Era o que Giliath estava esperando. Como uma ferroada, sua segunda espada avançou. Farodin enfiou-se no meio do golpe e ergueu rápido o punhal. Aço contra aço, ouviu-se um tilintar. Agora estavam tão perto um do outro que ele podia sentir na face a respiração de Giliath. As espadas dos dois estavam cruzadas na altura de suas cabeças. Ficaram imóveis só por um instante. Então Giliath recuou. A mão de Farodin atingiu-a levemente na face, e ele também retrocedeu.
— A luta terminou! — Farodin anunciou em voz alta.
Todos no átrio viram que era o vencedor. Um estreito fio de sangue escorria do corte na bochecha de Giliath.
Ela largou a espada e tateou o rosto sem acreditar. Perplexa, viu o sangue nos dedos. Mas em vez de protestar, logo inclinou-se.
— Curvo-me com humildade diante do vencedor e peço perdão por minhas palavras — disse ela com voz inexpressiva, aparentemente ainda abalada com o fim inesperado da luta.
Ao redor deles elevaram-se vozes enfurecidas. Muitos não estavam dispostos a reconhecer tal desfecho para a luta, e criticavam a deslealdade do membro da corte de Emerelle.
Nuramon correu até Farodin para abraçá-lo.
— Como você fez isso? — sussurrou ele.
— O anel — respondeu Farodin.
Soltou-se do abraço e ergueu a mão, para que todos pudessem ver nitidamente a pequena joia de pedras pontiagudas. Seu vermelho profundo as fazia parecer pingos de sangue engastados no ouro.
— Eu o desafio para a dança de espadas! — um jovem guerreiro enfrentou Farodin. — A forma como decidiu a luta a seu favor foi desonrosa e ofende a mim e a todo o meu povo.
Farodin soltou um suspiro profundo. Estava pronto para retrucar algo ao guerreiro, quando a voz de Malawayn se destacou no tumulto.
— A luta está decidida, irmão. Até a primeira gota de sangue, isso é o que se diz. E em nenhum lugar está escrito que o sangue precisa ser derramado por uma lâmina. Nós reconhecemos o desfecho da luta, mesmo que essa vitória tenha sido mais por astúcia do que por habilidade na luta.
Apesar da intervenção de Malawayn, a agitação só cedia pouco a pouco. Muitos elfos mais jovens deixaram a sala furiosos.
O elfo grisalho, contudo, convidou-os com um gesto a tomarem lugar a seu lado. Serviu-os do seu vinho e entregou-lhes frutas de uma pesada bandeja de prata que descansava sobre o tapete diante dele. Gradativamente, o átrio foi ficando mais tranquilo.
Depois de comerem juntos, Malawayn pediu que contassem sobre a Terra dos Albos. Foi Nuramon que então assumiu a palavra, esforçando-se para fazê-los esquecer o que acontecera. Farodin invejava sua aptidão para narrar de forma tão viva a ponto de todos acreditarem ver a Terra dos Albos diante dos olhos.
Os companheiros, por sua vez, ouviram muito sobre a vida no deserto. Os elfos de Valemas tinham transformado uma nascente lamacenta em um oásis fértil. Haviam procurado esse lugar por muito tempo, pois amavam aquelas terras desérticas como seus antepassados. E brincavam que era o calor do deserto que os fazia ter o sangue tão quente.
Também contaram que cavalgavam com frequência até o mundo dos homens. Os mortais de lá os chamavam de girates, que na língua deles significava espíritos, e os tratavam com muito respeito.
— Todas as vezes que nos encontramos, eles sempre insistem em nos presentear — Malawayn sorriu. — Acho que eles nos consideram algo semelhante a ladrões.
— E vocês deixam que eles pensem isso? — mal a frase terminou de sair por seus lábios, Farodin já lamentava por ela.
— Nós não temos escolha. Aqui nos falta tanta coisa que aceitamos cada presente com gratidão. Não é por isso que abdicamos de nossa honra. Não encaramos isso como uma agressão, embora fosse fácil fazê-lo. — Ele baixou a cabeça e observou a intrincada estampa do tapete. — O que me faz mais falta é o céu estrelado da Terra dos Albos.
— E se voltassem a ficar em paz com a rainha? — objetou Nuramon.
Malawayn encarou-o surpreso.
— Nós, elfos de Valemas, podemos ter perdido muita coisa, mas não o nosso orgulho. Só voltaremos à Terra dos Albos se Emerelle nos pedir e se lá ela mantiver a nossa liberdade.
