranquilamente havia lugar para doze pessoas. Devia ser desolador morar sozinho com suas lembranças numa casa como esta. Mandred tinha consciência de que esse era o seu motivo para não querer morar mais em Firnstayn. Ficar lá sozinho com suas recordações de Freya não era para ele. Amava muito Alfadas, mas não poderia mais ser feliz lá.
Cansado, Mandred sentou-se à janela de um cômodo vizinho, onde uma almofada pesada oferecia um ótimo local para descansar. Olhando para fora, conseguia ver até as montanhas. Agora pareciam menos ameaçadoras que há pouco, quando Nuramon falou dos albos das trevas. Ele não disse que um dia eles viveram ali? E o que teria acontecido com seus filhos? Enquanto pensava nisso, Mandred caiu num sono tranquilo...
Sonhou com uma voz masculina ao vento, que sussurrava para ele: “É hora de quebrar o meu silêncio. Conte-me o que aconteceu com você!”. Então, contou à voz do sonho sobre o devanthar e seu fracasso no gelo, seu resgate por Aikhjarto, a Caçada dos Elfos, seu filho e a busca pelo filho de Noroelle. Quando terminou, esperava por um novo sussurro no vento. Mas o vento se dissipou, calando a voz.
Acordou num sobressalto e olhou para fora. Estava escuro. O vento mexia suavemente os galhos e folhas. Então, espreguiçou-se e bocejou. Tinha a sensação de ter cochilado rapidamente. Na verdade, devia ter dormido algumas horas, pois já era noite. Olhou ao redor. As pedras de barin emanavam uma luz quente. Então sentiu um cheiro. Carne! Ergueu-se num pulo e foi até a mesa de jantar ali ao lado. Lá havia legumes crus, aparentemente recém-colhidos. Pela porta aberta da cozinha viu Nuramon, que estava diante do forno a lenha e punha alguma coisa dentro dele. Mandred estava admirado. Não só por Alaen permitir que Nuramon vivesse ali, mas por deixar até que fizesse fogo! Parecia que o carvalho não se importava nada com isso.
O elfo virou-se e veio até Mandred na sala.
— Finalmente você acordou. Não tinha reparado no quanto você estava esgotado. Enquanto dormia, saí para caçar.
O elfo apanhou os legumes da mesa.
Mandred ficou envergonhado. Perdeu a caçada ali jogado, dormindo preguiçosamente.
— O lugar perto da janela é aconchegante demais para conseguir ficar acordado.
Nuramon riu.
— Minha mãe sempre se sentava à janela e falava com Aikhwitan.
Aflito, o jarl olhou para trás. A ideia de que um espírito estivera nele durante o sono o assustava.
— Para mim, foi como se tivesse ouvido uma voz.
Ele contou ao elfo o que aconteceu.
Nuramon deixou cair a faca com que limpava os legumes. Parecia surpreso e também um pouco ofendido.
— Eu passo a minha vida inteira neste lugar e Aikhwitan não fala nem uma palavra comigo. Mas aí um humano vem aqui por acaso e ele já começa a bater papo com ele. — O elfo sacudiu a cabeça. — Desculpe! É claro que ele falou com você. Afinal, você foi salvo por Aikhjarto. Ele deve ter sentido isso.
Mandred sentiu-se mal. Não pediu favores a nenhuma árvore e não queria ofender Nuramon. Árvores! Quem imaginaria que elas poderiam ser tão avoadas... Que bom que no seu mundo elas ficavam caladas! Agarrou o braço de Nuramon.
— Venha! Talvez ele também fale com você.
Eles foram até a janela e puseram-se a ouvir. Mas não se escutava nada no murmúrio das folhas. O sussurro não retornou. No fim, Mandred ficou em dúvida se realmente ouviu a voz ou se não fora só um sonho.
— Posso senti-lo aqui em todos os lugares, mas não mais que isso! — disse Nuramon. O elfo se esforçava para disfarçar o seu desapontamento, mas não conseguia. — Vamos fazer a comida.
Chegando à cozinha, Mandred viu de onde vinha o aroma. Ali havia alguns pedaços de carne assando. Ficou surpreso com a rapidez com que Nuramon preparara a carne. Em nenhum lugar da cozinha havia restos de miúdos, sangue ou pele. Assim, era impossível adivinhar de que animal era a carne que assava ali. Era clara como a de uma ave. Só de olhar, Mandred ficou com água na boca.
— O que é isso? — finalmente perguntou a Nuramon.
— Isso é gelgerok — respondeu o elfo.
Mandred estava curioso. Durante a busca pelo filho de Noroelle, os elfos sempre contaram sobre os gelgeroks, descrevendo-os em detalhes, mas Mandred ainda não era capaz de imaginar como devia ser a aparência do animal.
— O corpo dele ainda está por aqui? Posso dar uma olhada nele?
— Desculpe, Mandred. Eu o abati e deixei o que não precisava para o Gilomern.
— Gilomern? Quem é esse?
— Ele vive aqui nas florestas. É um caçador, mas também gosta de pegar para si o que os outros deixam para trás.
— Ele também é um elfo?
— Sim.
— É um amigo?
— Não. Gilomern não dá muita importância para amizades. Mas é hábito deixarmos para ele a sua parte. Ele com certeza já pegou o gelgerok. Não se preocupe. Cedo ou tarde você ainda vai ver um.
Nuramon pôs-se a cortar os legumes.
— Mandred, o que acha de preparar o molho para a carne? Eu já cortei as ervas e os temperos estão ali. O melhor é pegar o suco do assado da panela da carne e misturar tudo a seu gosto.
Mandred estava surpreso com a confiança que o elfo depositava nele. Ali estava ele, Mandred Torgridson, o jarl de Firnstayn que subjugou o devanthar... cozinhando! Se os moradores do fiorde soubessem... Então em vez de continuar cantando sobre Mandred, o jarl, cantariam sobre Mandred, o cozinheiro. Como Nuramon sempre dissera enquanto buscavam Guillaume: “Você ainda vai me fazer virar humano”. Se Mandred não tomasse cuidado, então seriam Nuramon e Farodin que fariam dele um elfo. No fim, talvez até acabasse gostando de cozinhar.
Hesitante, fez o que Nuramon pediu. Logo se surpreendeu com como o molho ficou gostoso. Ainda tomou cuidado para que a carne não queimasse e até tirou o pão do forno. Quando Nuramon experimentou o molho e disse que estava delicioso, Mandred não conseguiu esconder seu orgulho. Mas é claro que estava delicioso!
Enquanto Nuramon e ele levavam as comidas para a mesa, Farodin entrou. Trouxe sua bagagem, que deixou em uma das muitas cadeiras vazias.