O corredor fazia uma curva acentuada para a esquerda e terminava em um pátio. Nuramon estava ali de pé, ao lado de um poço, acenando para eles.
— Aqui está!
Mandred não conseguia se orientar em Iskendria. Na noite anterior, haviam subido de alguma fonte depois de uma busca sem resultados. Já há duas semanas andavam pelas catacumbas sob a cidade, tentando encontrar uma estrela alba que fosse um caminho seguro até a biblioteca recomendada pelo dschinn.
Entretanto, Mandred tinha a suspeita de que seus companheiros não dominavam muito bem o feitiço dos portais. Eles tinham tentado esclarecer o problema a ele. Segundo se diz, era necessário estar exatamente sobre uma estrela para abrir um portal. Mas ali as estrelas estavam enterradas sob camadas de séculos de entulho. Como diziam que os filhos dos albos ainda usavam a biblioteca lendária, devia haver em algum lugar do labirinto de túneis, câmaras mortuárias e canais de esgoto um acesso oculto a uma delas. E era isso o que eles buscavam noite após noite.
Iskendria fora erguida em um lugar excepcional. Ali cruzavam-se não só vias terrestres e aquáticas: pela região da cidade passavam mais de trinta trilhas albas. Mas elas não seguiam as vielas sinuosas — perdiam-se através de paredes e rochas.
Nuramon fixou uma corda com um gancho na borda do poço e começou a descer. Farodin o seguiu. Os elfos eram escaladores hábeis. Mandred odiava ficar pendurado em cordas, da mesma forma como odiava rastejar como um rato pela na terra.
Um grito soou da entrada do pátio. Guerreiros! Mandred agarrou a corda e deixou-se cair dentro do poço escuro. A textura áspera queimou suas mãos. Enquanto seus pés tateavam a abertura, rostos surgiram na borda do poço acima dele.
Com raiva, Mandred olhou para cima. Queria lançar aos seus perseguidores, os carrascos do templo, uma praga ou uma ofensa. Simplesmente fugir ia contra os seus princípios. Mas o seu vocabulário era pobre demais, e não tinha nada. A não ser... Ele deu um sorriso largo e curvou-se bem dentro do poço para que pudesse vê-los.
— Vamos fazer amor! — ecoou sua voz pela construção.
Ele ergueu os punhos cerrados na direção dos guardas e riu hostilmente. Um dos guerreiros arremessou sua lança dentro do poço. Mandred desviou depressa e saiu dali. Enquanto isso, os elfos tinham acendido três candeeiros.
— Mas que maluquice é essa? — perguntou Farodin, repreendendo, mordaz, o filho de humanos.
— Foi só uma frase feita...
— Estou falando do que aconteceu no mercado de cavalos! Está sentindo falta da morte por perto? Nós fizemos um trato! Você não faria nada para chamar a atenção. Você se lembra disso?
— Vocês não entenderiam...
— Realmente — retrucou Farodin friamente. — Eu não consigo entender! O que você fez foi totalmente insensato! Acha que conseguiu salvar a vida do homem na jaula? Não! Você só prolongou seu sofrimento por mais um ou dois dias. Eu simplesmente não entendo!
Mandred não respondeu. O que podia dizer? Os dois não eram capazes de entender. E como poderiam? O que ele fez foi loucura, ele mesmo sabia. No fundo não ajudou ninguém. Mas, ainda assim, ele faria de novo.
Pesaroso, seguiu os elfos. Eles escalaram sobre montes de entulho, atravessaram túneis semi-inundados e tatearam salas subterrâneas sustentadas por colunas, em cujas paredes estavam pintados demônios horríveis. Várias vezes deram de cara com pinturas de Balbar lançando fogo pela boca.
Na maioria das vezes, foi Nuramon quem os guiou; diziam que era talentoso em seguir trilhas albas ocultas. Para Mandred, em contrapartida, trilhas que não podiam ser vistas eram sinistras. Com certeza havia outras marcações escondidas ali embaixo que indicassem o caminho. Mas, sempre que seguiam as trilhas dos albos, davam em muros ou em fendas nos túneis, sem poder fazer nada. Exatamente como agora. Estavam em uma câmara estreita, com paredes de arenito vermelho-escuro. Diante deles havia uma pedra redonda que lembrava a roda de um moinho. No meio dela estavam esculpidas duas linhas sinuosas.
