O elfo pôs a espada na areia e sentou-se de pernas cruzadas. Então tentou afastar o medo e todos os pensamentos. Precisava esvaziar seu espírito para que ele e a magia se tornassem um só. Bem lentamente, surgiu diante de seu olho interior a imagem de trilhas de luz, que se cruzavam na escuridão. Elas se deformavam onde se encontravam. As linhas se curvavam e formavam um turbilhão. Cada estrela alba distingue-se de todas as outras pela forma como as linhas se entrelaçam em seu centro. Isso ajuda na orientação dos feiticeiros experientes.
Farodin imaginou que estendia as mãos para o meio das trilhas de luz. Como um jardineiro que amarra hastes de flores, ele as afastou umas das outras até que se formasse um buraco cada vez maior, e por fim um portal. Uma misteriosa força de atração irradiava dali. Esse caminho não levava à Terra dos Albos.
Inseguro, abriu os olhos. Olhou para o crânio branco e polido sobre a pilha de pedra. Sobre o que ele queria alertar?
— Você conseguiu. — A dúvida que reverberava na voz de Nuramon denunciava que ele mentia.
Farodin virou-se. Atrás dele havia surgido um portal que parecia totalmente diferente do outro que Nuramon já havia criado. Faixas de luz de todas as cores do arco-íris circundavam uma abertura escura que parecia levar ao nada. Uma linha reta de luz branca atravessava para dentro das trevas, mas sem conseguir iluminar a escuridão que a rodeava.
— Eu vou na frente — disse Farodin. — Eu...
— Esse portal leva ao Mundo Partido, imagino. — Nuramon o observou com mal-estar evidente. — Por isso ele tem essa aparência diferente. É como o Carvalho dos Faunos o descreveu.
Inquieto, Farodin passou a língua por cima dos lábios. Apanhou a espada e meteu-a na bainha. Com a mão aberta bateu a areia das rugas das calças e, no mesmo momento, tomou consciência de que só fazia isso para adiar a decisão. Levantou-se num pulo.
— O portal é largo o suficiente. Podemos ir lado a lado, conduzindo os cavalos pelas rédeas.
Quando estavam no limiar do portal, Nuramon se deteve.
— Desculpe — disse em voz baixa. — Aquela não foi a melhor hora para brigar com você a respeito dos grãos de areia.
— Vamos deixar essa briga para outra hora.
Nuramon não respondeu nada. Em vez disso, puxou a rédea de seu cavalo e deu um passo adiante.
Farodin teve a sensação de ser sugado pelo portal. De um golpe, estava no meio da escuridão. Ouviu seu cavalo relinchar, sem vê-lo. A trilha de luz havia desaparecido. Sentia como se estivesse caindo por uma eternidade. Então seus pés tocaram um chão macio. A escuridão desfez-se. Piscando, Farodin olhou em volta. Levou um susto que deixou seu coração gelado. O feitiço fracassara! Ainda estavam no meio do anel de basalto negro e em torno deles o deserto estendia-se até o horizonte.
— Talvez eu devesse de novo...
— Nossas sombras! — gritou Nuramon. — Veja só! Nossas sombras desapareceram! — E olhando para cima, para o céu: — O sol se foi. Onde quer que estejamos agora, este não é mais o mundo dos humanos.
Um grito agudo soou no céu. Sobre eles um falcão dava voltas. Parecia observá-los. Por fim mudou de rumo e voou dali.
Farodin ergueu a cabeça. O céu era de um azul-claro e brilhante, que aos poucos ficava mais pálido até alcançar o horizonte. Não havia nuvens nem sol. O elfo fechou os olhos e pensou em água. Sua boca pareceu cada vez mais seca quanto mais intenso se tornava o seu pensamento. Então sentiu como se tivesse mergulhado por um instante em uma nascente de água fresca da montanha.
— Ali na frente! — disse, apontando para uma grande duna no horizonte. — Antes do pôr do sol, ali nós vamos... — Ele parou e olhou para o céu vazio. — Antes de escurecer nós vamos encontrar água ali.
Nuramon não disse nada, e simplesmente o seguiu. Cada passo consumia um pouco mais de suas forças. Estavam tão esgotados que não conseguiam mais andar por cima da areia macia. A cada passo, afundavam até os tornozelos como humanos.
