— Foi diferente do que parece. — Nuramon tentou acalmar os ânimos. — Nós...
— E você acha que precisa me explicar como entender o que ouço? — Em vez de furioso, Malawayn parecia mais estar frustrado. — Eu devia ter sido mais esperto. Todos que vêm da corte de Emerelle trazem a soberba dela dentro de si. De acordo com nossas leis, Giliath tem todo o direito de desafiá-lo, Farodin.
Farodin não conseguia compreender. Como podiam ser tão obstinados? A atmosfera amigável desaparecera. Ninguém na sala queria mais ouvir o que tinham a dizer.
— Peço perdão por minhas palavras. Não gostaria de lutar com ninguém.
— Será que na sua vaidade você se acha invencível, ou é o medo que guia a sua língua? — perguntou Giliath.
Estava diante dele, com as mãos apoiadas nos quadris.
— Se a ofensa é grande demais, então a palavra proferida só pode ser paga com sangue — explicou Malawayn friamente. — Vocês dançarão a música das espadas. O duelo de vocês terminará com a primeira gota de sangue derramada. Se você se ferir, então o sangue apagará as suas palavras. Mas caso Giliath sucumba, então você terá conquistado o seu lugar entre nós, e aceitaremos o que disser, pois nós somos um povo livre.
Farodin sacou o punhal. Antes que alguém pudesse agarrar seu braço, cortou-se no dorso da mão esquerda.
— Homens e mulheres de Valemas! — disse, levantando a mão para que todos pudessem ver o sangue que escorria pelo seu braço. — Derramei meu sangue para reparar as minhas palavras. Com isso o conflito é terminado.
Os presentes foram envoltos por um silêncio gelado.
— Você precisa parar de querer nos impor a sua vontade, Farodin. Mesmo que o seu caminho pelo deserto tenha lhe tirado as forças, você terá de se dobrar aos nossos costumes e lutar! — Malawayn ergueu-se e bateu palmas. — Tragam os tambores. Na dança de espadas, cada golpe segue o ritmo das batidas dos tambores. Nós começamos com um ritmo lento, para que você possa se acostumar. Rapidamente a velocidade da luta e das batidas de tambor aumentará. Normalmente cada dançarino luta com duas lâminas. Você precisa de mais uma arma?
Farodin sacudiu a cabeça em negativa. Para ele, a espada e o punhal eram suficientes. Levantou-se e começou com os exercícios de alongamento, para soltar seus músculos doloridos.
Nuramon pôs-se a seu lado.
— Eu não sei o que deu neles. Isso é uma loucura completa!
— Começo a entender por que Emerelle nunca os convidou para retornar à Terra dos Albos — respondeu baixo. — Mas agora silêncio. Nós não queremos dar a eles mais nenhum motivo para uma dança de espadas.
Nuramon agarrou a mão dele. Um calor agradável percorreu Farodin. Quando puxou a mão de volta, o corte havia fechado.
— Não a mate! — Nuramon tentou sorrir de forma encorajadora.
Farodin olhou para sua oponente. Valiskar aparentemente julgava-a capaz de acabar sozinha com dois guerreiros, já que a mandara descer as dunas em direção a eles. Devia ser cauteloso com ela.
— Vamos torcer para ela não fazer picadinho de mim. Por algum motivo, tenho a impressão de que ela preferiria atravessar meu coração com a lâmina a terminar o duelo com um pequeno corte. Até a primeira gota de sangue. Isso pode significar muita coisa.
Farodin desafivelou a bandoleira da espada que tinha atravessada no peito para que não o atrapalhasse durante a luta. Então tirou um pequeno anel da bolsa de couro em que guardava a garrafinha de prata e a pedra de Noroelle. Além das lembranças, o anel era a única coisa de Aileen que lhe restava. Trazia três pequenas granadas vermelho-escuras incrustadas; lapidadas, elas refletiam a luz a óleo da sala. Acariciou-as com os polegares, como se para checá-las. Estragariam o forro de qualquer luva. Já fazia muito tempo desde a última vez que usara o anel.
— Você está pronto? — gritou Giliath.
Ela escolhera duas espadas curtas como armas e esperava no meio da sala.