— Continua aqui! — disse Nuramon, apontando para a pedra. Os elfos deram-meia volta e olharam para Mandred.
É claro! Sempre que precisavam resolver um problema à força ele era bom o suficiente, pensou Mandred, nervoso. Ele largou seu lampião e foi até a pedra. No chão e sob o teto, a roda de pedra estava encaixada em pequenas depressões, para que não girasse para o lado.
Mandred empurrou com toda a força e ficou surpreso com a facilidade com que a pedra se movimentou. Um cheiro forte de poeira, temperos e incenso veio de encontro a eles.
Mandred expirou com força. Conhecia esse cheiro. A câmara mortuária sob a cidade cheirava assim, onde algum tipo de magia impedia que os corpos dos mortos apodrecessem, ressecando em vez disso.
Essas sepulturas causavam medo em Mandred. Se os mortos não apodreciam como era típico deles, então talvez pudessem também fazer outras coisas que não fossem típicas dos mortos.
Sem hesitar, ambos os elfos entraram na câmara. Seguravam suas lanternas no alto para que a sala da tumba fosse bem iluminada. Ela media cerca de três passos por cinco. Nas paredes havia longos nichos, nos quais os mortos descansavam em camas de pedra.
O estômago de Mandred revirou quando olhou em volta. Os cadáveres tinham rostos marrons e cavados e lábios recolhidos, de forma que pareciam sorrir. Mandred olhou para a pedra da porta. Não se surpreenderia se, de repente, ela rolasse para frente da entrada como se tocada pela mão de um espírito, e os mortos se levantassem assim que eles ficassem presos. Examinou os corpos de canto de olho. Não havia dúvida! Eles sorriam malignamente para ele. E parecia que tinham mesmo todos os motivos para estarem carrancudos. Alguém já estivera ali naquela tumba. As roupas dos mortos estavam esfarrapadas. E tinham até arrancado a mão de um deles. Ladrões de tumba!
Isso não parecia inquietar nem um pouco os elfos. Eles iluminavam os nichos procurando portas secretas. Parecia que tinham dado mais uma vez em um beco sem saída. Mandred rezou em silêncio para Luth. Um dos mortos tinha mexido a cabeça. O jarl não viu, mas tinha certeza de que o sujeito havia pouco estava olhando para a porta, e não em sua direção como agora.
Recuou um pouco por precaução. A parede de frente para a porta parecia-lhe a mais segura. Lá não havia nichos. As pedras pareciam antigas. Em uma delas havia algo riscado, um círculo com duas linhas sinuosas.
— Nós não vamos embora? — perguntou Mandred.
— Logo mais — respondeu Nuramon, curvando-se sobre o morto que olhara para Mandred.
Será que o companheiro não tinha percebido nada?
— Cuidado! — Mandred puxou-o para trás.
Irritado, Nuramon se soltou.
— Os mortos não fazem nada a ninguém. Controle o seu medo! — disse, falando com Mandred como se ele fosse uma criança e voltando a se curvar dentro do nicho. Chegou até a segurar o corpo para puxá-lo um pouco para o lado. — Aqui tem alguma coisa!
Mandred tinha a sensação de que seu coração estava para explodir. Que raios eles estavam fazendo! Não era certo incomodar os mortos!
— Aqui tem um pouco de poeira e uma alavanca escondida...
A porta da câmara mortuária rangeu baixo. Mandred deu um salto. Mesmo que fossem só poucos passos, chegou tarde demais. A pedra redonda rolara para a frente da entrada. Cego de pânico, deixou o lampião cair, despedaçando o vidro no chão de pedra. O guerreiro tinha puxado o machado. Sabia que os mortos se levantariam a qualquer momento. Andando lentamente de lado, para se proteger, ele recuou. Os elfos não fizeram nada. Em sua arrogância, deviam achá-lo louco. Era óbvio que não ousavam chegar perto do seu machado. Será que eles não entendiam o perigo que estavam correndo?
Mandred continuou recuando até ficar com as costas perto da parede que não tinha nichos, onde metade dele estava segura contra surpresas!
Nuramon ergueu uma mão com cuidado:
— Mandred...