Com isso, a ideia de Nuramon se frustrou. Se nem para um espírito era possível viajar pelo Mundo Partido, eles não conseguiriam desviar das barreiras da rainha dessa forma. Teriam de confrontá-la no mundo dos humanos.
— Vejo que isso o está preocupando. Mas a vida é longa demais para preenchê-la com tristeza. Olhe para mim! Aqui encontrei um novo lar e vivo feliz entre os elfos.
— Perdoe-me, dschinn. Mas para mim isso não é solução. Eu preciso quebrar a barreira em torno de uma estrela alba para chegar a um lugar do Mundo Partido. E eu sequer sei em que lugar do Outro Mundo essa estrela fica.
— Mas você vai encontrá-la, não é?
— Vou procurá-la à maneira dos elfos e um dia a encontrarei. Mas, e então? Como poderei transpor a barreira mágica que protege a estrela?
— Eu sei o que o atormenta. Quem criou a barreira foi a rainha da Terra dos Albos.
— Como sabe? — perguntou Nuramon, assombrado.
— Porque o poder dela é inigualável. Por isso, tudo parece estar perdido para você e seus companheiros. — O dschinn deu a volta em Nuramon pairando. — Raios! Um elfo que quer quebrar um feitiço da sua rainha. Nunca ouvi falar de nada assim. Dizem que na Terra dos Albos vocês são todos tão bons e obedientes...
— Eu peço encarecidamente que não conte a ninguém sobre os meus planos.
— Eu os manterei em segredo como o meu próprio nome. E como eu admiro corajosos filhos de albos, vou ajudá-lo. Você precisa saber que já conseguiram mais de uma vez quebrar barreiras em torno de estrelas albas. Mesmo que a opala de fogo esteja desaparecida e eu, infelizmente, só possua conhecimentos modestos de encantamentos, posso enviá-lo para um outro lugar onde há séculos o conhecimento dos mundos é acumulado. O portal para lá fica em Iskendria. É claro que essa biblioteca não se compara àquela dos dschinns, mas para que ter todo o conhecimento do mundo nas mãos se só precisa de um grão dele?
Iskendria! O som do nome agradava Nuramon.
— Onde fica essa tal de Iskendria? — perguntou ao espírito.
— Siga a trilha alba que leva do círculo de pedras para o norte e ande até o mar. — O dschinn girou sobre o próprio eixo e apontou para o lado. — Então vire-se para o oeste e vá margeando a costa. Você não vai errar. — O espírito cruzou os braços na frente do peito.
— Obrigado, dschinn.
— Oh, a gratidão tem muito valor para nós. Estive muitos anos no mundo dos humanos. Quantos desejos realizei lá, e raramente alguém me agradeceu!
— Posso fazer algo para ajudá-lo?
— Você pode sentar-se comigo nessa pedra e me contar o que aconteceu. Acredite em mim, neste oásis os seus segredos estão bem guardados. Ninguém aqui vai viajar até a Terra dos Albos e contar à rainha sobre você.
Nuramon consentiu com a cabeça, sentando-se na pedra perto do dschinn. Então começou a contar. A história ficava cada vez mais longa, já que desabafava o que havia em seu coração.
O dschinn ouviu pacientemente, fazendo uma cara que não combinava nada com um tipo contente. Quando Nuramon terminou, o dschinn começou a chorar.
— Essa foi mesmo a história mais triste que eu já ouvi, elfo. — O dschinn ergueu-se num salto, enxugou o rosto e, de repente, deu um grande sorriso, que fez brilhar seus dentes. — Mas ainda não terminou. Você ainda pode rir ou chorar. — A expressão do dschinn se alterou de um jeito esquisito, com uma metade de seu rosto alegre e a outra, triste. Cada metade parecia lutar contra a outra. — Você precisa se perguntar se há esperança ou não. — Ele bateu com a mão aberta na metade feliz e o sorriso e as rugas de alegria se espalharam para a outra metade. — Precisa ser confiante, elfo. Vá até Iskendria! Lá certamente você encontrará uma forma. Se não houver mais esperança, ainda terá tempo suficiente para se desesperar.
Nuramon concordou. Era óbvio que o dschinn tinha razão, ainda que a alegria dele lhe fosse estranha. Ele não sabia se devia ficar bravo com o espírito por ter posto sua história de lado de forma tão frívola. Mas o sorriso no rosto dessa figura estranha era o bastante para que ele também não pudesse evitar sorrir.
