Estavam de pé sobre um poço amplo e circular, cujo fundo sumia na luz fraca. Mandred estimava que descesse pelo menos uns cinquenta metros nas profundezas. Olhar para o abismo sob seus pés tinha algo de apavorante. Mandred mal conseguia suportar, estava quase se agarrando novamente a Nuramon. Quem teria inventado algo assim tão maluco? Ficar em pé sobre um abismo como se estivesse flutuando!
Tudo aquilo lembrava a Mandred o interior de uma torre enorme e redonda. O construtor lunático só se esquecera de construir os andares intermediários. Junto à parede interna da torre, uma rampa descia suavemente em espiral para as profundezas. E parecia que as paredes iam ficando mais próximas conforme desciam. Mandred envergonhava-se do seu medo do precipício. Avançou sobre a superfície de vidro, com as pernas duras e o olhar fixo na parede. “Não posso olhar para o abismo”, pensava o tempo todo, torcendo para que seus companheiros não percebessem nada. Suspirou aliviado ao chegar ao acesso para a rampa, onde o chão sob seus pés já não era mais transparente. Apoiou-se na parede e olhou para a cúpula do teto, que se estendia sobre suas cabeças. Ela mostrava um círculo negro com duas linhas sinuosas e douradas. Desta vez, Mandred não tinha nenhuma sensação de triunfo.
Em silêncio, caminhou com os dois elfos rampa abaixo. O caminho era assustadoramente estreito. Mandred mantinha-se bem perto da parede. Não havia sequer um corrimão! Será possível que os filhos dos albos não conheciam o medo de olhar para as profundezas? Aquele desejo perturbador de simplesmente se deixar cair no abismo, como se não fosse possível resistir às tentações de uma voz que chama lá de baixo?
Mandred contemplou os quadros que decoravam a parede à sua esquerda para não precisar pensar no abismo. Exibiam figuras circundadas por uma luz brilhante, que caminhavam por florestas e viajavam em navios delgados sobre mares revoltos. Os quadros narravam uma história. Olhá-los dava paz aos pensamentos conturbados de Mandred. Então a harmonia dos quadros foi perturbada. Outras criaturas surgiram — entes que se pareciam com humanos, mas que tinham cabeças de animais.
De repente, ambos os elfos pararam como se tivessem ficado presos ao chão. Os artistas desconhecidos tinham pintado o devanthar! Ele fora abatido por uma silhueta de luz, que mantinha um pé sobre seu pescoço. A figura medonha era tão real que parecia que os artistas a tinham visto diante de si. Até o tom da cor dos olhos era preciso. Mas a silhueta de luz já não tinha mais rosto. Um pedaço de reboco havia se soltado. Até então, Mandred não vira nenhuma avaria no beiral da parede, em lugar nenhum. O tempo passara para as obras de arte sem deixar vestígios.
O jarl sentiu arrepiar os cabelos finos de sua nuca. Havia alguma coisa de errado! Por que não encontravam ninguém? Se essa era a biblioteca, por que ali não havia livros? E por que o único dano em todo o beiral da parede tinha apagado o rosto daquele guerreiro que um dia venceu a besta? Era realmente por acaso?
Farodin estava com a mão direita sobre o punho da espada. Olhava para baixo no caminho em espiral.
— Lá embaixo há um portal — disse o elfo em voz baixa. — Nós precisamos nos manter o mais quietos possível. — Olhou para Mandred: — Quem sabe o que nos espera aqui...
— Mas nós estamos na biblioteca que vocês estavam procurando?
Farodin deu de ombros e prosseguiu.
— Em todo caso, não estamos mais no seu mundo, filho de humanos.
Tão silenciosamente quanto podia, Mandred seguiu os dois guerreiros elfos. Levou um bom tempo até chegarem ao portal. Os quadros nas paredes agora só mostravam lutas sangrentas entre as silhuetas de luz e os homens e mulheres com cabeças de animais. Não havia mais nenhum quadro que exibisse um devanthar. Seja o que for que aconteceu com ele, nas batalhas posteriores, aparentemente já não tinha mais importância.
