— Ouçam-me! — Quem quer que fosse, aquele que falava estava no cômodo com eles. Isso era certo, mesmo que Mandred não pudesse vê-lo. — Escutem o velho saber dos carvalhos — a voz prosseguiu.
Uma lufada suave de vento percorreu a sala.
Espantado, Farodin jogou-se sobre a mesa e cobriu os grãos de areia com o lenço de seda.
— Alaen Aikhwitan! — gritou Nuramon
Mandred pensou no sonho que teve.
— Sim, sou eu. — A árvore já não falava mais sussurrando, mas com uma voz grave de homem, mais grave do que qualquer voz humana. — Você é Nuramon. Já conheço a sua alma há um bom tempo. E você, Mandred, carrega a essência do meu irmão. De você, Farodin, até agora só tinha ouvido falar. Você ficaria admirado se soubesse o que as árvores dizem de você.
Mandred ficou calado, aflito. A voz do carvalho o arrebatava completamente. Farodin também não ousava dizer nada, mesmo que talvez fosse por outro motivo. Só Nuramon era capaz de dominar aquele encanto.
— Você está se manifestando para nos ajudar? Você nos ensinará o feitiço de que precisamos?
Alaen Aikhwitan resmungou como se quisesse repreender Nuramon.
— Desde sempre os filhos dos albos procuram minha companhia e meus conselhos. E também vou aconselhá-los. Ensiná-los, porém, eu não quero. Pois a você, Nuramon, ensinei por meio de sua mãe tudo de mim que lhe cabe. E aos demais de vocês não devo nada. — A voz ficou mais baixa: — O que vocês aspiram só uma outra árvore pode ensinar. Vão! Vão até onde a elfa do lago foi instruída. Vão! Lá vocês também serão instruídos. Não demorem! Vão... — A voz desvaneceu-se.
— O Carvalho dos Faunos! — gritou Nuramon.
O carvalho dos Faunos
Começava a nevar quando passaram cavalgando pelo lago onde tantas vezes se sentaram com Noroelle. Farodin apertou mais a capa ao redor dos ombros para espantar o frio, mas contra o gelo em seu coração não havia peça de roupa capaz de ajudar. Não nutria grandes esperanças de um dia conseguir o poder necessário para abrir um portal para o Outro Mundo. Será que Mandred tinha mesmo razão? Talvez devessem arriscar um ataque contra os guardas de um dos portais, usando da violência para conseguir o acesso ao mundo dos homens.
Ao longe, do outro lado da floresta, erguia-se o castelo de Emerelle. Será que ela sabia que estavam ali? Diziam que sabia de tudo o que acontecia na Terra dos Albos. Mas ela mesma poderia ter disseminado esses rumores. Afinal, ela não soube de nada quando o devanthar penetrou ali. Ou soube? Será que no fim ela deixou que isso acontecesse para livrar o seu povo de um destino diferente, pior que esse? Farodin expirou forte, observando a densa nuvem branca que se formara diante de sua boca. Sobre a ampla campina não soprava qualquer vento. A neve agora caía mais pesada e o castelo desapareceu na distância.
Quem sabia o que Emerelle pensava! Farodin cometera assassinatos por ela. Não sabia nem dizer quantas vezes... Em nenhum momento duvidara de que tudo que fizera sob ordens da soberana servira somente para afastar o seu povo de coisas piores. Teria se enganado? Sobre a rainha pesava a maldição de poder prever o futuro. Mas o que estava por vir era mutável. Então, jamais poderia haver certezas.
Emerelle falara disso com ele uma única vez, comparando o futuro a uma árvore. Começava com o tronco que se ramificava, formando galhos que se dividiam cada vez mais. Depois disso, Farodin foi até o jardim e, de pé sob uma árvore, tentou observar de baixo a continuidade de um galho, com todas as suas ramificações. Era impossível. Seria necessário derrubar a árvore para poder fazer afirmações mais seguras. E era assim com o futuro.
— Mas que clima miserável — resmungou Mandred, que cavalgava ao seu lado. — Entre nós, humanos, sempre dizem que no mundo de vocês reina a primavera eterna. Bela primavera!
— É assim quando os sabichões contam sobre lugares que nunca viram na vida — gracejou Nuramon, puxando as rédeas de Felbion e apontando para um pouco adiante. — Aí está ele.
