Desconfiado, olhou para Farodin, que andava na frente dele. Seu odre era maior. Com certeza ele ainda tinha água e não queria dividi-la.
Não, ele não mendigaria, Mandred repreendeu a si mesmo. Se os elfos suportavam, ele também conseguiria. Ele era muito maior e mais forte que aqueles porcarias. Não era possível que os dois suportassem esse martírio melhor que ele. Com certeza tinham odres maiores. Ou talvez tivessem odres encantados, que nunca esvaziavam. Ou... Sim, era isso! Não, não era nenhum feitiço! À noite, enquanto ele dormia, tinham roubado a sua água! Era a única explicação para que ainda continuassem dando um passo depois do outro nessa maldita areia. Mas a ele, Mandred Torgridson, não enganariam. Seus dedos tatearam o cinto em busca do machado. Ele os observaria. E, quando menos esperassem, atacaria. Roubar a água dele! Que bando infame! E depois de tudo o que tinham passado juntos.
Sua mão direita escorregou da sela. Ainda cambaleou alguns passos e, então, caiu de joelhos. Em um instante, Nuramon já estava a seu lado. Sua pele estava rosada. Havia sombras escuras sob seus olhos, mas... Os lábios não estavam rachados. Ele tinha o suficiente para beber! A água dele! A mão esquerda de Mandred agarrou com força o cabo de madeira do machado, mas não conseguia puxar a arma do cinto. Nuramon continuou curvado para a frente. Suas mãos estavam agradavelmente frias, e ele passou-as pelo rosto de Mandred. O ardor simplesmente cessou.
Mandred via a garganta do elfo bem acima dele. Uma garganta cheia de sangue molhado e delicioso. Precisava mordê-lo. Com certeza ainda tinha forças para rasgar sua garganta com os dentes. A ideia do sangue regando seu rosto esfolado fez Mandred suspirar de vontade.
— Nuramon? — Era realmente a primeira vez que Mandred reconhecia medo na voz de Farodin. — O que é aquilo?
O guerreiro elfo estava imóvel, e apontava para o horizonte ao sul. Uma faixa marrom e estreita surgira entre o céu e o deserto. A cada momento tornava-se maior.
Para Mandred parecia que o ar se solidificava em uma massa dura e sufocante. A cada respiração, sua garganta queimava como fogo.
— Uma tempestade? — perguntou Nuramon inseguro. — Pode ser uma tempestade?
Um golpe de vento jogou areia no rosto de Mandred. Ele piscou para tentar deixar os olhos novamente livres. Nuramon e Farodin o agarraram pelos braços e o arrastaram para trás de uma rocha da altura de seus joelhos. O garanhão de Nuramon relinchou com medo. Tinha as orelhas baixas e encarava a coluna marrom que aumentava cada vez mais.
Os dois elfos fizeram os cavalos se ajoelharem atrás da rocha. Mandred gemeu alto ao ver Farodin derramar o último resto de água em um lenço e enrolá-lo ao redor das ventas de seu garanhão. A égua de Mandred dava resmungos estranhos de medo. Então, de repente o céu desapareceu. Véus de areia rodopiante tinham feito o mundo encolher e agora se resumir a poucos passos de largura.
Nuramon pressionou um lenço úmido sobre o nariz e a boca de Mandred, que sugou avidamente o tecido molhado. Tinha apertado os olhos em ranhuras estreitas, mas ainda assim a areia encontrava caminho entre seus cílios.
Farodin escolhera bem o lugar de abrigo. Protegidos pela rocha plana, logo conseguiram ver a areia fina passar à esquerda e à direita formando um véu sem fim. Terra e céu pareciam ter se fundido em um só. Areia e poeira que vinham de cima os cobriram. Mas a maior parte dela era carregada pelo vento por cima deles.
Apesar do lenço na boca, Mandred sentia areia entre os dentes e dentro do nariz. Estava também dentro de suas roupas, roçando em sua pele maltratada. Logo o lenço de proteção estava totalmente colado, e Mandred tinha novamente a sensação de sufocar. Cada respiração era uma tortura, mesmo que com a tempestade o calor tivesse dado trégua.