Quando Nuramon se ergueu, o dschinn flutuou de volta para o lado da estátua. Por fim, disse:
— Vá com confiança até Iskendria. Yulivee esteve lá com frequência. E ela era muito sábia. Ela criou o portal pelo qual os elfos da velha Valemas deixaram a Terra dos Albos. Criou o anel de pedras lá fora, e os elfos daqui devem a ela o feitiço da luz, aquela barreira e a imagem do deserto que fica ali na frente. Yulivee sempre disse que as viagens eram os melhores mestres. E ela era uma boa aluna. O que ela aprendeu lá fora no mundo dos humanos e no Mundo Partido também pode um dia estar aberto para você. — Com essas palavras o dschinn se dissolveu. — Adeus, Nuramon!
Nuramon foi até a frente da estátua de Yulivee e fitou-a nos olhos brilhantes. Ele de fato ainda não sabia se devia levar o dschinn a sério, e se lá fora, no mundo dos humanos, realmente existia uma cidade chamada Iskendria. Mas um olhar no rosto de Yulivee bastou para decidir que contaria a seus companheiros sobre essa cidade e que os convenceria a ir até lá.
Os contos de Tearagi
Valeschar, o grande peregrino do deserto, já era conhecido de nossos antepassados. Nós só o encontramos algumas vezes e não sabemos como ele consegue sobreviver nas profundezas do deserto. Dizem que ele e o deserto são um só. Certo dia, conhecemos os companheiros de Valeschar. Na noite anterior, havíamos ouvido os ghouls ganirem nas dunas, então tínhamos medo do raiar do dia. Já perto do meio-dia, ao atravessarmos a implacável planície de Felech, vimos um cavaleiro ao longe. Pensamos que os ghouls haviam mandado um demônio para nos aprisionar, mas em seguida vislumbramos a capa vermelho-fogo de Valeschar.
Levantamos nosso acampamento em lugar e posição adequados para que pudéssemos receber o grande soberano do deserto de forma digna. Mas veja! Junto à sombra de Valeschar surgiram três vultos com seus cavalos. Dois eram girates pálidos, equipados como guerreiros. O terceiro, porém, era um girate do fogo. Seu longo cabelo de chamas agitava-se no ar e seu semblante era vermelho como brasa. Sua arma era um grande machado cuja lâmina brilhava ao sol. Os três girates montavam cavalos nobres e incansáveis.
Recebemos Valeschar como mandam nossos costumes. E, como sempre, ele foi um bom visitante. Comeu e bebeu pacificamente conosco e alegrou-se com nossos presentes. Valeschar apresentou-nos seus companheiros. Os dois girates pálidos chamavam-se Faraschid e Neremesch, e o girate do fogo, Mendere.
Faraschid tinha cabelos claros como o sol e olhos de jade. O cabelo de Neremesch, por sua vez, era da cor das Montanhas do Vento, e seus olhos eram tão castanhos quanto os desertos do sul. Já Mendere era um gigante com uma selvagem barba de chamas. Seus olhos azuis pareciam dois oásis no deserto. O girate do fogo não tinha nada das maneiras do seu senhor. Devorou a comida sem cessar e, para nossa grande admiração, bebeu água o tempo todo. Neremesch nos deu a entender que Mendere precisava apagar as chamas furiosas em seu estômago. Então ficou claro para nós que Mendere só estava agindo para o nosso bem. Pois ele não queria que nossas barracas fossem tomadas pelas chamas.
Depois da refeição, Valeschar nos pediu para conduzir seus companheiros até o mar. De fato, temíamos o girate do fogo, mas por respeito a Valeschar, aceitamos os três. Os girates não falavam a nossa língua e nós não conhecíamos nenhuma que eles dominassem. Então, trocamos somente poucas palavras. Admiramos o sacrifício que Mendere fazia por nós ao beber água. Ele também se encheu de vinho para conter as chamas. Quando, em seguida, Mendere pediu raki, ficamos com medo que isso só fosse atiçar suas chamas. Mas quem contradiz a palavra de um amigo de Valeschar? Então o girate bebeu raki. Primeiro não aconteceu nada. Mas à noite houve tantos gemidos e lamúrias que então fugimos do acampamento, pensando que era uma invasão dos ghouls. Quando arriscamos voltar para o nosso acampamento, descobrimos Mendere virando-se no chão, lutando contra as chamas que o raki atiçara nele.