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Os sacerdotes estavam aglomerados nos degraus que subiam para o templo. Entoavam uma canção solene e sombria. Embora Farodin não entendesse nem uma palavra, um arrepio gelado subiu por suas costas.

A liteira foi colocada ao pé da estátua. Agora os percussionistas aceleravam o ritmo dos tambores.

Ao redor da praça havia milhares de humanos, que acompanhavam com a voz o canto monótono dos sacerdotes. Farodin viu de canto de olho Nuramon ficar muito pálido. Até Mandred estava quieto; qualquer sinal de sorriso desaparecera de seu rosto.

Os dois sacerdotes carecas que estavam de pé na liteira conduziram a garota, subindo pela rampa de madeira. Ela parecia uma sonâmbula.

Juntos, os três subiram na superfície das mãos abertas da estátua do deus. Os padres forçaram a menina a ficar de joelhos. Passaram correntes ao redor de seus ombros, que engancharam em aros de ferro presos às mãos do deus. A coroa de flores que enfeitava seus cabelos caiu. Ficou ali apaticamente ajoelhada, prisioneira em sua embriaguês e devoção muda. Uma sacerdotisa de cabelos longos e soltos trouxe um jarro dourado e ungiu a testa da garota. Então derramou o conteúdo do jarro sobre suas roupas.

Quando ela, junto com os dois outros sacerdotes, saiu das mãos do deus de volta para a rampa, aceleraram-se mais uma vez as batidas de tambor. Os pratos soaram dolorosamente estridentes. O canto monótono tornou-se ainda mais alto.

De repente, os braços da estátua ergueram-se. Ambas as mãos da divindade moveram-se até a boca escancarada, para dentro da qual a menina desapareceu. O canto e as batidas de tambor emudeceram repentinamente. Então os braços baixaram de volta. Presa pelas pesadas correntes, a menina ressurgiu de joelhos nas mãos abertas do deus. Seu cabelo e roupas estavam em chamas. Gritando, ela se revirava em seus grilhões.

De olhos arregalados, Mandred fitava fixamente a menina em chamas, enquanto Nuramon se virou e quis deixar a praça. Mas o pretenso guia colocou-se no caminho:

— Não faça isso — murmurou ele.

Alguns dos fiéis já olhavam irritados na direção deles.

— Se você for, estará ofendendo Balbar. Eu contei a vocês o que os sacerdotes fazem com os sacrílegos. Olhe para o chão se não conseguir suportar a visão, mas não saia daqui agora. Reze para Tjured, Arkassa ou para quem você quiser.

Os gritos da menina tornavam-se mais baixos. Finalmente ela despencou para a frente, agonizante. Novamente os sacerdotes entoavam o seu canto sombrio. Lentamente a multidão de humanos começou a se dispersar.

Farodin estava com náuseas. Que tipo de deus era aquele, cultuado com atrocidades tão indescritíveis?

— Agora podemos ir — disse Zimon sobriamente. — Ninguém é obrigado a participar das cerimônias de sacrifício. É bem possível evitar essas barbaridades. Já moro aqui há dois anos e ainda não entendo as duas faces de Iskendria. É uma cidade da arte e da cultura. Eu sou escultor. Em nenhum outro lugar souberam valorizar meu trabalho tanto quanto aqui. Os ricos são loucos para que façam seus retratos. Há festas maravilhosas. Na biblioteca, eruditos do mundo todo discutem questões filosóficas. Ao mesmo tempo, aqui na praça do templo eles queimam uma criança todos os dias. Simplesmente não conseguimos acreditar que sejam as mesmas pessoas.

— Todos os dias? — perguntou Mandred, sem acreditar. — Por que eles fazem isso? Mas isso é... — Ele levantou as mãos num gesto de desamparo. — Isso é...

— Há setenta anos a cidade foi sitiada pelo rei Dandalus, das Ilhas Aegílicas. Sua frota marítima trouxe um enorme exército que sitiou a cidade. Eles construíram catapultas e torres móveis. Trouxeram até mineiros para construir um túnel por baixo das muralhas. O cerco durou duas luas; então Potheinos, o rei da cidade, soube que Iskendria estava fadada à queda. Ele prometeu a Balbar sacrificar seu filho se ele detivesse as tropas. Logo uma epidemia se espalhou entre os soldados de Dandalus. Ele precisou deixar a cidade sitiada em paz e se retirar para um acampamento. Potheinos sacrificou seu filho e prometeu a Balbar oferecer uma criança em sacrifício todos os dias se ele aniquilasse o seu inimigo. Dois dias mais tarde a frota do aegilês afundou em uma tempestade terrível. Nossa costa é um deserto. Sem água nem comida, Dandalus precisou desistir da ocupação. E, sem navios, ele foi obrigado a seguir à beira d’água para oeste. Só um de cem homens retornou para as Ilhas Aegílicas. Não há nenhuma fonte que conte o que sucedeu ao rei. Os sacerdotes de Balbar afirmam que o próprio deus teria capturado e devorado Dandalus. Desde esse dia ninguém mais tenta conquistar Iskendria. Mas a cidade sangra para isso, pois Balbar devora os seus filhos. O palácio real extinguiu-se. Hoje quem governa aqui são os sacerdotes de Balbar e os mercadores. Iskendria é uma cidade muito generosa, que acolheu legiões de estrangeiros para dentro de suas muralhas. Mas sejam cautelosos para não ferir nenhuma de suas leis. Aqui só se conhece um tipo de punição: mutilação até a morte.

A vontade de Farodin era deixar imediatamente a cidade dos assassinos de crianças. E, sim, ele se surpreendeu até pensando em jogar os sacerdotes carecas para dentro da goela em chamas da estátua.

— Nós vamos seguir o seu conselho — disse Nuramon seriamente. — Você sabe nos indicar uma boa hospedaria?

Zimon sorriu.

— O cunhado de um amigo tem uma hospedaria junto ao porto. Ali há até um estábulo onde vocês podem abrigar os cavalos. Será um prazer levá-los até lá.

A biblioteca secreta

O homem na jaula de ferro agonizava e clamava por água. Era o último que ainda estava vivo. Sete grandes jaulas pendiam na borda leste do mercado de cavalos. Uma das muitas penas de morte em Iskendria era trancafiar os condenados nessas jaulas e então deixá-los morrer à míngua em praça pública.

Mandred tateou buscando seu odre de água.

— Nem pense nisso! — murmurou Farodin, apontando para os guardas do templo à sombra das colunatas.

Estava escuro demais para que estimassem quantos eram.

— Talvez seja totalmente justo que ele esteja pendurado aqui — acrescentou Farodin.

O condenado tinha um braço esticado para fora da jaula, e acenava desesperado para eles. Mandred deu graças pela escuridão, porque assim ele não podia ver bem o homem. Foi inevitável pensar na marcha pelo deserto. Em como ele quase morreu de sede. Numa decisão rápida, apanhou o odre de água e atirou-o para o prisioneiro.

Na outra ponta da praça soou um grito. Mandred não entendeu nem uma palavra. Nas duas semanas na cidade, ele só aprendera o estritamente necessário. Palavras que era preciso saber para sobreviver ali: água, pão, sim, não e vamos fazer amor.

Dois guardas vieram de baixo das colunatas.

Farodin e Nuramon saíram andando. Mandred ainda olhou mais um pouco para os condenados. O homem bebeu avidamente, em longos goles. Uma coisa era cortar a cabeça de um condenado. Outra era deixá-lo sofrer dias a fio sob o sol chamuscante daquela cidade — isso era infame! Ninguém ganhava nada com isso.

Mandred apressou-se a seguir os dois elfos. Moviam-se totalmente em silêncio e desapareceram um pouco adiante em uma viela escura. O jarl sentiu-se bem. O que ele fizera estava certo!

Atrás dele soou uma corneta, e uma outra respondeu bem perto. E então uma terceira veio, exatamente da direção para onde seguiam. Mandred praguejou. Os guardas os cercavam. Alguém atrás dele rosnou uma ordem.

Antes que Mandred seguisse os elfos para dentro da viela, ouviu bem perto o percutir no chão das sandálias dos soldados.

— Aqui!

Farodin saiu da sombra de uma porta e puxou-o para o estreito corredor de entrada de uma casa. Ela cheirava a peixe e roupas molhadas. Em algum lugar acima deles, um casal brigava com muito barulho. Uma criança começou a chorar.