O portal em que terminava o caminho em espiral tinha mais de três metros de altura. Do outro lado dele havia um corredor longo e estreito, cujas paredes eram revestidas de granito polido. O teto do corredor devia ter mais de quinze metros de altura. Nele estavam colocados degraus estranhos, como se fossem para alguém escalar ao longo do teto. Grandes pedras de barin brilhavam em intervalos regulares entre os degraus. As paredes, por sua vez, eram completamente cobertas de colunas de pequenos caracteres. Quem conseguiria ler algo assim? Mandred levantou a cabeça. E como alguém poderia ler o que estava bem acima nas paredes?
Um pouco adiante, havia um assento estofado em couro, que pendia de quatro correntes de ferro. A forma como estava pendurado lembrava a Mandred o berço de bebê que ele construíra havia tanto tempo. Ficava pendurado por quatro fortes cordas, presas à viga intermediária da casa comunal. O jarl sentiu um nó na garganta. Isso era passado, oras! Ficar lembrando isso era tolice.
Já tinham percorrido cerca de vinte passos no corredor quando ele se bifurcou para um outro corredor à esquerda, alto e com as paredes escritas. O corredor principal perdeu-se na distância. Em intervalos regulares, mais assentos pendiam do teto.
Os elfos decidiram continuar seguindo em frente. Para Mandred, tanto fazia qual caminho eles tomavam, desde que não levasse de novo para cima de um abismo.
Já tinham passado três outros corredores laterais quando Farodin ergueu a mão num gesto de alerta. O elfo puxou a espada e espremeu-se bem perto da parede. Um pouco mais adiante havia mais uma bifurcação. Mandred levantou o machado diante do peito. Então ouviu. Batidas de cascos! Imediatamente lembrou do quadro do devanthar. A besta tinha cascos fendidos em vez de pés.
Mandred sentiu seus dedos ficarem úmidos. A cada instante, contava que fosse ouvir a voz zombeteira do devanthar em seus pensamentos. Em ver disso, o que soou foi um tilintar de correntes. O bater de cascos cessou. Algo chiava baixo. Então, alguém murmurou algo para si mesmo e, por fim, suspirou fundo.
Mandred já não conseguia mais suportar a tensão. Com um grito selvagem de guerra, dobrou a esquina correndo e... chocou-se contra um centauro pendurado no teto. Depois do susto, instintivamente o centauro desferiu um grande coice, acertando em cheio o peito de Mandred, jogando-o ao chão. Seus companheiros já tinham vindo correndo em seu socorro e agora assistiam perplexos, de olhos arregalados, à cena. Nuramon explodiu numa gargalhada sonora. Até o sério Farodin sorriu.
Diante deles, um centauro branco pendia do teto pendurado por duas cintas de sustentação, presas a correntes. Com a ajuda de uma manivela e uma roldana, ele conseguia puxar-se para cima e para baixo junto à parede.
— Vossa conduta não mostra muita educação, senhores!
O centauro falava daílico. Mandred não teve dificuldades para entendê-lo, mesmo que as palavras soassem afetadas.
— Nos círculos sociais de onde eu venho, o costume é se desculpar quando, num arrebatamento, acertamos com a cabeça as... — o centauro tossiu embaraçado — as partes posteriores de alguém. Mas como vocês aparentemente não conhecem as regras mais simples das boas maneiras, vou dar início e me apresentar, apesar do vosso mau comportamento. Meu nome é Chiron de Alkardien, antigo professor do rei de Tanthalia.
Os elfos haviam recuperado a calma, e agora também se apresentavam.
O centauro acionou a alavanca da roldana que produzia aquele chiado, puxando-se para baixo. Desceu com destreza das cintas de sustentação. Um homem-cavalo como Mandred nunca tinha visto. Uma faixa estreita de seda vermelha em sua testa segurava os longos cabelos brancos. Rugas profundas sulcavam seu rosto e uma enorme barba branca descia em ondas até seu peito. Sua pele era estranhamente clara. Mas o mais estranho eram seus olhos. Tinham a cor de sangue recém-derramado.
— Desculpe-me — soltou Mandred finalmente.
O centauro carregava uma aljava com vários pergaminhos enfiados. No cinto ele tinha penas e um tinteiro. Estava claramente desarmado e por isso parecia inofensivo. Por outro lado, tinha esses olhos vermelhos, pensou Mandred. Em criaturas de olhos vermelhos jamais se podia confiar assim tão fácil!