Sombria, sem nenhuma folha, uma imponente árvore estava diante deles; não tão grande como Alaen Aikhwitan, mas ainda mais robusta. Desceram dos cavalos e percorreram o último trecho a pé.
Farodin viu nitidamente uma grande fenda no tronco do carvalho. A casca se soltara e a madeira sob ela tinha apodrecido. Em torno da árvore havia galhos secos no chão, tributo do Carvalho dos Faunos às tempestades de outono. O carvalho parecia caído, quase como se estivesse morrendo.
Farodin ficou horrorizado. Nunca vira uma árvore viva apodrecer na Terra dos Albos. Isso simplesmente não acontecia!
Nuramon também parecia transtornado.
Indecisos, ficaram ali de pé diante da enorme árvore, olhando para sua copa. Não se ouvia nenhuma voz. Farodin examinou seus companheiros de canto de olho. Não transpareciam com nenhum gesto se o Carvalho dos Faunos estava falando com eles.
— Logo meus pés congelarão — novamente era Mandred quem quebrava o silêncio.
— Devíamos falar com ele — disse Nuramon hesitante. — Mas como?
— Diga-me... Foi anteontem que Alaen Aikhwitan falou com você pela primeira vez, não foi? — Mandred batia os pés como se tentasse expulsar o frio.
— Sim — respondeu Nuramon. — E daí?
— Você viveu em cima do seu carvalho por muitos anos. Acaba de passar pela minha cabeça que é possível que tenhamos de esperar muito tempo até que o Carvalho dos Faunos fale conosco. Você acha que podemos fazer uma fogueira?
— Fogueira? — a voz soou de repente dentro de Farodin, fazendo-o recuar assustado. — Só mesmo um humano teria a ideia de se apresentar a uma árvore fazendo uma fogueira perto dela!
— Preciso me desculpar por nosso amigo — Nuramon apressou-se a dizer. — Às vezes ele é um pouco precipitado.
— Impeçam-no de fazer uma fogueira. Sinto que ele ainda está pensando nisso. E ele queria usar os meus galhos mortos para fazer isso? Será que ele não tem nenhum tato? — A estridente voz do carvalho era de mulher.
Mandred recuou um bom trecho. Não disse nada, mas cruzou os braços diante do peito, como que para mostrar que ainda estava congelando.
Farodin já duvidava se tinha sido esperto trazer o filho de humanos com eles.
— Estamos aqui por causa de Noroelle — disse Nuramon em voz baixa.
— Noroelle — a voz do Carvalho dos Faunos agora soava mais suave, quase melancólica. — Sim, Noroelle... Ela jamais teria a ideia de fazer uma fogueira aqui. Para mim parece fazer muito tempo desde a última vez que a vi.
— Nós queremos encontrá-la.
— Boa ideia — o carvalho concordou.
Agora a voz soava sonolenta. Seus galhos chiaram baixinho.
— Precisamos da sua ajuda para isso — Farodin entrou na conversa.
— Como poderia ajudá-los? — A voz da árvore agora parecia bocejar. — Só com muito esforço eu conseguiria sair daqui e então...
— O carvalho de vocês adormeceu — zombou Mandred. — Se eu não tivesse falado de fogo ela jamais teria acordado.
— Fogo! — a velha árvore gemeu. — Tirem esse sujeito insolente daqui! Senão vou fazê-lo criar raízes. Aí ele vai descobrir por ele mesmo por que as árvores não gostam de piadas com fogo.
Mandred não precisou de mais nenhuma provocação. Afastou-se de volta até os cavalos.
— Agora ele está pensando num machado! — esbravejou a voz da árvore. — Eu devia realmente...
— Deixe-o para lá — disse Farodin. — Mesmo que se comporte mal, ele poria a própria vida em jogo para salvar Noroelle.
— Eu sei... — De novo a voz da árvore parecia bocejar. — Sinto que Atta Aikhjarto tem grande estima pelo humano. E Atta nunca se engana... eu acho...
— Por favor, não durma — disse Farodin. — Você é nossa única esperança.
— É inverno, crianças. Minhas seivas não estão mais fluindo. É tempo de descansar. Voltem na primavera. Filhos de elfos têm tempo... como árvores...