Em algum lugar lá fora estava Noroelle. E talvez agora também estivesse olhando para o infinito como ele. Com certeza ela havia dado forma a tudo seguindo sua imaginação, como fizeram os feiticeiros daquela colônia. A Nuramon restava esperar que, onde quer que ela estivesse, esse lugar não fosse de tristeza infinita. Se houvesse uma possibilidade de vencer essa névoa, ele faria uso dela para ir tão longe quanto fosse necessário. Talvez houvesse um caminho direto até Noroelle — um caminho que desviasse das barreiras da rainha.
Nuramon sentou-se novamente na pedra ao lado da estátua. E, enquanto observava a imagem do deserto retornar, pensava na ideia que acabara de lhe ocorrer. Seria possível que ali houvesse alguma espécie de navio capaz de navegar sobre a névoa, como um navio comum fazia sobre a água?
Uma voz arrancou-o de seus pensamentos:
— Você viu?
Nuramon instintivamente levou a mão à espada e virou-se. Um homem estava de pé ao lado da estátua de Yulivee, vestido de branco e verde-claro.
— Ei! Não tão rápido, estranho! — gritou ele.
Então Nuramon percebeu que o homem não tinha pés: seus trajes flutuavam no ar. Mas eles se moviam de forma enérgica demais para o vento que soprava ali. O cabelo verde do vulto também tremulava ao redor de sua cabeça, como se cada uma das mechas estivesse sendo bagunçada por mãos invisíveis.
— Acho que você nunca viu um espírito, não é?
Nuramon não conseguia tirar os olhos da aparição.
— Espíritos, sim, mas nenhum como você.
O que estava diante dele era quase como um elfo. Suas orelhas pontudas sobressaíam suavemente através do cabelo, mas pareciam ser mais carnudas que orelhas élficas. As mãos chamavam a atenção por serem grandes e disformes; com certeza uma delas sozinha já seria capaz de abarcar a cabeça inteira de Nuramon. A cabeça do espírito, porém, era alongada; o queixo, tão pontudo que nem o amplo sorriso era capaz de mudar seu formato.
— Eu sou Nuramon. Qual é o seu nome?
— Nomes! Bah! — disse o espírito com um gesto. — A vida seria muito mais fácil sem nomes. Nomes são somente obrigações. Se alguém conhece o seu nome, logo ele o chama e diz que você tem de fazer isso ou aquilo. — Ele ergueu as sobrancelhas, e o azul pálido de seus olhos brilhou. — Eu sou o único assim aqui. Em Valemas há só um dschinn, que sou eu. Mesmo que eu esteja uma vez aqui, outra lá... — apontou para perto de Nuramon e desapareceu com um golpe frio de ar, aparecendo no lugar que havia mostrado —, mesmo assim eu sou sempre o mesmo. — O espírito curvou-se para baixo, até Nuramon: — Diga, qual é a sua cor preferida?
Nuramon hesitou.
— Azul — respondeu por fim, pensando nos olhos da feiticeira Noroelle.
O espírito rodopiou em um círculo e, quando sorriu novamente para Nuramon, vestia roupas azuis e brancas e tinha cabelos e olhos azuis.
— Mesmo de azul eu ainda continuo o mesmo e sendo o único aqui. Então para que um nome? Você pode me chamar simplesmente de dschinn.
Nuramon não conseguia entender. Diante dele pairava um dschinn em pessoa! O que ouvira sobre eles é que tinham desaparecido, e que alguns teriam se escondido nos poucos desertos da Terra dos Albos. Alguns elfos até afirmavam que os dschinns sequer tinham chegado a existir.
— Pois bem, dschinn... Talvez você possa me ajudar.
O espírito fez uma cara séria.
— Finalmente! Finalmente alguém que sabe valorizar a minha sabedoria infinita.
Nuramon não conteve um sorriso.
— Você é realmente modesto.
O dschinn baixou a cabeça.
— Certamente. Eu nunca diria algo sobre mim mesmo que não correspondesse à verdade. — Ele aproximou-se de Nuramon e sussurrou: — Você precisa saber que um dia eu... — Olhou em volta. — Um dia eu já vivi em outro lugar. Era um oásis de conhecimento no meio dos desertos de ignorância que estão por todos os lados.
