Выбрать главу

Quanto mais perto chegávamos do mar, mais fogosa se tornava a pele de Mendere. Só as mãos de Neremesch conseguiam acabar com o fogo do rosto e dos braços dele. Desde aquele dia, reza entre nós: nunca dê raki para um girate do fogo beber!

Por fim, chegamos ao mar. Os três girates despediram-se com as poucas palavras em nossa língua que haviam aprendido. Foram na direção de Iskendria, deixando-nos curiosos. O que poderiam querer em Iskendria? Certamente viajavam por incumbência de seu senhor. Pois os povos do deserto já sabiam há muito que os moradores de Iskendria eram loucos o bastante para recusar o tributo de Valeschar. Assim, agora cavalgava em direção a eles a ruína personificada nos companheiros de Valeschar.

De: Contos dos povos do deserto, Compilado por Golisch Reesa. Volume 3, Os Tearagi, Pág. 143.

Iskendria

O caminho pelo deserto foi uma tortura para Farodin. Às vezes, ele sentia como se as dunas quisessem zombar dele. Os grãos de areia eram incontáveis, e mostravam a seus olhos como sua tarefa era impossível. Só lhe restava contar que, com o tempo, o feitiço fosse ficando mais forte. Uma vez tomado o caminho, Farodin queria permanecer fiel a ele. Sua persistência o havia conduzido até Noroelle após quase setecentos anos, e ele chegaria de novo a ela dessa vez. Estava decidido a encontrar grãos de areia da ampulheta quebrada suficientes para anular o feitiço de Emerelle, mesmo que isso levasse séculos.

Farodin olhou para as altas muralhas da cidade no horizonte. Iskendria. Era prudente ir lá? Teriam de atravessar mais uma vez por uma estrela alba. Era perigoso fazer o feitiço. E se agora eles dessem um salto no tempo? Era provável que sequer percebessem. Mas, para Noroelle, isso significaria muitos anos a mais de solidão. Se nessa biblioteca eles de fato encontrassem uma possibilidade de quebrar o encanto de Emerelle e localizassem a estrela pela qual Noroelle foi exilada para o Mundo Partido, então a busca deles terminaria rápido. Mas Farodin estava cético. Era possível que Emerelle não soubesse sobre a biblioteca? Dificilmente. Então ela partia do pressuposto de que todo o conhecimento dali não ajudaria. Podia estar enganada a esse respeito? Cismou com isso ao longo de toda a viagem. Mas era inútil desperdiçar mais pensamentos com essa questão. A resposta estaria somente na biblioteca.

Um cheiro leve de decomposição pairava no ar. Farodin olhou para cima. Já haviam quase alcançado a cidade.

Os últimos quilômetros da estrada antes de chegar a Iskendria estava tomado por túmulos. Isso era de um mau gosto que só podia ser ideia de humanos, pensou o elfo. Quem poderia gostar de ser saudado por monumentos aos mortos ao visitar uma cidade? Os jazigos e mausoléus suntuosos ficavam bem perto da rua. Indo em direção ao deserto, as sepulturas iam ficando mais humildes, até se tornarem simples pedras que marcavam o lugar onde se havia enterrado um morto na areia.

Nos luxuosos mausoléus de mármore e alabastro, claramente haviam prescindido de entregar os cadáveres diretamente à terra. Farodin ansiou que tivessem se empenhado para fabricar sarcófagos muito bem lacrados da mesma forma que se esforçaram para enfeitar os mausoléus com imagens. A maioria delas mostrava homens e mulheres que pareciam bastante jovens. Não era de admirar que não se envelhecesse em uma cidade que recebia os visitantes com fedor de cadáver! Baseando-se nas imagens, devia haver entre os ricos de lá só dois tipos de pessoas: aquelas que, imersas em pensamentos, pareciam se levar terrivelmente a sério, e aquelas para as quais a vida era uma festa. As estátuas dessas últimas as mostravam estendidas sobre sarcófagos nos quais brindavam aos visitantes, erguendo suas taças de vinho.

