— Mandred Torgridson, jarl de Firnstayn — apresentou-se.
O centauro baixou a cabeça, e deslizou o olhar de um para o outro.
— Vocês são novos aqui, não é? E imagino que não chegaram aqui com a ajuda de Sem-la.
Mandred olhou para seus companheiros. Estava claro que os dois estavam entendendo tanto quanto ele do que o homem-cavalo estava falando.
Chiron soltou um suspiro que lembrou um pouco uma bufada.
— Pois bem. Então, antes de mais nada, eu os levarei ao mestre Gengalos. Ele é o guardião do saber responsável por esta parte da biblioteca. — E virando-se: — Vocês fariam a gentileza de me seguir? — Ele tossiu levemente. — Será que algum dos respeitáveis elfos talvez poderia esclarecer a esse humano que não é educado olhar fixamente para o traseiro de um centauro?
Mas que tipo convencido e presunçoso, pensou Mandred. Estava prestes a responder na mesma moeda ao sujeito quando um olhar repreendedor de Farodin avisou-o para ficar calado. Mandred se recompôs e seguiu os outros a uma certa distância. Mais uma palavra desse centauro e apresentaria aquela bunda de cavalo ao fio de seu machado!
Chiron conduziu-os do labirinto de paredes de granito até uma sala espaçosa. Ali havia estantes de madeira dispostas em fileiras apertadas, nas quais estavam deitadas, bem próximas umas das outras, milhares de tábuas de barro redondas. Mandred olhou algumas delas distraído e balançou a cabeça. Parecia que galinhas tinham dado um passeio por cima delas. Quem é que conseguia ler algo assim? Só de olhar rápido ele já ficava com dor de cabeça!
— Digam ao seu humano que ele deve pôr as tábuas de volta imediatamente! — rosnou o centauro para os dois elfos.
Teimoso, Mandred pegou mais uma tábua de barro na mão.
— Tirem as tábuas desse idiota! — ralhou Chiron. — Elas são discos de sonhos do Tildanas afundado. Elas anotam as lembranças daqueles que as pegam na mão e as observam. Cada lembrança que uma das tábuas registra é apagada para sempre da memória. Deixem esse imbecil imaturo olhar algumas delas e ele não vai mais saber nem o próprio nome.
— A hora da historinha já terminou? Com histórias como essa você pode assustar crianças, olhos vermelhos, mas não a mim.
A cauda do centauro estremeceu ofendida.
— Se o humano sabe de tudo...
Sem olhar novamente para Mandred, ele seguiu adiante.
— É melhor você devolver os discos — aconselhou Nuramon. — E se ele tiver razão? Imagine só, de repente você poderia não se lembrar mais de Alfadas ou de Freya.
— Esse bucéfalo não me dá medo — retrucou Mandred, teimoso.
Então empurrou as tábuas de volta para a estante. Agora elas pareciam ter mais caracteres rabiscados. Mandred engoliu em seco. Será que o bunda de cavalo tinha dito a verdade? Ele não deixaria transparecer nada!
— E por que eu ficaria mais tempo olhando essas coisas que eu nem consigo ler? — retorquiu com uma voz que não chegou nem perto de soar tão relaxada como ele queria. — Não me entenda mal, Nuramon. Mas eu não acredito em nem uma palavra desse pileca de olhos vermelhos.
— Claro — disse Nuramon, sorrindo de forma contida.
Ambos se apressaram para alcançar Chiron e Farodin. Cheio de entusiasmo, o centauro contava sobre a biblioteca. Todo o conhecimento dos filhos dos albos estaria reunido ali.
— Temos até dois copistas que trabalham na biblioteca no porto de Iskendria. Normalmente, o que os humanos escrevem não é digno de pergaminhos, mas em prol da integridade, aqui reunimos também esses escritos. Eles compõem, contudo, só uma minúscula fração do nosso acervo.
Mandred odiava aquele sujeitinho petulante.
— Vocês também têm os dezessete cânticos de Luth aqui? — perguntou ele em voz alta.
— Se eles são importantes, alguém certamente deu-se ao trabalho de escrevê-los. Mestre Gengalos com certeza sabe. Eu me interesso por formas perfeitas da épica, não por versos recitados por bardos gaguejantes em átrios fedorentos.
