Farodin lembrou de Giliath. Teria gostado de falar com ela mais uma vez para saber se ela realmente o teria matado. Ela esteve perto disso. Depois da luta, ela se recolheu. Embora tenham ficado por mais cinco dias no oásis, eles não a viram novamente.
— Olá, garota! — Mandred deu um tapinha na coxa de uma mulher de pele escura. — Você me entende, mesmo que não fale a minha língua.
Ela respondeu com um sorriso sensual.
— Vou procurá-la assim que acharmos um lugar para dormir na cidade.
Ela apontou para a bolsa de dinheiro na cintura dele e olhou de forma insinuante na direção de um jazigo arrombado.
— Ela gostou de mim! — anunciou Mandred, orgulhoso.
— Pelo menos da parte que está pendurada no seu cinto.
Mandred riu.
— Com certeza ela também vai gostar do que está pendurado mais embaixo. Pelos deuses! Como senti falta de ter uma garota macia nos braços.
As palavras de Mandred foram uma cutucada em Farodin. O ser humano era de um frescor tão simples. Devia ser por causa de sua vida curta.
No fim da rua havia um grande portão duplo, ladeado por duas torres imponentes em formato de semicírculo. Só os muros já deviam ter mais de trinta pés de altura; as torres tinham quase o dobro. Farodin nunca vira uma cidade humana cercada de fortificações tão impressionantes. Diziam que Iskendria tinha muitos séculos de idade. Duas grandes ruas comerciais e um rio imponente encontravam-se na cidade portuária.
Junto ao portão havia guardas com armaduras de cordas reforçadas no peito. Traziam elmos de bronze enfeitados com caudas negras de cavalo. Os viajantes que deixavam a cidade saíam pelo portão da esquerda e mal eram incomodados. Quem quisesse entrar em Iskendria, no entanto, precisava pagar pedágio aos guardas.
— Vocês viram isso? — indignou-se Mandred. — Esses sanguessugas cobram uma moeda de prata para darmos à cidade a honra de nossa visita.
— Eu pago por você também — disse Farodin baixo. — Mas trate de ficar calmo! Não quero aborrecimentos aqui — continuou desconfiado, sem tirar os olhos de Mandred.
Quando o sentinela do portão aproximou-se deles, Farodin pôs três moedas de prata em sua mão. Era um rapaz bexiguento e com mau hálito. Ele perguntou algo que Farodin não entendeu. Sem ter o que fazer, o elfo encolheu os ombros.
O guarda pareceu inquieto. Apontou para Mandred e repetiu a pergunta. Farodin estendeu ao soldado mais uma moeda de prata. Então o sentinela sorriu e fez sinal para que passassem.
— Sanguessuga! — rosnou Mandred mais uma vez.
Do outro lado do portão, uma rua movimentada os aguardava. Levava para dentro da cidade em linha reta. A caravana que tinham seguido na estrada costeira até Iskendria desapareceu por uma arcada em um pátio sem muros. Farodin viu ali mais de cem camelos. Aparentemente, o pátio era um ponto de encontro para mercadores distantes. Ali eles não podiam ir. Entre os mercadores só chamariam a atenção, e tinham de evitar isso a qualquer preço. Então, seguiram pela mesma rua.
A maioria das casas dali era feita de adobe. Raramente tinham mais de dois andares. Seguindo adiante naquela mesma rua, elas eram abertas e abrigavam no térreo lojas de trabalhos manuais, tabernas ou adegas.
Na frente de uma dessas adegas havia algumas crianças sentadas, depenando passarinhos. Sem que fossem destripadas, eram jogadas em gordura fervente ainda vivas! Ao ver isso, Farodin sentiu o estômago quase virar do avesso. Tanto fazia o tamanho das cidades dos humanos: continuavam sendo bárbaros!
Os três companheiros eram os que andavam mais devagar na ampla rua central. Todo mundo ali parecia saber aonde ia, e todos tinham pressa. Trabalhadores suados empurrando carroças cheias de tijolos; vendedores de água carregando enormes ânforas atadas às costas; meninos de recados com pesadas bolsas de couro; mulheres levando cestas cheias de legumes para os mercados. Farodin sentia-se no lugar errado no meio de todos aqueles humanos. Suas orelhas estavam ocultas sob um lenço que trazia à cabeça, então não chamava a atenção. Mas para ele não fazia diferença. Raras vezes já se sentira tão alheio ao mundo dos humanos.
