O jarl deu mais um passo para trás. Ao redor dele tudo desapareceu, como uma imagem some da água quando alguém joga uma pedra. A luz dos lampiões oscilou. Algo quebrou com um rangido sob seus pés. Teve a impressão de que a sala ficou maior. Por que suas costas não alcançavam finalmente a parede? Os elfos estavam embasbacados como bezerros.
Mandred olhou rápido para o chão. Viu muitos ossos... e ouro! Pulseiras, anéis e folhas finas de enfeite como as que se costuravam em trajes de festa. Mas agora há pouco não havia ossos nem ouro ali! O que estava acontecendo?
De repente o chão tremeu e algo subiu até ele. Mandred virou-se e viu Balbar, o deus da cidade. Era gigantesco, com dez pés ou mais de altura. Tinha a barba cortada reta e o rosto em trejeito de fúria — não havia dúvidas, era mesmo o deus da cidade! E era todo de pedra.
Mandred ergueu o machado. Nada mais fazia sentido ao redor dele. Agora estava em um túnel alto, fracamente iluminado por pedras de barin.
A mão direita de Balbar avançou. Mandred foi lançado para cima. Desamparado como uma criança, agitava braços e pernas. A mão esquerda de Balbar fechou-se ao redor do pescoço dele, e com a direita o agarrou pelos pés. O deus da cidade curvou-o como uma vara de vime. O jarl gritava! Sentia como se seus músculos estivessem sendo arrancados dos ossos. Fazia toda a força contra aquele aperto de pedra. Balbar queria quebrar sua coluna, simplesmente partindo-o como um galho. O colosso de pedra vencia a sua resistência sem esforço.
— Liuvar!
O deus ficou paralisado no meio do movimento.
Farodin ainda gritou algo que Mandred não entendeu. Então, o deus de pedra o pôs no chão. Gemendo, arrastou-se até a parede mais próxima. Ao seu redor havia ossos despedaçados. Os outros intrusos tiveram menos sorte que ele.
— Um gallabaal. Poucos filhos de albos já viram uma criatura como essa. Um guarda de pedra. Só com uma magia das grandes é possível criar um ser desses.
Mandred esfregava as costas doloridas. Ficaria feliz se não tivesse precisado dar de cara com esse monstro.
— Pelos peitos de Naida, como é que você conseguiu detê-lo?
— Não tem segredo. Bastou dizer em élfico a palavra que significa paz. Você está bem?
“Que pergunta imbecil”, pensou Mandred. Levantou-se com um gemido profundo. Sentia como se uma manada inteira de cavalos tivesse pisoteado em cima dele.
— Estou fabuloso. — E encarando desconfiado o gigante de pedra: — E ele agora vai dar sossego?
— Ele só vai acordar de novo se alguém estranho entrar.
Mandred cuspiu nos pés da estátua.
— Seu pedaço de pedra estúpido. Foi sorte sua me pegar de surpresa. — O jarl bateu o lado plano do machado na mão aberta. — Eu o teria transformado em paralelepípedos.
O gigante voltou à vida novamente.
— Liuvar! — gritou Farodin de novo. — Liuvar.
Nuramon estava impressionado.
— Que feitiço magistral. Uma ilusão perfeita! É preciso tocar a parede traseira da tumba para perceber, de tão real que ela parece. É um feitiço como o que os elfos de Valemas fizeram para disfarçar a passagem para o nada. Eles realmente... — Nuramon ficou imóvel e examinou o gigante de pedra com um olhar curioso. — Um gallabaal. Sempre achei que os guardas de pedra eram personagens de lendas. — Sem dar-lhe a honra de nem mais um olhar, apontou para o corredor. — Lá embaixo deve haver uma grande estrela alba. Estou sentindo o seu poder.
O caminho que tomaram os levou através de um túnel alto, no fim do qual brilhava uma luz fraca. Era evidente que essas salas não tinham sido construídas por humanos. Não havia juntas visíveis na alvenaria das paredes. O único ornamento nelas era uma estampa de flores, cujas cores brilhavam tão claras como se os artistas tivessem acabado de terminar seu trabalho.