Chiron os levou até uma segunda rampa, que descia nas profundezas em largas espirais. Mandred imaginou-se derrubando o centauro presunçoso abismo abaixo. Tanto fazia o que ele dizia — se não tivessem os dezessete cânticos de Luth, então tudo ali era uma porcaria. Nas terras do fiorde toda criança conhecia essas canções!
Chiron continuava contando sobre a biblioteca. Dizia haver ali mais de cem visitantes. Mas, na verdade, Mandred ainda não vira ninguém além do centauro durante o longo caminho.
O homem-cavalo continuou a conduzi-los por corredores e salas. Com o tempo, até Mandred sentiu que a quantidade de conhecimento que devia estar guardada ali devia ser mesmo intimidadora. Ele não conseguia compreender com o que era possível preencher tantos pergaminhos, livros, tábuas de barro e paredes escritas. Será que no fim não era a mesma coisa o que estava escrito em todos os lugares, só que com outras palavras? Será que com esses livros acontecia a mesma coisa que com as mulheres, que se encontravam para se banhar no riacho enquanto falavam sempre sobre as mesmas trivialidades sem fim, sem que ninguém se cansasse disso?
Se realmente tudo que se encontrava nesta biblioteca era importante e digno de saber, então um humano deveria se desesperar. Mesmo dez vidas humanas não seriam suficientes para ler todos os escritos dali. Talvez nem cem delas. Então, os humanos jamais poderiam entender o mundo, porque em sua multiplicidade ele fugia a qualquer explicação. Tal pensamento tinha algo de libertador. Visto dessa forma, tanto fazia se uma pessoa já lera um livro, centenas de livros ou milhares deles — ou até mesmo nenhum, como Mandred. Ela não entenderia melhor o mundo de qualquer maneira.
Devagar foram chegando às áreas da biblioteca onde também se viam visitantes: duendes, alguns elfos, um fauno. Mandred reparou numa criatura estranha que tinha corpo de touro, tronco de humano e, além disso, asas nos flancos. Então viu um elfo que tentava animosamente convencer um unicórnio e ainda um gnomo galgando uma estante com uma cesta cheia de livros nas costas. Os outros visitantes não reparavam neles. Dois elfos, um humano e um centauro — ali isso não parecia ser uma visão espantosa.
Finalmente Chiron os levou para dentro de uma sala com abóbadas cruzadas coloridas, onde havia alguns púlpitos. Ali estava parado somente um único leitor, uma figura magra que vestia um hábito cor de areia. Com o capuz escondendo-lhe o rosto, lia um livro de páginas cor de púrpura, escritas com tinta dourada. Estranho era que ao lado do púlpito havia algumas cestinhas com folhas murchas. Um odor estranho pairava no ar, um pouco aflitivo, mas ao mesmo tempo familiar. Era de poeira e pergaminhos. Até o cheiro das folhas Mandred conseguiu reconhecer. Mas suspeitava que ali ainda havia algo mais...
Chiron pigarreou baixo.
— Mestre Gengalos? Por favor, perdoe-me por incomodá-lo, mas três visitantes chegaram à biblioteca pelo portal sobre a galeria dos albos. Eles estavam perdidos nos corredores de granito. E aquele ali tentou me massacrar com o machado. — O centauro lançou um olhar de reprovação para Mandred. — Eu pensei que seria melhor trazê-los a você, mestre, antes que pudessem causar danos reais.
A silhueta que vestia o hábito ergueu a cabeça, mas o capuz afundado manteve seu rosto nas sombras. Por um instante, Mandred ficou tentado a puxar o capuz daquele mestre com um movimento rápido. Estava acostumado a ver com quem falava.
— Você fez bem, Chiron, agradeço por isso. — A voz de Gengalos soava calorosa e amigável, contrastando drasticamente com o ar inacessível que o circundava. — Vou poupá-lo da carga da preocupação com os novos.
Chiron inclinou rapidamente a cabeça e então se retirou.
— Nós queríamos... — perguntou Farodin, mas Gengalos cortou sua frase com um gesto rápido.
— “Nós queríamos” aqui não existe! Quem quer que venha até a biblioteca, precisa primeiro servi-la antes de receber de presente algo do seu conhecimento.