As sepulturas e estátuas mais recentes eram pintadas de cores berrantes. Farodin esforçava-se para entender como os humanos podiam cometer a heresia de achar que alguém ficava bem com os olhos contornados de preto e vestindo um traje cor de laranja com um manto púrpura. Nas estátuas e construções fúnebres mais antigas, a areia do deserto já desgastara a cor há tempos e, por isso, elas agrediam bem menos os olhos de quem as observava.

A impressão mórbida que Iskendria dava aos viajantes era um pouco amenizada pelas mulheres que ficavam em pé ao longo das ruas. Elas recebiam os visitantes da cidade com sorrisos convidativos e gestos amigáveis. Ao contrário do que faziam os habitantes do deserto, elas não se protegiam do sol com véus e túnicas longas: mostravam tanta pele quanto possível, isso sem falar nas grossas camadas de pó e maquiagem que cobriam seus rostos e braços. Algumas até abriam mão de toda e qualquer roupa e pintavam-se com padrões desvairados de espirais e linhas curvas.

Mandred, que aparentemente estava habituado a esse tipo de boas-vindas, acenava para as mulheres. Estava no melhor dos humores. Girava a cabeça com um sorriso largo, para não perder nenhuma chance de olhar as moças.

A rua pavimentada com grandes lajotas levava até as muralhas de Iskendria. Um pouco à frente deles ia uma caravana, composta daqueles animais desengonçados que os humanos chamavam de dromedários, e de um pequeno grupo de comerciantes, que gralhavam agitados. De repente, um deles deu uma guinada e falou com uma mulher de cabelos vermelhos nada naturais, que estava sentada com as pernas escancaradas na base de uma das construções de mármore. Depois de uma breve pechinchada, ele pôs algo em sua mão e ambos desapareceram atrás de um mausoléu meio devastado.

— Quanto será que uma cavalgada custa aqui? — murmurou Mandred, olhando para os outros dois.

— Por que você quer cavalgar? Nós cavalgamos os últimos... — Nuramon parou. — Você não quer dizer... Elas por acaso não são... Como vocês as chamam? Putas? Pensei que elas ficavam em casas grandes, como a de Aniscans.

Mandred riu com vontade.

— Não, em Aniscans também há muitas prostitutas na rua. Só lhe falta o olhar para isso. Ou talvez seja o amor. Noroelle é bem diferente dessas putas, embora algumas delas sejam mesmo bonitas.

— Se alguém vive o calor do amor, não procura agradar os sentidos em nenhum outro lugar.

Farodin se irritava quando seu companheiro falava de Noroelle e dessas mulheres pintadas na mesma frase. Isso era... Não, ele não encontrava palavras para o quanto era absurdo comparar Noroelle a essas mulheres. Ocorriam a ele dezenas de metáforas para a beleza de Noroelle, versos e estrofes das canções que ele um dia cantara para ela. Nenhuma dessas imagens seria apropriada para as mulheres humanas. E agora ele também fazia isso! Pensava ao mesmo tempo na amada e nessas mulheres! Lançou um olhar azedo para Mandred. Todo o tempo cavalgando junto com esse bárbaro e ele não aprendera nada...

Ficou claro que Mandred entendeu errado o seu olhar. Ele acariciou a bolsa de dinheiro pendurada no cinto.

— Esses peões de camelo bem que podiam ter sido um pouco mais generosos. Vinte moedas de prata! Para quanto tempo isso pode bastar? Quando eu penso em tudo que eles deram a Valiskar. Eles fazem certo, esses irmãos de vocês lá do oásis.

— Eles não são irmãos — objetou Nuramon. — Eles são...

Mandred fez um sinal negativo.

— Sim, eu sei. Eles realmente me impressionaram. São mesmo espíritos sentíveis!

— Você quer dizer sensíveis? — perguntou Farodin.

— Falatório vazio de elfo! Você sabe muito bem o que eu quero dizer. É que... Basta esses cabeças enroladas com seus camelos os verem e já ficam loucos para dar presentes a eles. Simplesmente incrível e... sentível! Sem rachar crânios, sem ameaças, sem xingamentos. Eles vêm e ganham presentes. E os peões de camelo ainda ficam felizes com isso. Eles devem ser mesmo durões, esses elfos de Valemas.