— E quem de nós seria?
— É tão difícil de adivinhar? Eu resfrio Mandred com meu poder de cura e mantenho-o vivo. Você não conseguiria fazer isso. Então vou ficar. Os cavalos aguentarão pelo menos até hoje à noite. Se você encontrar um lugar com água, você a bebe, enche o odre e volta no frescor da noite.
— E se até o pôr do sol eu não encontrar água?
Nuramon encarou-o inexpressivo.
— Então você ainda terá mais um dia para salvar pelo menos a sua vida. — E examinando-o: — Um dia a cavalo poupará suas forças. Tenho certeza de que suportará mais um dia. Só que então não fará mais sentido retornar até nós.
— Um bom plano! — Farodin concordou, elogioso. — Pensado com a cabeça fria. Porém, para ser executado seria preciso um homem mais corajoso que eu.
— Um homem mais corajoso?
— Você acha que eu seria capaz de encarar Noroelle e dizer a ela que abandonei dois dos meus companheiros no deserto para encontrá-la?
— Então você ainda acredita que vai encontrar Noroelle desse jeito?
— Por que não? — perguntou Farodin rudemente.
— Quantos grãos de areia você já encontrou desde que retornamos ao mundo dos homens?
Farodin ergueu o queixo de forma provocativa.
— Nenhum. Mas eu também não procurei. Eu estava... O calor. Eu usei meus poderes mágicos para conseguir me refrescar um pouco.
— Isso dificilmente teria custado todas as suas forças. — Nuramon fez um gesto amplo na direção do horizonte. — Foi isso aqui que tirou sua força e coragem. Essa vista. Não acho que estamos aqui por acaso. O destino quis que entendêssemos como nossa busca é sem sentido. Deve haver um outro caminho!
— E qual? Não consigo mais ouvir essa sua conversa sobre um outro caminho. Como é que esse caminho pode ser, afinal?
— Como você pretende encontrar todos os grãos de areia perdidos?
— O meu feitiço os traz até mim. Eu só preciso me aproximar deles o suficiente.
— E quão perto é isso? Cem passos? Um quilômetro? Dez? Quanto tempo vai levar até você vasculhar o Outro Mundo? Como um dia você terá certeza de que encontrou todos os grãos?
— Quanto mais grãos eu encontro, mais forte fica o meu feitiço de busca.
Nuramon apontou para o deserto.
— Veja isso! Eu sequer conheço um número para expressar de forma aproximada quantos grãos há aqui. É inútil. E se você claramente tem força para tentar o inútil, então é a escolha certa para procurar água aqui. Se alguém vai conseguir, esse alguém é você! Use o feitiço de busca para encontrar o poço de água mais próximo!
Já era o bastante!
— Você acha mesmo que eu sou tão burro? Uma coisa é encontrar algo tão minúsculo como um preciso grão de areia no meio de um deserto. Descobrir um poço de água é infinitamente mais fácil. Você acha que eu ainda não teria usado minhas forças para procurar água? E por que então eu mostrei o gato morto? Esse é o nosso futuro. Não há água nenhuma num raio de pelo menos um dia de cavalgada. Só a água em nós. O nosso sangue... A verdade é simples assim. Eu tinha acabado de tentar pouco antes de ver o gato. Não há nada aqui.
Tenso, Nuramon olhava para o leste.
— Será que o sol queimou o último resto de cortesia em você? Diga alguma coisa! Você pelo menos está me ouvindo?
Nuramon apontou adiante no deserto vazio.
— Ali. Há alguma coisa ali.
Uma rajada de vento lançou um véu fino de areia de encontro a eles. Como a rebentação de uma maré, ele voou e rompeu-se nas poucas rochas que saíam da areia. Não muito longe seguiu-se uma segunda e pálida onda de areia.
— Lá! Aconteceu de novo! — gritou Nuramon nervoso.
— O quê?
— Aqui estamos sobre a trilha dos albos. Ela segue em linha reta pelo deserto. Pense nela partindo daqui e indo em frente. Pouco mais de um quilômetro, eu estimaria... Observe como o véu de areia vai até lá. Tem alguma coisa ali!
