— Não, não tenho — disse Nuramon.
— Ótimo, então eu não preciso escalar lá para o alto. Já não sou mais tão jovem. — O velho segurava as costas. — Uma vida inteira nesta sala! De fato, isso causa dor, mas veja só como tudo é magnífico aqui! — disse, apontando para cima.
Junto a cada uma das estantes havia pranchas de madeira estreitas que serviam de passagem. Bem no alto, Nuramon viu um vulto. Vestia uma capa longa e parecia estar suspenso ao lado da estante. Entre os móveis, havia grandes nichos na parede; aparentemente era possível entrar e ficar ali para ler. Pedras de barin habilmente posicionadas emprestavam um intenso brilho de fogo à sala inteira.
— O que o traz aqui? — perguntou o velho.
— Gengalos me mandou. Aqui deve haver um livro sobre a elfa Yulivee.
— Ah, mestre Gengalos! Ele o mandou para a sala certa. Aqui não só temos anotações sobre Yulivee, mas também uma coleção dos escritos de Yulivee. Na verdade, eram só contos avulsos, mas no fim os encadernamos em um livro. Talvez isso interesse.
Nuramon mal podia acreditar na sua sorte.
— Com certeza. Onde posso encontrá-lo?
— Você segue aqui até a 23ª estante e então sobe até a prateleira de número 154. Lá você vai dar de cara com os contos de Yulivee. — O gnomo foi até as paredes de estantes. — Suba pelas escadas até ali. Nas pranchas você pode se mexer bem, há tábuas de assento que você pode puxar para se acomodar sobre elas.
Nuramon concordou com a cabeça. A tábua da estante que procurava devia estar mais de cem pés acima dele. Não era uma altura que lhe desse medo. Olhou mais uma vez para a silhueta que vira lá em cima.
— Aquele é mestre Reilif — explicou o gnomo.
— Um guardião do saber? — perguntou Nuramon em voz baixa.
— Sim, ele sempre vem até aqui e insiste em subir ele mesmo até lá. Você precisa saber que eu estou aqui para servir aos ávidos por conhecimento e tenho a obrigação de apanhar qualquer livro que quiserem.
Nuramon sorriu para o gnomo:
— Mas como você mesmo disse: como eu não tenho vertigem, você não precisa fazer esse esforço.
— Obrigado, elfo. E estou contente que você veio até mim. Dizem que na biblioteca há um filho de humanos que está quebrando barreiras. Um cara grande, que só bebe muito, come muito e faz sujeira.
— Ele se chama Mandred, e é um dos meus companheiros.
O velho ficou vermelho.
— Como você se chama? — perguntou Nuramon, tirando seu cinto de armas sob o olhar medroso do velho.
O gnomo claramente temia que ele puxasse a espada.
— Builax — respondeu o velho com voz trêmula.
— Você não precisa se preocupar. Eu conheço meu companheiro muito bem. No momento, a sua avaliação dele está correta. Meu nome é Nuramon. Gostaria de confiar minha espada a você — disse, estendendo a arma a Builax.
O medo desapareceu do rosto do gnomo tão rápido como surgira. Ele depositou a espada em um nicho, junto a seus utensílios de escrita e outros objetos, e então conduziu Nuramon ao longo da parede de livros. Detiveram-se diante da 23ª estante.
— O livro que você procura é o oitavo da fileira.
Nuramon começou sua subida pelos degraus das escadas. Ficou inquieto quando alcançou a prateleira 154. Ali devia estar o livro com os escritos de Yulivee — a chave para Noroelle. Pisou com cuidado na prancha, que oferecia um bom apoio para seus pés e era larga o bastante para se andar sobre ela. Nuramon percorreu com as mãos as lombadas dos livros na prateleira. Puxou o oitavo livro. Era encadernado em couro marrom-claro e, em sua simplicidade, mal se destacava entre os demais. Nem na capa, nem na lombada havia caracteres ou enfeites. Quando abriu o volume, percebeu que também não haviam ornamentos ou páginas decoradas. O título sequer era realçado. Em vez disso, ocupava quatro linhas imediatamente seguidas pelo texto. Nuramon não conteve um sorriso. A aparência do livro não denunciava nada de valioso. Haviam abdicado de tudo que lhe poderia dar qualquer brilho especial. Mas, para Nuramon, ele era de valor inestimável. Leu o título com atenção:
Os contos de Yulivee, que partiu da Terra dos Albos, atravessou o mundo dos homens e fundou no Mundo Partido a cidade de Valemas, ditados por ela mesma na presença do guardião do saber e registrados por Fjeel, o Ligeiro.
Eram a narrativa de uma elfa que foi embora espontaneamente da Terra dos Albos com os seus. Como Nuramon, ela também estivera em busca de algo e também teve de decifrar a magia das estrelas dos albos para atingir o seu objetivo. Nuramon esperava encarecidamente que, com o livro de Yulivee, estivesse iniciando um caminho que lhe desse mais esperanças que a trilha arenosa de Farodin.
Os contos de Yulivee
Vocês me perguntaram onde eu aprendi a minha magia e eu responderei. Saibam que na Terra dos Albos eu já dominava as práticas do encanto. Eu conhecia o feitiço da luz, da vida e da simulação. E todos esses me foram de grande uso no novo oásis de Valemas. Nós encontramos no Mundo Partido uma terra desértica como no nosso lugar de origem. Ali eu criei um tecido de céu, um lago, uma ilusão e muito mais.
Quando deixei a Terra dos Albos, conduzi meus companheiros por um portal fixo. Naquele tempo, sabia pouco sobre as trilhas e as estrelas dos albos. A viagem é o maior mestre e eu fui uma aluna atenta. Ainda que o mundo dos humanos seja tão desconhecido, muitos filhos de albos vivem em lugares escondidos — eremitas que guardam o velho saber. E nós encontramos outras comunidades que haviam se mudado da Terra dos Albos. Com eles fizemos uma troca: nós os ensinamos o que sabíamos e eles nos instruíam com o seu conhecimento.
Em nenhum lugar aprendi tanto como com o oráculo Dareen. Ele é o único oráculo que já deixou a Terra dos Albos para ir ao mundo dos humanos. Não vive no Mundo Partido. Quem passa pelos seus portões não deixa o mundo dos humanos, mas transporta-se a um lugar distante. Lá pode escutar o que diz a sua sabedoria. Ele me mostrou o caminho e abriu meu espírito para mim mesma. Eu vi a estrela dos albos no deserto, que se tornaria o portal para a nova Valemas. Eu tinha o meu alvo diante dos olhos. E, a partir daí, procurei me aproximar dele. Dareen mudou a minha vida com algumas poucas palavras e imagens. Para mim, abriu-se um mundo de cuja existência eu jamais teria desconfiado antes.
Vocês me perguntam onde encontrar Dareen? Pois bem, eu não posso revelar mais do que já disse. Estou comprometida com um juramento.
Caminhos diferentes
Era isso o que Nuramon estava procurando! Foi com prazer que leu os contos de Yulivee, mas somente as perguntas do guardião do saber o fizeram esbarrar em algo que indicava um caminho direto. O oráculo Dareen permitira a Yulivee ver o lugar que procurava. Exatamente o mesmo podia acontecer a ele e seus companheiros se encontrassem o caminho até Dareen! Se o oráculo os recebesse, então estariam perto do alvo em sua busca por Noroelle!
Nuramon soltou um pequeno grito de alegria. Então ouviu passos e um rangido na escada que passava pelo nicho onde tinha se recolhido com o livro.
Era mestre Reilif quem se aproximava. O guardião do saber saiu da escada até o nocho de Nuramon. Parte do seu rosto estava coberta por um capuz, e das mangas de sua capa negra saíam somente as pontas de seus dedos. Por sua silhueta esguia, poderia ser um elfo. Aproximou-se com passos curtos.
— Perdoe-me por minha explosão de alegria, mestre Reilif — disse Nuramon. — Não queria atrapalhar o silêncio da biblioteca.
— Para essa atitude, há uma punição — respondeu o guardião do saber com uma voz que não demonstrava qualquer emoção. Sentou-se diante de Nuramon e puxou o capuz um pouco para trás, revelando seus olhos cinzentos que pareciam penetrar em Nuramon. — Você precisa me contar o que o agitou dessa forma.