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— Desculpe — Nuramon assumiu um tom diplomático. Também curvou-se diante do guardião do saber. — Nós somos...

— Isso não me interessa — interrompeu Gengalos. — Qualquer um que vem até aqui se submete às regras da biblioteca. Sujeitem-se a elas ou vão embora! — Ele fez uma curta pausa para enfatizar sua resposta dura. — Se quiserem ficar, então primeiro precisam prestar os seus serviços. — E, apontando para as cestas ao lado do púlpito: — Aqueles são poemas das fadas das flores, copiados em folhas de carvalho e em cascas de bétula. Já que, mesmo depois de séculos, nós ainda não encontramos nenhuma forma satisfatória de conservar as folhas, os poemas precisam ser copiados. No entanto, ao fazer isso é preciso levar em consideração que a escrita e as nervuras das folhas formam uma harmonia que precisa ser compreendida, uma vez que os níveis mais profundos de significado do poema não devem se perder.

Mandred lembrou-se das fadas, criaturas pequenas e travessas que viu nas visitas à Terra dos Albos. Ele não conseguia imaginar qualquer coisa de valor que aquelas tagarelas pudessem ter composto.

Gengalos virou a cabeça na direção dele.

— As aparências enganam, Mandred Torgridson. Ninguém consegue como elas colocar sentimentos ternos em palavras.

O jarl engoliu em seco.

— Você... você vê dentro da minha cabeça?

— Eu preciso saber o que move os visitantes que vêm até aqui. O conhecimento é precioso, Mandred Torgridson. Não se pode entregá-lo a qualquer um.

— Qual é a nossa tarefa? — perguntou Farodin.

— Você e Nuramon vão pegar uma cesta e transcrever os poemas em pergaminhos. Se eu ficar satisfeito com o trabalho, vou ajudá-los na sua busca. Nesta biblioteca encontram-se as respostas para quase todas as perguntas imagináveis, desde que se saiba procurar no lugar certo.

— E quanto a mim? — perguntou Mandred, embaraçado. — Como posso obter o direito de estar aqui?

— Você vai contar a sua vida para um escrivão. Em todas as minúcias. Tenho a impressão de que é uma história que merece ser escrita.

O jarl olhou para o chão, constrangido.

— Então... A minha vida merece ser escrita?

Tinha uma sensação ruim, quase como se alguém quisesse arrancar alguma coisa dele.

— Você não gostaria de agarrar a imortalidade pela cauda, Mandred? Sua história ainda será lida mesmo bem depois de você virar pó. Você não deveria esconder o seu ouro, Mandred. Quem alguma vez já ouviu que dois elfos como Farodin e Nuramon tenham escolhido um humano como você para ser seu companheiro?

Mandred concordou hesitante. Ainda tinha a sensação de entregar algo precioso se contasse sobre a sua vida. Mas quem sabe fosse só medo supersticioso? Ele não podia se colocar no caminho de seus companheiros. Eles já tinham encarado muitas coisas para chegar até ali.

— Negócio fechado.

— Excelente, filho de humanos! Eu agradeço pelo presente que você dá à biblioteca.

As palavras de Gengalos causaram uma sensação boa em Mandred. Como a cachaça que esquentava por dentro em uma noite de inverno.

Agora vou mostrar a vocês os alojamentos. A biblioteca é grande como uma pequena cidade. Uma cidade do saber, construída com livros! Há três cozinhas abertas noite e dia e dois grandes refeitórios. Nós temos até termas em uma das alas distantes. — E, voltando-se para Mandred: — E nós temos uma adega de vinhos muito bem abastecida. Alguns dos guardiões do conhecimento, dos quais faço parte, não veem o ascetismo tão bem assim. Como a mente pode ser livre se mantemos nosso corpo preso por grilhões? Então oferecemos o melhor a cada um dos que estudam conosco.

Na pista de Yulivee

Nuramon ainda não conseguia acreditar que o dschinn de Valemas dissera mesmo a verdade. Mesmo que a saudade de Noroelle o tivesse feito seguir prontamente aquela pista, no fundo ele sempre teve dúvidas se o espírito merecia sua confiança. Mas agora ia ficando claro que tinha feito bem em contar a seus companheiros sobre Iskendria.