Farodin olhou na direção indicada. Mas lá não havia nada! Nenhuma rocha, nenhuma duna. Só areia. Confuso, examinou Nuramon. Teria ficado louco? Será que a desesperança estava fazendo com que perdesse a razão?
— Aconteceu de novo! Mas que droga... Olhe para lá!
— Devíamos procurar um pouco de sombra para nós — disse Farodin, tentando acalmá-lo.
— Está vindo mais um véu de areia! Por favor, olhe!
— Você...
Farodin mal acreditou no que seus olhos viram. O véu de areia se abriu por um curto instante e, depois, a fenda se fechou. Era como se a areia voasse de encontro a uma rocha que dividia o véu por um momento. Só que lá não havia nenhuma rocha.
A mão direita de Farodin escorregou até a espada.
— O que é aquilo?
— Não faço ideia.
— Talvez uma criatura invisível?
Quem ganharia alguma coisa ficando invisível? Um caçador! Alguém que estivesse à espreita de uma presa! Será que os observava em segredo enquanto pensava em uma forma de ir atrás deles? Farodin puxou a arma. A espada parecia muito mais pesada que de costume. O sol minara a força de seus braços.
Não importava o que estava ali: precisavam enfrentá-lo. Cada momento de hesitação lhes custaria mais forças.
— Eu vou dar uma olhada. Veja o que vai acontecer.
— Não seria melhor...
— Não!
Sem dar chance para mais conversa, Farodin lançou-se sobre a sela, segurando a espada atravessada na frente do peito.
Em poucos instantes já estava lá. De novo o deserto o enganara, fazendo parecer que a distância era maior. Na areia clara jazia um anel negro formado por pedras de basalto. Elas pareciam grandes pedras de calçamento. Sobre suas superfícies planas não havia nenhum grão de areia. Seria uma roda encantada de pedras? Farodin nunca vira algo assim antes.
Ele fez o cavalo contornar as pedras. Os véus de poeira se dividiam assim que atingiam o círculo, como se dessem de encontro a uma parede de vidro. Ele percebeu uma pirâmide pequena e rústica, feita de pedaços empilhados de pedra bruta, um pouco separada do círculo e meio oculta pela areia em movimento. Em cima das pedras descansava um crânio humano. Farodin olhou em volta e percebeu outros montes baixos. Sobre um deles havia vários crânios. Que tipo de lugar era aquele? Tomado pela tensão, olhou ao redor. Exceto pela roda de pedras e pelos montes, não havia mais nenhum sinal de que algum dia humanos ou elfos tivessem vivido ali.
Farodin finalmente apeou. O chão estava repleto de magia. De todas as direções chegavam trilhas albas, juntando-se no círculo. Cuidadosamente, o elfo estendeu a mão até a barreira invisível. Sentiu um leve formigamento na pele. Hesitante, pisou dentro do círculo. Nada o deteve. Estava claro que o encanto do círculo afastava somente a areia. Mas para que os crânios? As pilhas de pedras não combinavam com a elegância simples do anel. Será que haviam sido erguidas mais tarde? Eram para ser um sinal de alerta?
O círculo delimitado pelas pedras de basalto media quase vinte passos; o anel propriamente dito mal tinha um passo de largura. Em seu interior, o chão era de areia; não tinha nada de diferente do deserto que o cercava.
Farodin fechou os olhos e tentou focar seus pensamentos totalmente na magia das trilhas dos albos. Eram seis os caminhos que se cruzavam no interior do círculo de pedras. Seria fácil abrir um portal ali. E tanto fazia onde ele ia dar: qualquer coisa era melhor do que aquele deserto.
Farodin acenou para Nuramon se aproximar. Ele trouxe Mandred e os cavalos.
— Uma estrela alba! — gritou ele, aliviado. — Estamos salvos. Abra o portal!
— Você sabe fazer isso melhor.
Nuramon sacudiu a cabeça, irritado.
— Estou esgotado demais. Você imagina quanta força é necessária para impedir que a faísca de vida de Mandred se apague? Você aprendeu a fazer! Então faça!
Farodin pigarreou. Ele queria se opor, mas então se calou. Estava quase desejando que um monstro invisível estivesse ali à espreita. Mesmo com as lições do Carvalho dos Faunos, os caminhos da magia permaneciam desconhecidos para ele.