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— Eu também sou capaz de golpear com muito cuidado — disse Mandred.

— Ora, entenda que as pessoas meçam você por sua reputação antes de qualquer coisa.

O elfo estava cansado do assunto. Mas não havia nenhuma esperança de o filho de humanos se calar no momento.

— O que vai acontecer se a rainha enviar alguém para nos perseguir no meu mundo? — perguntou Mandred. — Esse Phillimaco parece ser um ótimo seguidor de rastros.

— Para escapar de perseguidores, nós vamos pegar uma estrela alba onde apenas três trilhas se cruzam. Quem abrir um portal ali depois de nós vai parar em um lugar diferente do seu mundo.

Mandred franziu a testa.

— Desculpe... Mas como o Carvalho dos Faunos não me tolerou por perto, não entendi muito da magia de vocês.

Nuramon divertiu-se ao perceber um tom de ironia nas palavras de Mandred. Então esclareceu ao filho de humanos o que as estrelas formadas por menos trilhas reservavam. Sua ligação entre os mundos era tão instável que jamais seria possível chegar ao mesmo lugar duas vezes ao cruzar de um mundo para outro por elas. Como sua natureza era tão fugaz, não havia portais fixos como nas grandes estrelas albas. Por fim, também contou a Mandred dos perigos que havia.

O filho de humanos ouviu com atenção, e então perdeu-se em pensamentos. Nuramon não levaria a mal se ele quisesse ficar um pouco para trás. Para não o influenciar em sua decisão, conduziu o cavalo para mais adiante, até emparelhar com Farodin.

— Tenho uma pergunta, Farodin.

— Vá em frente.

— Como você encontrou os grãos de areia?

— Usei um feitiço que não fazia há mais de cinquenta anos. Com esse feitiço eu posso encontrar qualquer coisa se eu souber o que estou procurando.

— Você pode usar esse feitiço para achar Noroelle?

— Não, porque ela está no Mundo Partido. Mas talvez eu possa encontrar o portal até ela. — E, hesitante, ressalvou: — No entanto, para isso eu preciso primeiro saber o que procurar — disse por fim. — Mas, de qualquer forma, eu consigo encontrar os grãos de areia desde que chegue perto o suficiente deles.

Nuramon não se acostumava com a ideia de seguir o rastro de grãos de areia.

— Deve haver um outro caminho para libertar Noroelle.

— Enquanto não encontrarmos esse outro caminho, isso é tudo pelo que podemos nos guiar. Mas antes vamos ver se conseguimos abrir um portal entre os mundos. Ainda tenho dúvidas.

— Nós vamos conseguir. Tenho certeza.

— A não ser que a rainha tenha mandado alguém para seguir a nossa pista — disse Farodin.

Nuramon olhou para trás. Não viu ninguém. Farodin, no entanto, avisou:

— Agora há pouco, na clareira, alguém estava à espreita nos arbustos.

— E por que você não disse nada? — perguntou Nuramon, indignado.

— Isso não teria mudado nada.

Nuramon não gostava da forma como Farodin guardava o que sabia para si, tomando decisões arbitrárias por todos eles.

— O que você acha? Quem era?

O elfo deu de ombros.

— Alguém que tem medo de um conflito direto. Espero que consigamos surpreender o nosso perseguidor quando abrirmos o portal. Se é que vai dar certo... É melhor não ficar olhando para trás o tempo todo. Vamos dar a ele uma falsa sensação de segurança.

Quando finalmente chegaram ao fim da floresta, tendo diante de si um pasto aberto, deram rédeas para os cavalos. Galoparam ao encontro das terras das colinas de Yaldemee. Os cavalos estavam contentes de avançar a galope solto. O cavalo marrom de Farodin assumiu a ponta, enquanto Felbion e a égua de Mandred, que ele ainda não batizara, corriam lado a lado.

Mandred estava profundamente curvado sobre o pescoço de sua égua. Com gritos selvagens, impelia-a para a frente. Também parecia se divertir com a corrida. Nuramon deixou-se ficar um pouco para trás, para que o filho de humanos desfrutasse ao menos o pequeno triunfo de não ser o último.

Chegaram à terra das colinas sem se deparar com qualquer perseguidor. Talvez tivessem conseguido se livrar dele. Por segurança, decidiram ir por um desvio. Cavalgaram por um tempo dentro de um rio raso para não deixar rastros. Farodin, contudo, duvidava que dessa forma pudessem enganar Phillimaco.

