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Nuramon, que notara a sua surpresa, puxou um galho para si e segurou uma folha contra a luz do sol poente.

— O vinho... É como se ele tivesse penetrado até as nervuras das folhas.

Mandred teria conseguido cumprir o que queria? Ele disse tantas vezes que tinha vontade de se embebedar com Atta Aikhjarto, para celebrar adequadamente seu salvamento pelo velho carvalho. Mas será que era possível deixar uma árvore bêbada? Em dúvida, Farodin ergueu os olhos para as folhas.

— Você está sentindo? — Nuramon olhou em volta, admirado.

Farodin ouviu um cochicho entre as folhas, como se um vento leve balançasse a folhagem. E nada além disso.

— A árvore. Atta Aikhjarto está cantando. Está dentro de mim. — Nuramon continuou em pé, segurando o coração. — Isso é... extraordinário! Nunca ouvi algo assim.

Farodin afastou os ramos, separando-os. Não ouvia nada — só o ronco de Mandred. O filho de humanos estava deitado, apoiado no tronco. Sua barba estava suja de vômito. Ao redor dele havia ainda mais cacos. Ele parecia ter destroçado todas as ânforas depois de esvaziá-las. Que destruição sem sentido!

Nuramon ajoelhou-se ao lado de Mandred e chacoalhou-o de leve pelo ombro. O companheiro gargarejou no sono e balbuciou algo, mas não quis acordar.

— Talvez seja melhor deixá-lo aqui — disse Farodin. — Para ele e para nós.

— Você não pode estar falando sério! — retrucou Nuramon severamente. — Você está cego? Ele fez isso por desespero. Ele não se encaixa neste mundo. Nós precisamos levá-lo conosco. A Terra dos Albos não foi feita para ele.

— Sim, senhor, eu vou junto... — balbuciou Mandred. O filho de humanos tentou se erguer, mas logo afundou no lugar. — Eu vou junto — e arrotou. — Tragam-me um cavalo!

— Vocês todos vêm conosco — soou uma voz de mulher.

Os galhos se curvaram e afastaram. Uma guerreira vestindo um longo traje de malha de ferro adentrou a folhagem. Trazia duas espadas curtas afiveladas aos quadris. Yilvina!

— Não tentem fugir! — disse decidida a jovem elfa, deixando a mão direita escorregar até o cabo da espada. — Vocês estão cercados. Eu lidero a guarda aqui no portal. Acabo de receber a ordem de levá-los até a rainha. Ela está caçando na Velha Floresta e deseja que vocês a acompanhem.

Farodin ficou tenso.

— E você ergueria sua espada contra nós, mesmo depois de termos cavalgado por tanto tempo juntos?

Yilvina desviou o olhar.

— Não me obriguem a fazer isso. A ordem da rainha é clara. Recebi o alerta de que vocês tentariam escapar pelo portal.

Farodin agarrou seu cinto de armas.

— Então devo depor a minha espada.

— Não, seu cabeça-dura. Eu não sigo ordens de levá-los a um calabouço, mas de escoltá-los até a rainha. Você acha que estou me sentindo bem com isso?

Nuramon pousou a mão suavemente sobre o braço de Farodin.

— Deixa para lá. Vamos com ela.

A estrela dos Albos

A água espirrou neles até a cabeça quando cruzaram o riacho a todo galope. Felbion subiu com pressa a ribanceira na outra margem. Nuramon abaixou-se para desviar de um galho mais baixo e olhou para trás. Mandred se esforçava o quanto podia para manter-se na sela. O filho de humanos segurava com força as rédeas de sua égua e estava estranhamente pálido. Ao longo dos anos em que buscaram Guillaume, ele de fato havia melhorado seu estilo de cavalgar, mas não conseguia acompanhar seus amigos elfos.

