— Parece que cheguei na hora certa. — Ele parecia estar de bom humor e com muita fome.
— Finalmente comer de verdade de novo — disse Mandred.
O que serviam ali não eram as pequenas porções que lhe ofereceram no castelo. Nuramon trouxera muitos legumes e carne. O tempo parecia não passar para Mandred até finalmente se sentarem à mesa.
Durante a refeição, Mandred manteve os olhos em Farodin. O que o elfo diria sobre o seu molho? Até agora não tinham falado sobre ele, mas logo isso mudaria. Mandred dirigiu-se a Farodin:
— Esta carne é mesmo deliciosa. E até essa coisa verde está gostosa — olhou para Farodin. — Não é verdade?
Farodin concordou gentilmente e disse a Nuramon:
— Noroelle sempre elogiou seus dotes culinários. Eu também aprendi a apreciá-los durante a viagem. A comida está ótima, principalmente este molho.
Mandred trocou um olhar cúmplice com Nuramon. Então recostou-se na cadeira e perguntou:
— Você sabe guardar segredo?
— Mas é claro — respondeu Farodin, enfiando um pequeno pedaço de carne na boca.
— O molho fui eu que fiz — disse ele, cheio de si.
Farodin parou, então continuou a mastigar lentamente. Quando engoliu, sorriu com ar de conspiração:
— Vocês estão querendo me pegar.
— Nem um pouco — explicou Nuramon.
— Então, meus parabéns, Mandred — disse Farodin com ar de reconhecimento.
Mandred estava orgulhoso. Quando os elfos se surpreendiam, suas verdadeiras opiniões vinham à tona.
— Mas você tem de me prometer que não vai contar para ninguém que Mandred Torgridson chegou perto do fogão!
— Eu prometo, mas só se você prometer não contar a ninguém que eu não sei distinguir os dotes culinários de um humano dos de um elfo.
Era um acordo justo. Mandred conseguiria viver com isso.
Mandred viu que tinham deixado para ele, em sua honra, a maior parte dos pedaços de carne. Isso é que era hospitalidade!
Logo que terminaram de comer, entraram em um grande cômodo lateral, cujo chão era feito de pequenas lajes de pedra. No meio da sala havia um mosaico, feito de pedras preciosas incrustadas, que mostravam um elfo defendendo-se de um troll. Ali parecia ser o lugar onde a família de Nuramon antigamente reunia o seu conselho de guerra.
Farodin parou ao lado da ampla janela, de onde era possível observar toda a região e ver ao longe as luzes do castelo de Emerelle. Nuramon encostou-se na parede perto da porta, olhando fixamente o mosaico. Já Mandred não conseguiu evitar a inquietação. Preferiria ficar andando para lá e para cá.
A atmosfera alegre que reinou durante o jantar havia evaporado. Farodin deu as costas para eles. Não era necessário ser sacerdote de Luth para saber no que os elfos estavam pensando. Embora não tivessem mais permissão para deixar a Terra dos Albos, buscavam uma possibilidade de salvar sua amada. O longo silêncio mostrava o quão difícil era a situação. De repente, Nuramon olhou para Mandred e não se conteve:
— Já faz dias que quero perguntar uma coisa a você, Mandred. Por favor, me perdoe se estiver sendo direto demais. Por que você não ficou em Firnstayn?
— Porque lá agora é o lugar do meu filho — respondeu, sem hesitar. — Às vezes os pais precisam legar sua herança a seus filhos mais cedo. Se não tivesse ficado preso na caverna de gelo, agora já seria velho. O meu tempo em Firnstayn já terminou. Era uma questão de justiça: partir e dar a Alfadas a possibilidade de se tornar jarl, caso ele se firme aos olhos da comunidade da aldeia.
— Você é um guerreiro, Mandred. Para você já basta ser pai de um jarl? Isso é tudo o que você ainda quer alcançar?
Mandred encarou o elfo admirado. Será que Nuramon queria ofendê-lo? É claro que não era o bastante!
— Eu vou encontrar o homem-javali... quer dizer, o devanthar. Ele roubou de mim a vida que eu deveria ter vivido. Vou matá-lo por isso. Seus atos me fizeram perder minha mulher... — Ele mordeu o lábio, como se os sentimentos ameaçassem dominá-lo. — E eu quero ajudá-los... Nada e ninguém é capaz de trazer Freya de volta. Mas quanto a vocês dois, vocês podem recuperar a sua amada.