No fim da tarde, chegaram ao vale de pequenas colinas do qual falara o Carvalho dos Faunos e apearam. Assim que Nuramon pôs os pés no chão, sentiu o poder de uma trilha alba. Devagar, eles conduziram os cavalos em frente. No vale havia uma única árvore e poucas moitas. As colinas ao redor, recobertas de grama, formavam subidas íngremes. A cada passo, Nuramon sentia a corrente da trilha. Era como um caminho de gelo sobre um rio tão fino que se podia sentir a água fluir sob seus pés. Deteve-se no fim do vale. Sentiu um turbilhão logo acima do chão. Vinda de três lados, a força das trilhas albas chegava ali como uma torrente, misturando-se e voltando a fluir por três trilhas.

Nuramon olhou ao redor. Nada denunciava que ali havia uma estrela alba. Nem uma clareira, nem pedra alguma marcando o lugar. Mesmo assim, sabia ter encontrado o alvo.

Desconfiado, Farodin buscou rastros de outros filhos de albos. Mas nada indicava que outro ser tivesse procurado aquele lugar nos últimos dias ou semanas. O Carvalho dos Faunos dera-lhes um bom conselho. Aqui eles poderiam abrir um portal para o Outro Mundo com tranquilidade.

Nos últimos dias, Nuramon sempre encorajara os companheiros e tentara principalmente acabar com os pensamentos de Farodin. Mas agora dúvidas sérias também o acometiam. No inverno anterior, ele adquirira muitos conhecimentos. Além disso, o Carvalho dos Faunos afirmara que ele tinha muito talento. Nada, contudo, mudava o fato de que ele nunca tinha aberto um portal antes.

— Nós chegamos ao nosso alvo. Consigo sentir a estrela dos albos — esclareceu Nuramon aos companheiros, mas dirigindo-se mais a Mandred que a Farodin.

— Será que nossos cavalos terão coragem de atravessar o portal? — perguntou Mandred, examinando a grama de forma desconfiada, como se ali devesse haver algum sinal de que estavam diante de uma estrela alba. — Já estou muito acostumado a não precisar andar até esfolar os pés.

— Só precisamos tentar — retrucou Farodin.

— Olhem em volta mais uma vez, respirem este ar — disse Nuramon, melancólico. — Talvez seja a última vez que vemos a Terra dos Albos.

Quem infringia as ordens da rainha tão abertamente quanto eles não devia contar em pôr os pés naquelas terras novamente.

— Tenho certeza de que é a última vez — afirmou Mandred.

Farodin permaneceu calado. Nuramon, todavia, tinha secretamente a sensação de que veria novamente a Terra dos Albos, mesmo que não devesse ter esperanças disso.

Finalmente Nuramon fez o feitiço. Primeiro concentrou-se no fluxo das trilhas dos albos cuja força se fundia na estrela. Então ergueu a cabeça de forma que o sol pudesse brilhar sobre seu rosto. Era um feitiço que envolvia luz e calor, e ambos agora atingiam sua face. A magia e o calor já se encontravam frequentemente nas curas que operava, por isso não eram desconhecidas para ele. Então ele se abriu para a força do sol e deixou-a fluir, através dele, para a estrela dos albos. Seu feitiço abriu diretamente uma fenda no turbilhão de forças. Por um momento, teve a sensação de ser puxado para a estrela dos albos. Resistiu a ela com todo o seu vigor. De repente algo tocou seus ombros e ele escancarou os olhos. Mal conseguia enxergar. Para ele, era como se a força do sol que ele acolhera em si irradiasse de seus olhos. Ali próximo ele notou duas sombras. Deviam ser Farodin e Mandred.

Nuramon fechou os olhos e tentou com muito esforço persistir no feitiço que ameaçava escapar dele. Ajoelhou-se, pôs as mãos sobre a terra morna e deixou a força do sol fluir por seus braços, como se a estrela alba fosse um doente cuja chaga ele tivesse de fechar com seu poder. Mas esse não era um feitiço de cura; a ferida ainda não podia fechar. O que ele via como uma ferida na estrela dos albos devia ser parte do feitiço. Talvez no fim fosse até mesmo o próprio portal. Nuramon sentia a força fluir das pontas de seus dedos, e esperava pela dor que até então sempre estivera ligada a todos os seus feitiços. E justamente porque a dor não vinha, ele mantinha-se cauteloso. Não queria ser pego desprevenido pelo sofrimento.