Por fim, adentraram uma sala ampla e circular, coberta por uma cúpula. Pedras de barin de luz suave haviam sido incrustadas nas paredes e preenchiam a sala com uma luz uniforme, que não formava sombras. No chão estava embutido um mosaico de fundo branco, que mostrava um círculo negro com duas linhas sinuosas no centro. Mandred sorriu para si mesmo em silêncio. Ele não precisava anunciar o seu triunfo por aí. Havia sinais que mostravam o caminho até ali! Ele não tinha se enganado. E ele sabia que os dois elfos também compreendiam naquele momento que ele havia entendido a essência do labirinto melhor que eles.
— Seis trilhas cruzam-se aqui — disse Nuramon objetivamente. — É quase uma estrela alba grande. Tenho certeza de que este caminho leva até a biblioteca. — O elfo pisou no centro do círculo, entre as linhas sinuosas. Ajoelhou-se e tocou o chão com a palma da mão. Concentrado, fechou os olhos e ficou imóvel.
Para Mandred, uma eternidade pareceu passar até que o elfo levantasse os olhos novamente. O suor brilhava na testa dele.
— Há duas linhas de força especiais. Eu não sei qual delas devo escolher para abrir o portal. Não entendo. De alguma forma este portal é... diferente. A sexta linha... Para mim parece que ela é mais nova. Como se alguém tivesse traçado uma nova linha de força.
— Então a mais antiga deve ser aquela que abre o portal — disse Farodin com calma. — O que é tão difícil?
— É que... — Nuramon passou a língua sobre os lábios. — Aqui há alguma coisa que o Carvalho dos Faunos não nos contou. Essa nova linha parece influenciar a estrutura antiga da estrela dos albos. Os padrões estão alterados... ou, melhor dizendo, eles estão confusos, em outra harmonia.
Mandred não entendia do que os dois estavam falando. Eles só precisavam executar!
Agora os dois elfos estavam agachados no círculo, mantendo as mãos no chão. Pareciam estar medindo a pulsação de algo invisível. Ou talvez o mundo tivesse pulso? Mandred sacudiu a cabeça. Que pensamento absurdo! Estava começando a pensar como esses dois elfos malucos. Talvez bastasse fazer um buraco no chão com o machado para conseguirem descer para o Mundo Partido.
Um portal brilhante como ouro polido se abriu. Parecia uma fatia fina de luz. Ficava no meio do círculo e ia do chão até um pouco abaixo da cúpula do teto. Mandred deu alguns passos à volta do feixe. Pôde observa que a fatia de luz era tão fina como um fio de cabelo.
— Vamos — disse Farodin, parecendo tenso.
Mas antes que Mandred pudesse perguntar o que o preocupava, ele desapareceu na luz dourada.
— Há alguma coisa de errado? — perguntou a Nuramon.
— É essa nova linha de força. Ela dá apoio ao feitiço do portal, mas também o altera sem que possamos estimar se o fortalece ou manipula. Talvez seja melhor você ficar aqui. Para ser sincero, não temos certeza se este portal leva mesmo até a biblioteca.
Mandred lembrou dos guardas do templo e das punições que Iskendria impunha aos rebeldes. Preferia mil vezes desaparecer em um mundo desconhecido, do qual talvez não houvesse mais volta, a ser acorrentado no mercado de cavalos com braços e pernas destroçados para que cães vadios o comessem.
— Não é do meu feitio deixar os amigos na mão — disse de forma patética.
Soava melhor do que falar sobre os cachorros.
Nuramon parecia constrangido.
— Às vezes tenho a sensação de que não somos dignos de cavalgar com você — disse ele em voz baixa.
Então estendeu a mão na direção de Mandred, como daquela vez na caverna de gelo.
O jarl sentiu-se desconfortável por dar a mãozinha a um homem. Mas ele sabia que para Nuramon isso significava muito. Então atravessaram o portal lado a lado.
Mandred sentiu um golpe gelado de ar no rosto. O portal abriu-se sobre um abismo. Ele encolheu-se para trás e agarrou a mão de Nuramon mais forte. Ao lado deles, Farodin pairava no nada.
— Vidro — disse o elfo calmamente. — Estamos sobre uma laje grossa de vidro.
Mandred soltou-se de Nuramon. Mordeu os lábios irritado. É claro! Conseguia sentir que estava sobre alguma coisa. Mas não se via nada. Como era possível fabricar vidro de forma tão engenhosa a ponto de ficar invisível e aguentar o peso de um humano e dois elfos?