— Ouvir essa esperança da boca de um humano! — disse Farodin com cinismo. — A rainha mandou guardar todas as fronteiras. Nem você pode mais voltar para o seu mundo. — O elfo sequer virou-se para eles enquanto falava.
— Farodin tem razão — disse Nuramon. — A rainha deve manter os portais fechados por muitas centenas de anos. Talvez você nunca veja a sua terra de novo.
— Minha história com a minha terra já terminou. Então, não quebrem a cabeça por minha causa. Em vez disso, é melhor pensarem em como podemos salvar Noroelle.
Nuramon baixou o olhar.
— De qualquer forma, não podemos esperar qualquer ajuda da rainha. Toda e qualquer esperança de demovê-la já morreu.
— O que exatamente a rainha fez com Noroelle? — perguntou Mandred. — Eu nunca compreendi o que aconteceu com ela. Expliquem-me, talvez eu possa ser de maior ajuda.
Farodin bufou. Nuramon, porém, continuou cordial.
— A rainha a levou até o Outro Mundo, para dali então bani-la para o Mundo Partido.
— E o que é o Mundo Partido? — Durante a busca por Guillaume, Mandred ouvira algumas vezes os elfos falarem disso, mas até hoje não fazia uma boa ideia dele. — Como alguém consegue partir um mundo? Quero dizer... Mundos não são como jarros atirados ao chão.
— O Mundo Partido é um velho campo de batalha — Farodin começou a explicar. — É o lugar onde os albos lutaram contra os devanthares e os eliminaram. Durante essa guerra, esse mundo foi separado dos outros. Só há poucos portais que ainda levam até lá, daqui ou do mundo dos humanos. Esse mundo fica entre o seu e o nosso; imagine-o como algumas poucas ilhas em um mar de nada. Ele agora não tem importância, de forma que nós designamos o seu mundo como o Outro Mundo, como se não existisse mais o Mundo Partido. O caminho até Noroelle nos leva primeiro até o seu mundo, Mandred. Lá precisaremos procurar o portal que nos levará até essa ilha no nada, onde Noroelle está presa. Quando o tivermos encontrado, então precisaremos quebrar o encanto da rainha. No fundo, Emerelle era a nossa única esperança. Tenho medo de que, se for contra a sua vontade, jamais consigamos libertar Noroelle de sua prisão. É tudo em vão.
Nuramon deu alguns passos na direção de Farodin. As palavras dele pareciam aborrecê-lo.
— Nada é em vão! Só porque nós não vemos saída não quer dizer que não haja uma. A pergunta é: até que ponto nós vamos para alcançar o nosso objetivo.
Farodin virou-se e olhou para Nuramon. Sua expressão era gelada.
— Você sabe até onde eu iria.
— Você também faria isso mesmo que nunca pudesse voltar para a sua família, já que teria lançado sobre ela uma vergonha infinita? Mesmo que você também fosse banido caso a rainha voltasse a vê-lo; e caso Noroelle o renegasse pelos seus atos? Você suportaria tudo isso para salvá-la?
Um estranho sorriso enigmático formou-se nas feições de Farodin, sem que Mandred pudesse encontrar uma razão para ele nas palavras de Nuramon.
— Eu o faria sem hesitar.
— Então não vamos ficar pensando nas interdições da rainha, mas simplesmente naquilo que precisamos fazer.
— Vou acompanhá-los até onde o caminho nos levar — disse Mandred. — Ainda tenho dívidas para saldar.
Se ele nunca tivesse vindo para o mundo dos elfos, Noroelle ainda estaria com os seus amados. O devanthar o usara como isca para atrair a Caçada dos Elfos ao mundo dos homens. O porquê de isso ser importante para o ser demoníaco ainda não havia compreendido. Tratava-se simplesmente de matar alguns elfos e mostrar a Emerelle que um devanthar sobreviveu à guerra com os albos? Ou será que ele tinha um plano muito mais profundo? E por que ele gerou Guillaume? Ao contrário de Emerelle, Mandred não era capaz de reconhecer qual era o perigo que ainda poderia resultar do filho morto. Tanto fazia quais podiam ser os objetivos do devanthar, no final das contas, mas uma coisa era certa: Mandred dera ao demônio o acesso ao mundo dos elfos e agora precisava fazer a sua parte para que os danos pudessem ser sanados. Sua segunda dívida era ainda mais pesada. Ao fazer sua promessa a Emerelle, matara Freya. E essa promessa também foi feita só por causa do devanthar. A mulher dele o amaldiçoara com razão! Por fim, reforçou: