— Seja qual for o caminho que vão percorrer, Mandred Torgridson estará ao lado de vocês.
— Mas como vamos conseguir chegar ao Outro Mundo? — perguntou Farodin.
O Jarl cerrou os punhos. Era óbvio contra quem eles tinham de se voltar antes de tudo!
— Se estiverem dispostos a se opor à rainha, então devemos lutar para tomar o caminho do Outro Mundo.
Farodin discordou com um gesto elegante.
— Não, Mandred. Tudo o que a rainha manda vigiar é bem seguro. Os portais não estão abertos para nós.
— Se a porta está fechada, precisamos encontrar um jeito de abri-la, nem que seja derrubando a parede à força!
Farodin sorriu.
— Essas paredes nem a sua cabeça dura seria capaz de derrubar, filho de humanos.
— Esperem! — os olhos de Nuramon brilharam. — Pela parede! Essa é uma boa ideia. Na verdade, é genial... Com a cabeça na parede!
Mandred não entendeu o que deixou o elfo tão fora de si. Farodin tinha razão. Esses portais não eram o que os humanos entendiam por portal. E também não havia paredes.
Nuramon iluminou-se.
— Nós somos cegos! Precisamos de um humano para abrir nossos olhos para ver nosso próprio mundo!
— Do que você está falando? — perguntou Farodin.
— É óbvio! Nós vamos ao Outro Mundo pelo mesmo caminho que Noroelle usou. Nós não vamos nos ocupar com os portais vigiados e sim abrir o nosso próprio portal.
— Nuramon, você está se superestimando — retrucou Farodin, irritado. — Isso é de longe a coisa mais tola que já ouvi de você. Nós não temos as habilidades mágicas de Noroelle.
Sobre isso, Mandred tinha outra opinião.
— É claro que Nuramon é um grande feiticeiro — protestou, decidido. — Você é quem devia saber melhor disso. Na caverna de gelo você não era mais nada além de um pedaço de carne crua... Nuramon o livrou da morte certa. Se isso não é poder mágico, então eu não sei o que chamam de magia.
— Só porque um cavalo usa ferraduras, ele não é nem de longe um ferreiro!
— O que os cavalos têm a ver com isso? — esbravejou Mandred.
— Eu explico com prazer para humanos... Alfadas é um excelente guerreiro, disso não há dúvidas. Ollowain o tornou um mestre na luta com a espada. Mas ele é bom com o machado, Mandred?
O Jarl compreendeu.
— Regular, se muito — respondeu ele, pesaroso.
— É a mesma coisa com Nuramon. Tenho uma enorme dívida com ele, porque ele me curou não só na caverna de gelo, mas também depois que deixamos Aniscans. Não quero de forma alguma desmerecer suas habilidades, mas abrir um portal é simplesmente outra coisa! Atravessar a fronteira entre dois mundos... isso é magia das grandes.
— Eu vi Nuramon lutar por você na fronteira entre a vida e a morte, e puxá-lo de volta para a vida. Que fronteira poderia ser mais intransponível que essa?
Os elfos entreolharam-se desconcertados. Estava claro que nunca tinham visto as coisas por esse prisma.
Nuramon pareceu um pouco constrangido. Finalmente tomou a palavra:
— O que os seus pais contaram sobre as trilhas dos albos a você quando era criança? — perguntou a Farodin.
O elfo hesitou antes de responder.
— Eles me contaram que elas atravessam o nosso mundo e o ligam a outros mundos.
— Assim como as estrelas dos albos! — irrompeu Mandred, deixando novamente os elfos com cara de surpresa.
— Como você sabe disso? — perguntou Farodin.
— Vanna me contou no caminho até a caverna de Luth. Mas o que exatamente isso tem a ver com as trilhas?
— Dizem que os albos viajavam por essas trilhas. Nos portais, que também chamamos de grandes estrelas albas, cruzam-se sete desses caminhos.
— E agora pensem no que Mandred disse em sua simplicidade genial — Nuramon incitou os companheiros.