Já fazia nove dias que estavam ali. Destes, Farodin e ele haviam gasto cinco só para copiar os poemas das fadas das flores. Desde que começaram, procuravam anotações sobre as barreiras mágicas. Era empolgante ficar remexendo no saber infinito daquelas salas. Nem mesmo Mandred ficava entediado nelas. Ele explorava a biblioteca e saboreava os pratos fartos que lhes serviam nos alojamentos. E a adega de vinhos logo se tornou o seu lugar predileto. De todo o conhecimento reunido, o que interessava a ele eram somente as lendas aegílicas e angnósicas. Para a admiração de Nuramon, Mandred ouviu um centauro recitar os contos em daílico. De fato, era uma língua fácil de aprender em comparação ao élfico, mas Mandred a aprendera, com a ajuda dos centauros da corte da rainha, em apenas um inverno — um êxito para um humano. O jarl havia gostado tanto das lendas de Eras, o Pândrido, e Nessos, o Telaido, que Nuramon o chamava de Mandred, o Tórgrido, de brincadeira, e previa um futuro grandioso para a linhagem dos mândridos.

Farodin se recolhera em uma sala de estudos. Os guardiões do conhecimento destinaram-lhe um ajudante de nome Elelalem, que todos chamavam simplesmente de Elem. Farodin mandava o pobre coitado para todos os cantos da biblioteca para buscar escritos. Como o jovem conhecia todas as línguas necessárias na biblioteca, muitas vezes servia de tradutor. Por um lado, o companheiro queria ampliar seus conhecimentos sobre os feitiços dos portais. Por outro, procurava histórias sobre as barreiras e queria descobrir mais sobre os grãos de areia.

Nuramon continuava achando que os grãos de areia não podiam ser a solução. Era verdade que Farodin já conseguira reunir algumas dúzias deles, mas tinha de haver outra possibilidade. Em vez de procurar naquele lugar do saber por trilhas albas alternativas, Nuramon buscava novas formas. Acabara de voltar, tinha ido apanhar os cavalos na hospedaria os havia entregue aos cuidados de uma elfa que vivia anonimamente entre os humanos. Na cidade diziam que era viúva de um comerciante de posses e, por isso, uma das mulheres mais ricas de Iskendria. Para não ser reconhecida pelos humanos, escondia suas orelhas e rosto sob um véu e se revelava somente aos filhos dos albos. Seu nome era Sem-la. Nuramon perguntou-se como pretendia esconder a longo prazo o fato de que não envelhecia. O véu podia ajudá-la ao longo de uma vida humana. Mas, e depois? Então viria uma sobrinha de uma cidade distante para herdar as suas posses?

Da propriedade de Sem-la um largo corredor subterrâneo conduzia a um portal, pelo qual se chegava à biblioteca. Em lugar nenhum Nuramon ouvira falar de uma proximidade como essa entre os filhos dos albos e os humanos. Sem-la contou a ele que tinha contatos em todo o mundo. Fazia negócios tanto com humanos quanto com outros filhos de albos e suas colônias. Ao ouvir isso, ficou claro pela primeira vez para Nuramon que o mundo dos humanos e o Mundo Partido não eram exílios para onde os filhos de albos iam para ser independentes de Emerelle. Ali se vivia bem, mesmo que as refeições que Sem-la oferecia fossem de alimentos humanos e não chegassem perto daquelas da Terra dos Albos. Mas quem chegava até ali estava habituado ao mundo dos homens.

Por uma escada ampla, Nuramon finalmente chegou ao lugar aonde Gengalos lhe enviara. Era uma sala estreita, muito, muito alta. Tanto à esquerda quanto à direita havia estantes onde descansavam grossos tomos. Nuramon ficou um pouco admirado com isso, pois na Terra dos Albos raramente se confiava o conhecimento aos livros. Os pais ensinavam aos filhos o que precisavam aprender e os sábios contavam o mais significativo. Quando alguém tinha uma pergunta, recorria a alguém que podia respondê-la. Nuramon perguntou-se quantos milhares de animais tiveram que emprestar sua pele para que fossem feitos todos os pergaminhos daqueles volumes.

De um nicho saiu um velho gnomo.

— Você tem vertigem? — perguntou ele com sua voz grasnante.