A duna para onde iam mal parecia estar ficando mais próxima. Ou era só impressão de Farodin? Será que o tempo se estendia até o infinito, já que a ausência do sol movendo-se no céu não dava a medida das horas que passavam? Teria passado meia hora ou já metade de um dia quando o céu finalmente começou a escurecer tom a tom?
Quando finalmente chegaram à duna, estavam à beira do colapso.
— Como está Mandred?
— Péssimo.
Nuramon punha um pé depois do outro, sem parar ou levantar os olhos.
O silêncio de Farodin era mais cansativo que qualquer pergunta.
— Ele vai morrer antes da noite cair. — Nuramon continuava com o olhar baixo. — Mesmo que encontrássemos água, não sei se isso ainda conseguiria salvá-lo.
Água, pensou Farodin. Água! Ele conseguiu sentir. Já não estava longe. Avançou cansado. Na duna era ainda pior que no chão plano. A cada passo eles não só afundavam bastante na areia, mas também escorregavam um pouco para trás, como se a duna quisesse impedi-los de chegar ao seu topo. Um vento leve jogou areia na direção deles. Seus olhos queimaram.
Quando finalmente chegaram lá em cima, estavam exaustos demais para conseguir se alegrar com a vista. Diante deles estava um lago de um azul profundo, ladeado por milhares de palmeiras. Havia construções estranhas próximas à margem.
Só mais duas dunas baixas os separavam da mata de palmeiras. Escorregando um pouco, começaram a descer do mirante. Os cavalos relinchavam impetuosos. Agora eram eles que puxavam os elfos pelas rédeas atrás de si. Os animais farejavam a água.
De repente algo atingiu a areia perto de Farodin, que desviou para o lado por reflexo. Uma flecha emplumada e negra o errara por pouco. Mas não se via um atirador em lugar nenhum! O falcão tinha retornado e novamente voava em círculos sobre eles.
Então um zumbido tomou conta do ar. Uma nuvem inteira de flechas voou por cima do topo da duna. Os tiros acertaram a areia a poucos passos de distância. Fizeram quase uma linha reta, como se indicassem uma fronteira que não deveria ser cruzada.
Quando Farodin olhou para cima novamente, surgiram cavaleiros no cume da duna diante deles. Eram pelo menos três dúzias. Cavalgavam animais que o elfo nunca vira antes. Com suas longas pernas e cabeças de formato estranho, sustentadas por pescoços curvados, eram tão feios que lhes tiravam o fôlego. O pelo de todos eles era branco, e das costas de cada um saía uma imensa corcova.
Os cavaleiros vestiam casacos longos e brancos. Seus rostos estavam cobertos. Alguns tinham sacado seus sabres; outros estavam armados com lanças, de cujas lâminas pontudas pendiam borlas coloridas. Mas o que chamava a atenção ainda mais eram seus escudos de couro. Tinham a forma de duas enormes asas de borboleta bem abertas e igualmente coloridas. Em silêncio, os cavaleiros olhavam para baixo e observavam os forasteiros.
Finalmente um deles avançou do grupo, conduzindo habilmente sua montaria duna abaixo. Deteve-se atrás da linha de flechas.
— Mensageiros enviados por Emerelle não são bem-vindos aqui — soou uma voz abafada de mulher. Ela falava élfico!
Atônitos, os companheiros se entreolharam.
— Quem pode ser? — perguntou Nuramon baixo.
Ficou evidente que a amazona ouviu as palavras sussurradas.
— Nós nos designamos “os libertos de Valemas”, pois a palavra de Emerelle não tem poder neste pedaço do Mundo Partido. Vocês podem ficar por uma noite aqui fora do oásis. Amanhã nós os levaremos de volta para o portal.
— Eu sou Farodin da Terra dos Albos, do clã de Askalel — gritou ele de volta, furioso. — Um dos meus companheiros está mais perto da morte que da vida. Eu não sei qual é o rancor que nutrem por Emerelle, mas de uma coisa eu sei com certeza: se vocês não nos ajudarem, então sacrificarão a vida do meu amigo em nome de vossa ira. E eu prometo que obterei vingança mortal caso ele morra por vossa causa.