Ele sentiu uma das três trilhas pulsar com uma força que a distinguia das outras duas. Era como o contraste entre água salgada e doce. Essa trilha em especial devia ser a que levava ao Outro Mundo. De repente, veio a dor. Um calor ardente percorreu suas mãos e irradiou-se até os dedos do pé. Tentou desesperadamente se defender, mas a dor crescia e crescia e logo tornou-se insuportável. Nuramon recuou da estrela e abriu os olhos. A luz que antes ofuscava o seu olhar havia desaparecido, permitindo a ele ver os companheiros de pé ao seu lado. Junto a eles havia uma ampla coluna de luz, que parecia uma fenda no mundo.
— Você conseguiu! — gritou Farodin.
Nuramon aproximou-se cautelosamente. Ele havia aberto uma ferida na estrela dos albos e feito a luz do sol penetrar nela.
Enquanto Mandred mantinha-se imóvel, olhando para a luz como se tivesse criado raízes, Farodin deu a volta na coluna de luz. Nuramon pôde sentir que ela alimentava-se da força do turbilhão. Estava com um medo terrível. Se tivesse cometido um erro, talvez todos morressem.
— Vocês acham que esse é mesmo o portal que nós queríamos criar? — perguntou ele.
— Eu não estou ligado à rede da sua magia, mas olhando de fora tudo está da forma como o Carvalho dos Faunos descreveu — esclareceu Farodin. — E, afinal, temos escolha? Da minha parte estou pronto para arriscar.
Mandred pegou a rédea de sua égua.
— Eu queria atravessar primeiro.
— Isso está fora de questão — retrucou Farodin. — É perigoso demais. Você veio junto por nossa causa, e por isso eu vou antes de você. Se eu for queimado, por favor encarregue-se em meu nome de dizer a Nuramon o que eu acho dele — disse, sorrindo amarelo.
— Nós estamos indo ao meu mundo, e ninguém senão Mandred Torgridson vai pôr o pé ali primeiro! — Com essas palavras ele simplesmente avançou, desaparecendo de repente na luz.
Farodin sacudiu a cabeça.
— Mas que cabeçudo! — disse, apanhando o seu cavalo. — Qual de nós será o próximo? — perguntou então.
— Eu abri o portal, e queria fechá-lo novamente.
Farodin baixou o olhar.
— Sobre a nossa rivalidade por Noroelle eu queria... — e interrompeu-se. — Vamos nos esquecer disso e nos ater ao que Noroelle disse antes da Caçada dos Elfos.
Sem mais palavras, ele seguiu Mandred para dentro da luz.
— Venha, Felbion — chamou Nuramon, e o cavalo veio até o seu lado. — Atravesse. Eu vou depois de você.
O feitiço de Nuramon que fecharia o portal dentro de poucos instantes era para ele como um movimento mental de mão, que ele executou seguindo sua vontade. Não era mais que um feitiço de cura para a ferida da estrela dos albos. E ele entendia de feitiços de cura. Uma vez que começasse a pensar nele, já não conseguiria mais anulá-lo. Estava prestes a pisar na luz quando percebeu um vulto na entrada para o vale, de pé sobre uma colina. Era uma mulher. Ela ergueu a mão e fez um gesto discreto.
Obilee! Em seu rosto havia preocupação, como ele era capaz de reconhecer mesmo àquela distância. Talvez até estivesse chorando. Ele acenou de volta para ela. Não restava tempo para mais que isso. A coluna de luz já começava a encolher. Ele se perguntou por que Obilee não se revelou antes para eles. E então caminhou para dentro da luz. Um piscar de olhos depois e um calor chamuscante o atingiu. Seria isso a última coisa que ele sentiria? Será que o feitiço fracassara? Um passo e a luz do portal tinha se apagado. Sobre ele queimava um sol implacável.
Seus companheiros já estavam lá, e isso o deixou aliviado. Mas quando olhou em volta, o alívio passou. Em todo lugar ao redor deles só havia areia, até onde os olhos alcançavam. Era o Outro Mundo. Nunca confundiria esse céu com o que cobria a Terra dos Albos, pois ali mesmo em dias claros o ar parecia turvo.
Um deserto! De todos os lugares do Outro Mundo eles foram cair justo em um deserto! O destino novamente lhes pregara uma peça. O Luth de Mandred mais uma vez tecera uma de suas tramas. Nada poderia mostrar melhor quão remota era a esperança de encontrarem Noroelle quanto a chegada a este vazio.