Ele apertou os olhos que queimavam. Tinha perdido totalmente a noção do tempo. A tempestade os enterrava vivos. Metade de suas pernas já tinha desaparecido na areia, e ele não tinha mais forças para resistir e se libertar.
A sensação de Mandred era de estar totalmente ressecado. Parecia sentir seu sangue engrossando, a correr cada vez mais lentamente por suas veias. Então seria esse o fim...
O mundo partido
Farodin fez um sinal para que seu companheiro viesse. Nuramon hesitou. Trazia Felbion pelas rédeas, com Mandred amarrado na sela.
— Veja só! — exclamou.
O filho de humanos estava profundamente desmaiado. Seu coração batia lentamente e seu corpo estava quente demais. No máximo, mais um dia, dissera Nuramon naquela manhã. De lá para cá, oito horas já haviam se passado. Precisavam encontram água ou Mandred morreria. Mesmo eles não seriam capazes de suportar aquele calor por mais tempo. As faces de Nuramon estavam cavadas, rugas finas haviam se formado ao redor de seus olhos irritados e vermelhos. Era óbvio que a luta pela vida de Mandred estava levando ele mesmo ao limite do colapso.
— Venha já — chamou Farodin. — É ao mesmo tempo lindo e assustador. Como uma visão no espelho-d’água de Emerelle.
Nuramon foi até ele; agora que estava ao lado do elfo, podia ver que ele sentia quase que fisicamente o esgotamento do companheiro.
— Você precisa descansar!
Nuramon sacudiu a cabeça debilmente.
— Ele precisa de mim. O meu poder de cura está adiando a sua morte. Precisamos encontrar água. Eu... Temo que não vou aguentar muito tempo ainda. Ainda estamos na trilha dos albos?
— Sim.
A Farodin coubera a tarefa de guiá-los pela trilha invisível. Tinham escolhido ao acaso qual das três trilhas da estrela alba seguiriam. Como Nuramon usava todas as suas forças para manter Mandred vivo, era Farodin quem se concentrava em manter o caminho. Ela tinha de levar a algum lugar, e esperavam que esse lugar fosse outra estrela alba.
— O que você quer me mostrar?
Farodin apontou um pouco para a frente, para um pedaço plano de rocha quase totalmente oculto pela areia.
— Ali na sombra, na direção das minhas pegadas. Consegue vê-lo?
Nuramon olhou contra a luz forte. Então sorriu.
— Um gato. Está dormindo — contente, foi na direção dele.
Farodin o seguiu lentamente.
Aninhado junto à pedra estava deitado um gato, com a cabeça apoiada nas patas da frente. Seu pelo era ocre e estava cheio de areia, assim como as tranças de Mandred. Era só pele e osso e tinha o pelo todo desgrenhado. Parecia estar dormindo.
— Está vendo a junção da cabeça com o pelo? — perguntou Farodin.
Nuramon permaneceu imóvel como se tivesse criado raízes.
Era preciso se aproximar muito do gato para conseguir ver sua nuca. Estava pelada. A areia fina escavara o pelo e a carne e polira o seu crânio, que agora brilhava muito branco.
— Como ele parece em paz — disse Nuramon ternamente. — Ele se deitou na sombra da rocha, caiu no sono de cansaço e morreu de sede enquanto dormia.
Farodin concordou.
— Deve ter sido assim mesmo. O calor seco preservou o seu corpo, e o pelo o protegeu da areia trazida pelo vento. Não dá para dizer se está morto há semanas ou anos.
— É isso o que vemos no espelho, você quer dizer? O nosso futuro?
— Se não encontrarmos água muito em breve. E eu mal me atrevo a ainda ter esperança. Desde que chegamos pela estrela não vimos nenhum animal, sequer qualquer rastro! Nada vivo fica vagando neste deserto.
— O gato estava vivo — retrucou Nuramon com violência surpreendente.
— Sim, de fato estava. Mas vir até aqui foi um erro fatal, como podemos ver. Você acha que Mandred ainda estará vivo no próximo nascer do sol?
— Se encontrarmos água...
— Talvez devêssemos matar um dos cavalos e dar o sangue para ele beber.
— Acho que seria melhor se um de nós pegasse os dois cavalos mais fortes e cavalgasse alternando entre eles. Assim avançaria muito mais rápido e poderia procurar por água.