Observou uma velha senhora que trajava um vestido de amarrar verde-mar e que era seguida por dois criados levando cestas de mercadorias. A velha tagarelava com um rapaz que carregava uma longa vara, com mais de vinte gaiolas de pássaros. Finalmente um dos servos pôs na mão dele algumas moedas de cobre. O jovem então abriu uma gaiola e apanhou uma pomba branca. Entregou-a cuidadosamente à velha senhora, que, rindo, soltou-a no ar. A pomba deu uma volta, claramente confusa com a liberdade que acabara de conquistar, e então voou para oeste na direção das marinhas de sal.
Num primeiro momento, Farodin ficou impressionado com esse gesto nobre. Mas logo se perguntou se o jovem aprisionava os pássaros simplesmente para que damas ricas pudessem libertá-las para o seu próprio prazer.
Quanto mais seguiam pela rua, mais altas tornavam-se as casas que a cercavam, agora construídas com tijolos rebocados de branco. Algumas das paredes tinham imagens pintadas, de navios ou de cegonhas que se metiam pelo meio dos caniços.
Farodin ficou com tontura com todos aqueles odores que confundiam seu olfato. O aroma de ervas e temperos misturava-se ao fedor da cidade. Por todos os lados, o cheiro era de humanos sujos, de jumentos e camelos e de excrementos. O barulho também era indescritível. Os comerciantes elogiavam suas mercadorias a plenos pulmões nas lojas de rua; os vendedores de água e também as meninas que expunham pães achatados e cheirosos e roscas douradas entoavam juntos uma cantilena sem fim.
Logo Farodin já sentia falta da solidão do deserto. Sua cabeça doía agudamente. O calor, o barulho e o fedor eram mais do que ele podia suportar. E, como se tudo isso não bastasse, ele sentia a trilha dos albos, que seguia paralela à estrada costeira até ali, dentro da cidade, tornar-se cada vez mais fraca. Farodin tinha certeza de que não haviam se desviado dela. Para ele, parecia que a cada passo ela descia mais fundo sob o pavimento da rua.
Nuramon também parecia inquieto. Trocaram um breve olhar.
— Nós já passamos por duas estrelas albas menores — sussurrou nervoso. — Para mim, a cidade parece quase uma teia de aranha, de tantas trilhas que se encontram aqui. Mas elas ficam por baixo da terra. Isso não é comum. Eu não sei se posso usar a força delas para abrir um portal.
— Talvez haja um túnel — presumiu Farodin. — É preciso chegar às estrelas de algum jeito. Toda grande estrela alba é protegida por poderes mágicos para não ser soterrada pela neve ou pela areia.
— E se aqui tiverem renunciado a esse feitiço? — retorquiu Nuramon. — Talvez para esconder melhor o portal dos humanos? Veja só essa multidão! Que outra possibilidade há aqui além de esconder o portal por baixo da terra?
— Aquele espírito esquisito, o dschinn, por acaso disse quando procurou a biblioteca?
— Não.
— Talvez séculos já tenham se passado depois disso. Talvez já não haja mais nenhum portal que leve daqui até a biblioteca.
Nuramon não respondeu. Também, o que podia dizer? Depositara todas as esperanças que restavam na biblioteca. Agora que já estavam ali, procurariam até encontrar um portal!
Mandred parecia não ter notado nada do clima pesado entre os elfos. Estava totalmente arrebatado por todas aquelas impressões desconhecidas e lançava olhares lascivos para todas as mulheres que fossem minimamente vistosas. Sua vida era curta e ele a levava de forma surpreendentemente leve. Nada parecia conseguir turvar seu humor por muito tempo. Ele sempre encontrava algo capaz de entusiasmá-lo, mesmo que fosse perseguindo os prazeres fugidios de uma bebedeira ou de uma noite de sexo. Talvez ele vivesse mesmo uma vida melhor.
Já deviam ter percorrido mais de um quilômetro quando a rua que seguiam deu em uma alameda de colunas, diferente por ser luxuosamente enfeitada. Indecisos para onde deviam ir, por fim viraram na rua luxuosa. Ali a multidão de humanos era ainda maior. À direita e à esquerda das fileiras de colunas havia carreiras de lojas. Elas também abriam suas amplas portas para a rua e brilhavam com mercadorias finas. Havia tecidos de todos os países humanos e também vasos e caixas lindamente pintados. Com fios finíssimos, os ourives produziam joias muito delicadas sob o olhar dos passantes curiosos.