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— Carvalho dos Faunos? — perguntou Nuramon. — Você pode nos ensinar um dos feitiços que ensinou a Noroelle? Explique-nos como abrir um portal em uma estrela alba menor.

Não obteve resposta.

— Ela está dormindo — disse Farodin, resignado. — Receio que vamos ter de esperar até a primavera. Isso se por acaso ela nos ajudar.

Ainda permaneceram mais um tempo, mas o carvalho não respondeu a nenhuma pergunta mais. Finalmente, retornaram até os cavalos. Farodin estava prestes a subir na sela quando viu um movimento fugidio na mata baixa atrás do carvalho. O elfo montou e sussurrou aos amigos:

— Não deixem transparecer nada. Alguém estava nos escutando.

— Um espião da rainha? — perguntou Nuramon.

— Não sei. Vou cavalgar para dentro da floresta e arrancar isso dele.

— E se as intenções dele forem amigáveis? — perguntou Nuramon.

— Então por que estaria se escondendo? — retorquiu Mandred.

— É o que eu acho! — Farodin puxou as rédeas e voou sobre a mata, curvado sobre a crina. Mandred seguiu-o sem hesitar.

Ainda antes de alcançarem o começo da floresta, o matagal se repartiu e um vulto de pernas de bode surgiu. Ele ergueu as mãos como se para mostrar que estava desarmado.

— Ejedin? — Farodin reconheceu o criado do estábulo da rainha.

— O que você está procurando aqui no carvalho? — trovejou Mandred, que se esforçava para refrear a sua égua, conseguindo por fim ao acertar-lhe a cabeça com o punho.

— O que estou procurando aqui? — Dentes brancos brilhavam no meio da espessa barba negra do fauno. — O meu bisavô plantou aqui uma bolota que trouxe de Dailos, sua terra natal. A partir de então, os faunos e sátiros que servem a corte passaram a cuidar do Carvalho dos Faunos. Ele transmite nossas saudações à nossa pátria distante e já chegou a nos prestar alguns favores. Então a pergunta não é o que eu estou procurando, mas o que vocês estão armando aqui.

— Não seja insolente, serviçal! — irritou-se Mandred.

— Senão o que, seu cavaleiro de primeira viagem? Vai me bater como faz com a sua égua? — Ergueu os punhos. — Então desça daí e venha me pegar!

Mandred estava quase pulando da sela quando Farodin foi até o seu lado com o cavalo, detendo-o.

— Você acha que a rainha vai recompensá-lo bem? — perguntou o elfo casualmente.

O fauno molhou os lábios com sua longa língua.

— Não acho que poderia dizer à rainha algo de que ela já não saiba. Mas talvez possamos mesmo negociar...

Farodin encarou o fauno, desconfiado. O povo dele tinha fama de ser astuto, mas ao mesmo tempo era famoso por cuidar das árvores com alma e ter boa relação com elas.

— Que tipo de negócio seria esse?

Enquanto isso, Nuramon já se juntara ao grupo, ouvindo em silêncio.

— Acho que eu poderia conseguir que o Carvalho dos Faunos falasse com vocês uma ou duas horas por dia.

— E qual é o preço disso?

— Tragam Noroelle de volta!

Farodin não acreditou nos seus ouvidos. Devia ser um truque de fauno!

— Por que você se importaria com isso, Ejedin? E não venha me dizer que nosso amor sofredor toca o seu coração sensível.

O servo dos cavalos soltou uma gargalhada sonora.

— Por acaso eu me pareço com uma fada sentimental das campinas? É por causa do Carvalho dos Faunos! Desde que Noroelle foi embora sua alma está totalmente perturbada. Está dormindo demais até na primavera e no verão. — Ele apontou para o ferimento profundo no tronco: — Vejam só como ela está doente. Na última primavera esses besouros se instalaram sob a sua casca.

— Como pode ser? — perguntou Nuramon. — Eles só se alimentam de madeira morta.

— E de árvores onde já não há nenhuma vida.

— Talvez eu consiga fazer a madeira que está apodrecendo se recuperar — disse Nuramon cuidadosamente. — Nunca tentei curar uma árvore. Mas talvez seja possível.

— Não me deem esperanças! — retrucou o fauno rudemente. — Voltem amanhã na mesma hora. Então eu vou acordar o Carvalho dos Faunos. E não tragam consigo esse humano de novo! Ele a deixa irritada e isso não faz bem para ela.