— Hum. E que conhecimento era guardado lá?
O dschinn fez uma careta de incompreensão.
— Tudo, evidentemente: o conhecimento que era, o conhecimento que é e aquele que virá.
Esse espírito hilariante só podia estar achando que ele era bobo. Mesmo Emerelle só conseguia ver o futuro de forma difusa. Mas ainda assim... Se o dschinn não fosse só uma ilusão dos seus sentidos e houvesse uma só fagulha de verdade escondida em suas palavras, então ele poderia ajudá-lo na busca por Noroelle.
— Onde fica esse lugar? — perguntou ele ao espírito.
— Você deve imaginá-lo como uma enorme biblioteca, cravada na opala de fogo da coroa do marajá de Berseinischi.
— Uma biblioteca? Em uma pedra?
— Com certeza.
— Não dá para acreditar.
— E você preferiria acreditar que a opala de fogo é uma estrela alba que se move?
Nuramon calou-se. O dschinn tinha razão: uma estrela alba que não é presa em um só lugar, para ele, era ainda mais inacreditável que uma pedra na qual os espíritos reúnem todo o conhecimento.
O dschinn prosseguiu.
— A opala de fogo foi o nosso presente para o marajá Galsif. Estávamos em dívida com ele. Então confiamos a opala de fogo a ele e nos tornamos seus conselheiros. E fomos bons conselheiros. — Ele desapareceu de novo e surgiu do lado esquerdo de Nuramon. — Galsif era um homem lúcido e guardou nosso conhecimento com grande sabedoria. E essa sabedoria o fez omitir de seu filho a nossa presença. Pois o filho, além de tolo, era um tirano, não digno de nosso conhecimento. Nós, espíritos, entrávamos e saíamos da opala sem que ninguém percebesse. Não pode haver lugar mais seguro que a coroa de um soberano poderoso.
Nuramon refletiu. Tudo isso soava muito fantástico.
— Naquela “biblioteca” eu poderia descobrir como se viaja neste mundo de ilha para ilha?
— Você poderia se a biblioteca ainda estivesse lá. Mas ela já desapareceu há muito tempo. O marajá Elebal, muitas gerações de soberanos depois de Galsif, subjugou o reino vizinho e avançou para o leste. Por fim, lutou nas florestas de Drusna, onde desapareceu junto com seu exército. Sem ele, o reino se dissolveu e a coroa que se perdeu em Drusna está desaparecida até hoje. Antes eu podia encontrar a pista da opala em qualquer lugar do Outro Mundo e chegar até ela. Mas desde aquela época eu já não a sinto mais quando pairo pelo mundo dos humanos. Talvez a coroa e a opala de fogo tenham sido destruídas. Mas talvez também possam ter sido envoltas por magia e protegidas. Pode ser que apareçam de novo algum dia, mas até lá você terá de desistir do conhecimento da biblioteca. No entanto, eu posso responder a sua pergunta, pois meu conhecimento é muito extenso. Só que você não vai gostar da resposta.
O dschinn flutuou até o fim do oásis e, de uma hora para outra, a escuridão estava lá de novo. Ele continuou:
— Você já viu agora há pouco. Observe! Quem além dos albos conseguiria caminhar sobre essa névoa cinza? Seria desastroso ir lá para fora. Esse exterior não pertence a este mundo. Ele é o plano de fundo do Mundo Partido: o que restará se nosso mundo desaparecer. As ilhas são isoladas e ficam a uma distância inimaginável umas das outras. É claro que aqui no oásis há trilhas e estrelas albas. Mas nós só podemos usar o caminho que leva até o mundo dos humanos. Todos os outros vão até a escuridão e terminam em algum lugar entre as ilhas. Se tomar um deles, irá se perder para sempre. Mover-se fora das trilhas dos albos também não é uma solução. Eu posso voar. Uma vez até estive lá fora, mas retornei logo, antes que perdesse de vista a luz de Valemas. Mesmo se você pudesse voar, não iria longe sem comida e bebida. Acredite, Nuramon: até eu estaria arruinado lá fora. Todos os seres se alimentam de alguma coisa, e lá não há nada! Não há caminho no vazio que leve de uma ilha à outra.