“Então eles nunca voltarão”, pensou Farodin consigo mesmo.
Nada além de ilusão
Quando era criança, Nuramon sempre pensava no deserto e na lendária cidade de Valemas. Imaginava como seria sua aparência, sem nunca ter estado lá. E aquele oásis era totalmente diferente de como ele fantasiava a cidade da lenda naquela época. Era verdade que ali não havia o sol da Terra dos Albos ou do Outro Mundo. Mas os feiticeiros da comunidade haviam tecido um véu de luz, agora estendido como o teto de uma barraca sobre a colônia e o deserto que a cercava. Tinham até pensado no dia e na noite; a luz definhava num crepúsculo estranhamente longo, e voltava horas mais tarde em uma curta alvorada.
Apesar de toda a água que havia no local, os laços da cidade com o deserto eram fáceis de serem vistos e sentidos. Mesmo o vento suave que soprava ali tinha o sabor do deserto.
Nuramon seguiu uma trilha que diziam levar aos limites da colônia. Valiskar mostrara-lhe esse caminho; parecia que lá eram as fronteiras daquela região. Os lugares restantes no Mundo Partido geralmente eram conhecidos como ilhas em um mar de nada. Era esse mar que Nuramon queria ver. Ele deixara os companheiros na nascente, perto dos cavalos, onde descansavam em uma das casas de barro. Apesar da ajuda do curandeiro de Valemas, Mandred recuperava as forças muito lentamente. Em seu sono febril, sempre chamava por Atta Aikhjarto. Farodin ficou com ele. Apesar da hospitalidade que, afinal de contas, acabaram lhes oferecendo, ele desconfiava dos moradores do oásis.
Nuramon era curioso demais para ficar por ali. Estava até acelerando o passo para chegar o quanto antes ao fim do oásis. A trilha por onde andava terminou de repente, junto a uma estátua de Yulivee, a fundadora do oásis. Sua imagem era encontrada em vários lugares ali em Valemas. Os elfos do deserto a veneravam quase da mesma forma que Mandred a seus deuses. Ela fora uma linda mulher. Em seus lábios havia um sorriso confiante e, nas fendas dos olhos da estátua de arenito, estavam incrustadas duas malaquitas. Nuramon vira na corte da rainha um escultor encaixar pedras preciosas em uma estátua. Primeiro as pedras eram colocadas nos orifícios dos olhos; então era preciso tirar as pálpebras de pedra para fora, prender as gemas e fazer as pálpebras se fixarem na estátua com um feitiço. Então elas cobriam as malaquitas como se fossem de verdade, como se pudessem piscar a qualquer momento. A estátua apontava de forma convidativa para uma pedra ao seu lado.
Nuramon obedeceu ao gesto e sentou-se. A vista dali o surpreendeu. De fato, estava no fim do oásis, mas o que estava diante dele não era o mar de nada — como esperara em segredo —, mas o deserto. Talvez fosse preciso passar daquele ponto e seguir sempre em frente, até chegar ao fim das terras. De repente, Nuramon reparou que havia algo de errado. O vento soprava na sua nuca, porém ao mesmo tempo ele viu areia fina levantar-se num redemoinho e soprar até ele. Mas ela não o alcançou — desapareceu de repente, como se nunca tivesse existido. Seria possível que o deserto diante dele não fosse nada além de ilusão? Uma representação do deserto que começava do outro lado do oásis e ia até o anel de pedras? Teria de ser um feitiço poderoso...
Nuramon levantou-se e deu um passo na direção do deserto. De uma só vez conseguiu sentir o poder do feitiço. Uma barreira semelhante a uma parede de vidro muito fino separava a colônia da miragem lá fora. Nuramon tateou com cuidado a parede invisível.
De repente, sentiu um estalo sob seus dedos e apressou-se a puxar a mão de volta. O deserto desapareceu diante de seus olhos, e o horizonte tornou-se escuro. Numa rapidez assustadora, a escuridão foi devorando as terras. Ela veio em sua direção, engolindo as dunas e, passo a passo, a areia e as pedras da planície. Então, bem diante dele, a escuridão acinzentou sob o brilho de Valemas. Os raios de luz iam até bem embaixo. Diante dos pés de Nuramon abriu-se um abismo. Lá embaixo flutuava uma névoa de um azul cinzento, que se movimentava de forma quase imperceptível. Devia ser esse o mar em que boiavam as ilhas do Mundo Partido. E as trevas sobre ele eram o céu desse mundo desolador.