A primeira lição

Nuramon tirou a mão do ferimento do Carvalho dos Faunos. Muito ele não conseguira; de fato, a madeira sob a casca havia se firmado um pouco, mas era mesmo a tristeza por Noroelle o motivo do verdadeiro sofrimento do carvalho. Parecia que a feiticeira era como uma filha para a árvore.

O fauno aproximou-se do carvalho e apoiou sua face no tronco.

— Escute-me, Carvalho dos Faunos! — sussurrou ele.

Falava baixo demais para que Nuramon pudesse ouvir. Logo Ejedin desencostou-se de novo do tronco e recuou para trás de Nuramon e Farodin, cheio de expectativa.

— Ela ouviu? — perguntou Farodin.

Ejedin, contudo, ficou calado, somente fitando o carvalho. Quando consentiu com a cabeça, ficou claro que o Carvalho dos Faunos havia falado com ele. Finalmente disse:

— Ela está pronta para ouvi-los.

Nuramon trocou um olhar com Farodin. Como se o amigo o intimasse em silêncio a fazer isso, disse:

— Agora ouça-me, Carvalho dos Faunos!

A árvore não disse nada.

— Nós suplicamos a você! Instrua-nos agora! Não espere até a primavera! Cada dia é precioso. E mesmo que as suas lições durem muito, pode ser decisivo que nós comecemos agora.

— Essas são palavras grandiosas — retrucou o carvalho. Sua voz penetrava diretamente no espírito de Nuramon. — Você é um sábio para estar dizendo isso?

— Não, estou bem longe disso — Nuramon deu como resposta. — Foi Alaen Aikhwitan quem nos mandou até você. Ele também disse que não deveríamos demorar. Como se fosse necessário ter muita pressa.

— Alaen Aikhwitan já era sábio muito antes do meu tempo. E por meio de suas mãos, Nuramon, senti o hálito dele... Ontem, quando estiveram comigo, estava sonolenta. Foi um péssimo momento. Mas Ejedin e suas mãos curadoras me despertaram. Não sei dizer quando ficarei cansada novamente. Então ouçam o que posso fazer por vocês. — A voz do carvalho ganhou força: — Eu poderia ensinar a vocês o feitiço que os permitiria ir pelas trilhas à maneira dos albos. Você, Nuramon, reconheço ser pupilo de Alaen Aikhwitan e o favorito de Ceren. Minha magia não permanecerá desconhecida para você. Mas você, Farodin, precisa criar novas raízes e crescer sobre si mesmo. Pois a sua magia não vem de uma árvore. Você precisa querer ser mais do que já foi um dia e é agora. De todos nós será exigido algo extraordinário. Nós precisamos semear o chão congelado para poder colher na primavera.

— Conseguiremos alcançar até a primavera o que você tem para nos ensinar? — desconfiou Farodin.

O Carvalho dos Faunos ficou um tempo em silêncio antes de responder.

— O que não tiverem aprendido até lá nunca mais será útil para vocês. Estejam sempre atentos e mantenham a mente preparada.

O fauno deu um passo adiante.

— Você mandará os besouros embora?

— Eles estão aquecidos dentro de mim. Estão descansando e desprevenidos. Seria cruel tirá-los daqui neste frio. Decidirei a seu respeito na primavera.

Nuramon pressentiu o que isso significava. Na primavera o carvalho decidiria se Farodin e suas habilidades eram suficientes para salvar Noroelle — e, assim, a si mesmo também.

— Pois bem, meus alunos elfos. Vejo que a mente de vocês está cheia de perguntas. O que vou apresentar a vocês é algo que já disse a Noroelle um dia. — O carvalho não se apressou a continuar falando. Quase parecia querer pôr a paciência de Nuramon e Farodin à prova. — Existem cinco mundos conhecidos por nós. Chamamos suas raízes de trilhas dos albos. Elas atravessam cada um dos mundos e os ligam uns aos outros. Só a força que flui nelas faz a magia e os feitiços naturais de nossos campos possíveis. — Agora o carvalho falava mais rápido, e sua voz soava como a de uma jovem esperta. — Um dia os albos viajaram nessas trilhas, de um lugar para o outro e também entre os mundos. As estrelas dos albos são cruzamentos, onde as trilhas se encontram, se conectam e voltam a se separar. Nesses lugares a magia é forte. E quanto mais trilhas se cruzam, mais poderosas as estrelas serão. — A árvore fez uma pausa. — Isso eu também esclareci a Noroelle outrora — completou ela.