Mandred estava sentado à sombra de seu cavalo, respirando com dificuldade. Farodin ajoelhou-se e ergueu desolado a mão cheia de areia, deixando-a escorregar por entre os dedos.
A terra do fogo
Não deixaria transparecer nada, pensou Mandred. Sempre um passo depois do outro. Agora já fazia dois dias que estavam nessa terra desoladora. Nuramon dissera que, na estrela, eles haviam seguido um caminho entre três, mas o filho de humanos não viu qualquer indício disso. Ao menos já tinham deixado as dunas para trás. Diante deles havia uma planície sem fim. Como ossos de monstros gigantes, havia rochas brancas fincadas na areia. Não conseguia mais suportar os olhares preocupados dos companheiros elfos.
— Eu estou bem — resmungou para Farodin.
Maldito bando de elfos! Para eles o calor parecia mal fazer diferença. Eles sequer suavam!
Mandred passou a língua por cima dos lábios. Sua boca estava seca, sentia os lábios como uma corda áspera de cânhamo. A pele estava rachada e coberta de cascas. Seu rosto doía de tão queimado pelo sol inclemente.
Olhou para a sua sombra. Estava grande demais! Ainda faltavam algumas horas para o meio-dia! E, ainda assim, o calor já era insuportável.
Mandred se esticou. Só não podia demonstrar fraqueza! Como é que os elfos suportavam isso tão bem? Nuramon parecia um pouco esgotado; ele não era nem de longe um rapaz tão durão quanto Farodin. Mas até ele estava aguentando bem. Mandred relembrou do tempo em que estiveram à caça do devanthar. Nuramon fizera algum feitiço que soprava ar quente para baixo de suas roupas. Mesmo no meio do inverno mais rigoroso, o elfo não sentiu frio. Será que eles também conseguiam refrescar o ar debaixo do que vestiam? Será que era segredo? Devia haver algo desse tipo.
Enquanto isso, também ele, Mandred, havia parado de suar. Mas não porque se acostumara ao calor. Ele estava ressecado como um pedaço velho de queijo de ovelha. Passou de novo a língua pelos lábios secos. Ela estava inchada.
Mandred agarrou a patilha da sela de sua égua. Para ela o calor também não parecia importar tanto. Naquela manhã ele dividira com ela a água que ainda lhe restava. Enquanto bebia, ela o encarara com seus olhos grandes e negros como se tivesse pena dele. Cavalos que tinham pena de humanos! O calor o estava deixando louco!
O silêncio no deserto era assustador. Era possível ouvir baixinho o vento rolar os grãos de areia uns sobre os outros. Passo a passo. Seguir em frente. O cavalo o puxava. O apoio fazia bem. Os elfos levavam seus cavalos pelas rédeas. E ele se deixava conduzir pelo seu! Já não tinha mais forças para reagir.
O vento ficou mais fresco. Mandred soltou um som rouco e gutural. Em outros tempos, teria sido uma risada. Vento fresco! Apenas vento. Vento quente como a lufada que atingia o padeiro quando abria seu forno. Que porcaria de fim para um guerreiro! Seria capaz de chorar. Mas já não tinha mais lágrimas. Estava seco como uma maçã velha. Que morte miserável!
Ergueu a cabeça. Os raios do sol atingiram seu rosto como punhais. Mandred voltou-se um pouco para o lado. Seu olhar vagueou até o horizonte. Nada — não havia fim para o deserto. Só blocos brancos de pedra e areia amarela.
Estava tudo começando de novo! O ar derreteu-se, tornando-se mais denso e irregular. Quase como geleia de mocotó. Tremeu e se fundiu. Será que bem no fim ele também derreteria? Ou, em algum momento, ele ficaria tão ressecado que de repente pegaria fogo? Talvez ele só tombasse e parasse de viver...
Mandred puxou o odre do cinto, abriu-o e pôs nos lábios o bocal entalhado em osso. Nada. Ele sabia que há muito tempo bebera tudo o que havia ali. Uma única gota lhe bastaria! Só precisava de uma vaga lembrança de água. Torceu o couro desesperado, e o ar quente assobiou no bocal. Tossindo, deixou o odre cair.