Enquanto isso, dois tambores foram trazidos até a porta do átrio. Eram do tamanho dos grandes barris de vinho que viram durante sua fuga pelas covas de Aniscans. Tinham sido dispostos de forma que suas peles ficassem na vertical. Eram claras e traziam pintado em preto e vermelho um tortuoso padrão de nós. Duas mulheres, que seguravam as baquetas dos tambores cruzadas na frente no peito, esperavam o sinal para que a dança de espadas começasse.
Os presentes haviam recuado até as paredes da sala, de forma a deixar livre um campo de batalha de cerca de vinte passos de comprimento e cinco de largura.
Farodin tomou seu lugar.
— Cada batida de tambor corresponde a um passo ou golpe — explicou Giliath. — O espadachim perfeito move-se com a leveza de um dançarino. Mesmo que perca, você preservará a sua honra se tiver lutado com graça.
Giliath fez um sinal para as mulheres dos tambores.
— Comecem!
Soou a primeira batida. Giliath deu um passo para o lado e ergueu a arma. Farodin seguiu seu movimento com uma rotação.
Na próxima batida ela deu um golpe lento e amplo, mirando a cabeça dele. Farodin bloqueou-o com seu punhal. Qualquer criança teria sido capaz de desviar desse ataque. Essa dança de espadas era simplesmente estúpida!
O som dos tambores era grave e o acertava direto no estômago. Eles eram percutidos alternadamente, de forma que cada som ecoasse por um tempo.
O ritmo aumentava bem lentamente. Mesmo que Giliath por enquanto se movesse com gestos estranhos e exagerados, sem dúvida ela era uma lutadora experiente. Farodin seguia o ritmo, mas abria mão de copiar o estilo de Giliath, para tentar cativar a plateia. Ele se esquivava com movimentos estreitos, mantendo-se na defensiva para estudar os movimentos de sua oponente.
Quanto mais rápidas ficavam as batidas dos tambores, mais fluidos se tornavam os ataques da guerreira. Só havia batidas e batidas. Ela o empurrava para a frente e então recuava de novo; dava a volta nele dançando rápido, e de repente avançava novamente. As batidas dos tambores e o tilintar do aço misturavam-se em uma melodia que cada vez mais cativava também a Farodin. Sem pensar, ele movia-se em harmonia com o ritmo e começava a gostar da luta.
De repente Giliath agachou-se, e desviou de surpresa em vez de desferir um golpe. Sua lâmina avançou rápida como um ataque de serpente. Farodin tentou esquivar-se, mas o aço cortou sua calça de montaria. O soar dos tambores emudeceu.
A guerreira levantou-se sorrindo.
— Até que você não foi mal para um bajulador da rainha.
Farodin apalpou a perna. Não estava sentindo dor. Mas isso não queria dizer nada quando se lutava com lâminas afiadas. Afastou cuidadosamente o tecido. Sua coxa não estava ferida. Aparentemente ela tinha errado por um triz.
Giliath franziu a testa.
— Isso foi sorte! — gritou para os que estavam ao redor.
Farodin sorriu ponderado.
— Se é o que você diz...
Ele percebeu que a arrogância dela desmoronava. Agora ela tentaria acertar um novo golpe rapidamente. E no ímpeto talvez abriria a guarda.
— Então vamos continuar já.
Giliath ergueu a espada e assumiu uma peculiar posição inicial. Segurava a espada da mão esquerda estendida para atacar. A da mão direita estava erguida sobre a cabeça e apontada para a frente, para o coração de Farodin. Para ele lembrava um escorpião, com o ferrão erguido de forma ameaçadora.
Dessa vez as batidas de tambor eram bem mais rápidas. Giliath fez uma investida vigorosa, acossando-o duramente. Mas não deu sequer um golpe com a mão direita, que o intimidava com a segunda espada erguida, pronta para golpear assim que tivesse oportunidade.
Farodin estava espantado com a velocidade da guerreira, e com como ela novamente o forçava a ficar na defensiva. Seus ataques eram tão rápidos que ele mal encontrava chance para contra-atacar. Ele precisava terminar esse jogo, senão ela o faria!
A mão esquerda da elfa precipitou-se de ponta, mirando os seus quadris. Mais uma vez ele amorteceu o golpe e fingiu tropeçar de leve, abrindo muito a guarda na frente do peito.