Nuramon refreou o cavalo e deixou-o diminuir o ritmo para um trote lento. Yilvina seguia ao lado deles sem esforço, levando sua lança de caça atravessada na sela. Farodin, cavalgando bem atrás dela, fez um sinal com a cabeça para Nuramon. Era esse o momento! Já havia cinco dias que eles cavalgavam com o grupo de caça da rainha, nem por um instante haviam tirado os olhos deles. Havia algumas horas afugentaram um grande cervo, seguindo-o com toda a pressa para dentro da mata. Ao fazer isso, deixaram o restante do grupo para trás; os outros preferiam uma caça mais nobre. No início da manhã, o centauro Phillimaco, descobridor de rastros da rainha, encontrou a pista de um grande gelgerok. Graças a isso, poucos perseguiram o cervo com eles. Como ficou cada vez mais cansativo seguir a presa no meio da mata alta, todos ficaram para trás. Todos exceto Yilvina, que não se esforçava para dissimular que os acompanhava para vigiá-los. Mas como se livrariam dela? Logo perderiam Mandred se tentassem deixar a elfa para trás em uma cavalgada selvagem.

Chegaram a uma clareira onde cresciam moitas de amoras silvestres e jovens brotos de bétula. Na borda norte havia um rochedo coberto de musgo, ao pé do qual brotava uma nascente. Não se via o cervo em lugar nenhum.

Yilvina encarou Nuramon de forma desafiadora.

— Lugar perfeito para descansar, não é? — fincou a lança no chão de areia e pulou da sela. — Não deixem o filho de humanos fazer isso — disse ela, indo até a nascente sem esperar a resposta.

— O que eu não devo fazer? — perguntou Mandred surpreso. Então sorriu atrevido: — E o que dá para fazer com uma mulher tão magricela?

— Ela sabia. O tempo todo.

Nuramon seguiu a elfa com os olhos. Sem dizer nenhuma palavra e sem qualquer gesto dissimulado, ela insinuou que estava do lado deles. Mas tanto fazia o que pensava, ela jurara lealdade à rainha.

— Vou resolver isso — disse Farodin, desmontando. Pegou a lança do chão e seguiu Yilvina até a nascente.

Mandred bateu os dentes.

— Por todos os deuses, o que vocês estão planejando? Mas vocês não podem...

Nuramon agarrou as rédeas dele antes que tentasse correr.

— Deixe-o! Farodin sabe o que está fazendo. E Yilvina também.

— Ela salvou a nossa vida em Aniscans. Ele não pode...

Farodin pôs-se de cócoras ao lado da elfa. Ambos pareciam trocar rapidamente algumas palavras.

Então Farodin levantou-se e ergueu a lança. Yilvina estava agachada de forma imponente ao lado da fonte, com a cabeça erguida. Nuramon encolheu-se quando a lança veio abaixo. Farodin havia usado a arma como porrete para acertar um golpe violento na têmpora de Yilvina. A elfa caiu de bruços e não se mexeu mais.

Mandred sacudiu a cabeça.

— Vocês estão malucos, seus elfos! Como vocês são capazes de simplesmente abater a nossa companheira?

Nuramon se surpreendeu com o quanto era difícil para o filho de humanos entender o óbvio.

— Ela nos deu a entender do jeito dela que toleraria a nossa fuga — esclareceu ele. — O fato de ter enfiado a lança no chão significa que não queria erguer sua arma contra nós. Mas a sua honra e o seu juramento de fidelidade à rainha a impediam de simplesmente nos deixar ir.

— Não teria bastado ela simplesmente dizer que nos perdeu de vista?

Nuramon suspirou.

— Ela recebeu a ordem de nos vigiar. Nos perder seria uma desonra para ela.

— Mas os outros cavaleiros, que nos seguiram no começo da caça ao cervo, ficaram para trás.

— Eles não tinham ordens para nos vigiar. Para eles a caçada estava cansativa demais.

Farodin retornou até eles e montou no cavalo.

— Vamos embora! — E, olhando para a borda da clareira: — E vamos torcer para que nenhum guarda tenha nos seguido em segredo.

Angustiado, Nuramon observou a floresta. Não era nenhuma arte esconder-se nas pesadas sombras das árvores. Seguiu Farodin com uma sensação ruim. Mandred manteve-se a seu lado.

— Por que eu não podia nocauteá-la? — perguntou o filho de humanos. — Não teria sido melhor? Em cinquenta anos no máximo eu vou virar comida de verme. Vocês terão que conviver com isso talvez por séculos ainda.

— Yilvina provavelmente tinha medo de que você destroçasse o crânio dela com toda a sua delicadeza.