Mandred não sabia se devia interpretar as palavras de Nuramon como um elogio ou uma ofensa.
Farodin olhou para ele.
— Se as grandes estrelas dos albos são os portais, então o que são as paredes? Essa é a pergunta.
Mandred não sabia aonde os elfos queriam chegar. Tinha a sensação de que Farodin esperava por uma resposta sua. Nuramon também o encarava com ar de interrogação.
— As trilhas dos albos que vão até o portal?
— Não exatamente — opinou Farodin.
Nuramon deu a resposta.
— São as estrelas albas menores. Aquelas que não formam portais certos. Nelas, é possível criar portais mágicos e atravessar para o Outro Mundo.
Farodin ficou visivelmente inquieto.
— Você me perguntou o que os meus pais me contaram sobre as trilhas albas. Agora eu também quero dizer o que eles me descreveram sobre as estrelas albas. Eles diziam que quem ousava atravessar com violência ou sem saber bem o que estava fazendo podia se tornar vítima do tempo e do espaço e se perder para sempre. Noroelle é uma grande feiticeira. Ela sabia o que estava fazendo. Nós, em compensação, somos crianças se comparados a ela. Você pode ser um curador extraordinariamente talentoso, disso não há dúvidas, mas esse tipo de magia é tão desconhecido para você quanto para mim.
— Então você quer desistir? — contestou Nuramon.
— Não. Eu não conseguiria fazer isso. Essa busca é a minha vida, mais do que vocês podem imaginar. Vejam! — Farodin sacou um lenço, estendeu-o sobre a mesa e derramou sobre ele o conteúdo de uma garrafinha prateada.
— Aqui vocês podem ver o tamanho da nossa esperança.
No lenço de seda havia um minúsculo montinho de areia.
— Isso é... — começou Nuramon, mas sem terminar.
Farodin concordou com a cabeça.
— Depois que nos contaram o que aconteceu com Noroelle, entrei escondido no quarto de vestir da rainha e lá encontrei três grãos de areia. Dizem que, quando se consegue encontrar de novo todos os grãos de areia, o feitiço da ampulheta pode ser quebrado. Durante a busca por Guillaume consegui encontrar mais 53 grãos.
— Então era por isso que você sempre se separava de nós — disse Nuramon em tom de repreensão.
— Sim. E juntei, até agora, 56 grãos. Provavelmente já não há mais nenhum na Terra dos Albos. Os restantes certamente estão no Outro Mundo. Eles foram levados por um golpe de vento na direção de todos os pontos cardeais. Acho que era parte do feitiço de Emerelle espalhar os grãos de areia para o mais distante possível.
Mandred não conseguia entender do que o elfo estava falando. Ele juntara grãos de areia? Como é que 56 grãos de areia seriam capazes de ajudá-los? Mas que raios... Procurar grãos de areia! Isso era uma loucura completa! E como ele saberia distingui-los de grãos de areia comuns?
Nuramon fitou o montinho sobre o lenço.
— Essa é mesmo uma esperança minúscula. Mas também deve haver outras formas.
— É a única que eu vejo.
— Então vamos começar por ela — disse Mandred.
Os elfos concordaram. Mas o problema dos portais fechados persistia. Farodin achava que devia haver um caminho mais seguro para o Outro Mundo do que ousar, buscando fora dos portais e com suas habilidades modestas, atravessar por uma das estrelas menores.
Nuramon, contudo, insistia que talvez conseguissem.
— Nós não precisamos nos atrever a fazer a passagem onde duas trilhas albas se encontram. Com certeza seria loucura. Mas será que isso não seria possível em um lugar onde três ou quatro caminhos se juntam em uma estrela?
— Mas como vamos aprender como... — Farodin interrompeu sua fala, assustado.
Nuramon olhou ao redor, como se tivesse visto alguém.
Mandred não viu ninguém. Desconfiado, olhou em volta. O que assutara os elfos assim? Como se ele tivesse dito em voz alta o que estava pensando, uma voz baixa respondeu em fiordlandês: