Farodin cruzou os braços na frente do peito.
— Será que você perdeu o interesse em Noroelle, e em vez disso prefere seguir a pista de Yulivee?
Nuramon cerrou os punhos.
— Será possível que você esteja tão cego? O que você mais devia saber é o quanto essa sua repreensão é absurda! Mas... Pensando melhor, essa cegueira é da sua natureza. Você só vê o que quer. Está claro para você que o nosso cortejo a Noroelle poderia ter acabado anos mais cedo?
— Poderia... Essa é uma palavra que está sempre na boca dos fracassados — retrucou Farodin friamente.
— E você não acha que fracassou no seu amor por Noroelle? Assumiu o papel do trovador perfeito, mas nunca compreendeu o que Noroelle realmente esperava. Ela queria que você falasse do seu amor com suas próprias palavras, e não por meio de canções escritas por outros. De mim ela esperava que eu também a tocasse com as mãos além das palavras. O que acha? Por que eu demorei tanto?
Os cantos da boca de Farodin tremiam.
— Eu o observei, Farodin. E me perguntava o que havia de errado com você. O que esconde na sua essência mais profunda? O que é isso que o impede de se abrir até para a mulher que você acredita amar? No fim, será que por trás de todas as palavras emprestadas se esconde um coração vazio? Que tipo de amor é esse que não é possível dizer como realmente é?
Farodin pôs a mão sobre a espada:
— Você está bem em cima de um limite que nenhum de nós quer ultrapassar.
— Farodin, nós já ultrapassamos nossos limites há muito tempo. Você acha mesmo que vou seguir um homem que não é capaz de amar?
Mandred agarrou Farodin pelos ombros e puxou-o para trás. O filho de humanos claramente estava convencido de que a qualquer momento sangue seria derramado.
— Basta, Nuramon! — disse firmemente.
— Tenho a impressão de que nossa união chegou ao fim — disse Farodin, com a expressão petrificada.
— Já chegou há muito tempo. Nós só estávamos nos recusando a reconhecer isso até agora.
Nuramon voltou-se para o filho de humanos:
— E você, Mandred? Qual é o seu caminho?
O jarl hesitou.
Nuramon não pôde evitar lembrar da caverna de Luth, quando Mandred e ele se tornaram amigos. A partir de então fora sempre muito ligado ao filho de humanos.
— Desculpe, Nuramon. Eu sei o quanto estou em dívida com você. E, ainda por cima... Eu não sou muito bom em expressar meus sentimentos e pensamentos em belas palavras. Mas Farodin tem razão. Eu acho que é melhor seguir o rastro de areia. Pode ser um caminho longo, mas certamente nos levará ao nosso objetivo. Eu sinto muito mesmo... Eu... — A voz de Mandred desapareceu.
Então estava sozinho de novo...
— Não preciso de compaixão. Sou eu quem sente muito por vocês. Então sigam o seu caminho miserável, e procurem os seus grãos de areia! Eu vou tomar o meu próprio caminho.
— Não seja tolo, Nuramon! — disse Mandred com um gesto apaziguador. — Nós somos como um barco. Eu sou o casco, Farodin é o leme e você é a vela que agarra o vento.
— Será que você não entendeu, filho de humanos? Eu não preciso de mais ninguém para me impor o caminho. A tempestade arrancou a vela de vocês. Agora vejam até onde vão conseguir chegar remando com as próprias mãos!
Com essas palavras, Nuramon deixou a sala.
O diário de bordo da galera Vento púrpura
34º dia da viagem:
Abrigados nas ilhas de Iskendria, esperamos pelos barcos de carga de Sem-la. Os remadores tiveram tempo para se recuperar. Como combinado, embarcamos uma caixa de vidro do deserto, um retrato de mármore e dez peças de tecido fino de Iskendria. Mas ninguém nos avisara que também teríamos de levar passageiros conosco: um elfo da Terra dos Albos chamado Farodin e um humano, aparentemente do norte, de nome Mandred. Sem-la assumiu os custos das passagens. Os dois claramente não possuem ouro, mas fora isso estão bem equipados. Só os dois cavalos da Terra dos Albos já valem uma fortuna.
35º dia da viagem:
Trajeto lento a norte-noroeste. Calmaria e sol forte. Os remadores se cansaram rápido. O humano que levamos a bordo é admiravelmente instruído. Sabe muito sobre o mar e rema como três homens, por ter muita força nos braços. Foi proveitoso para o Vento Púrpura, sobretudo porque fala daílico e pode ajudar na negociação com os centauros de Gygnox. Talvez desta vez deveríamos arriscar atracar em Gygnox. O filho de humanos fala o tempo todo sobre velhas lendas que ouviu em Iskendria e sobre as terras do fiorde bem ao norte. Se ele soubesse dos mares que já navegamos!
36º ao 38º dia da viagem:
Mar tranquilo. Tripulação satisfeita. Curiosidade perante o filho de humanos.
39º dia da viagem:
A tripulação está bem-disposta. Vento sul, clima ameno. Estamos fazendo uma boa viagem. Os remadores podem se poupar por termos progredido mais rápido que o esperado. À tarde: espetáculo diante de nós no mar. Cruzamos a rota de um navio de humanos, uma galera aegílica. Então apareceu uma enorme serpente do mar. Os humanos fizeram o que todos os sabichões fazem: deram no pé! Como esperado, a serpente do mar os seguiu e destruiu o navio como se não fosse nada mais que um pequeno barco de pescador. Trouxemos a bordo os poucos sobreviventes.
Uma hora mais tarde a serpente do mar apareceu novamente. Emergiu a menos de 15 metros a estibordo. Os humanos salvos ficaram fora de si; muitos deles lançaram-se ao mar. Aqueles tolos não sabiam que é preciso ir em direção a uma serpente do mar para intimidá-la. Essas feras só caçam quem tem medo delas. Então fomos na direção da serpente. Mandred foi o único dos humanos a não demonstrar medo. Ele agarrou um arpão e correu com ele até a proa. Ordenou que atacássemos a cobra. Quando a besta finalmente submergiu e fugiu nadando, o filho de humanos ficou decepcionado. Ficou praguejando contra ela. Todos nós rimos, porque ele praguejava em daílico. Soava quase como um centauro...
45º dia da viagem:
Entramos em águas rasas e atravessamos os bancos de areia diante da cidade humana de Jilgas, navegando cuidadosamente. Ali deixamos na costa os sobreviventes do ataque da serpente. Antes do pôr do sol vamos ancorar na frente de Gygnox. Talvez seja mesmo possível persuadir o filho de humanos...
51º dia da viagem:
Graças a Mandred, bons negócios com os centauros de Gygnox. A única coisa de um centauro que o filho de humanos não tem é o corpo de cavalo. Ele bebeu e cantou músicas grosseiras com eles. Depois disso, eles negociaram conosco com boa vontade. Chamou a atenção o fato de Mandred e Farodin encontrarem um portal para a Terra dos Albos mas não quererem atravessá-lo. Será que estão banidos?
53º dia da viagem:
Partida. Mar calmo, remadores bêbados. Filho de humanos no tambor! O elfo da Terra dos Albos parecia se sentir mal. Talvez sejamos um pouco brutos para elfos. O que o tempo no mundo dos humanos faz com um elfo! À noite: Farodin surpreendeu-se com meu diário de bordo atualizado. Quem se relaciona com Iskendria aprende logo a apreciar a escrita! O elfo da Terra dos Albos pediu que fizéssemos uma alteração na rota. Contou de algo que queria apanhar no fundo do mar. Como não era um grande desvio e ainda fiquei curioso, consenti.
55º dia da viagem:
Chegada ao lugar buscado após pesado trajeto a remo. Tripulação cansada e insatisfeita. Não entendem mudança na rota. Quanto a Farodin: as águas são profundas demais para ele. Foi corajoso, mas não conseguiu chegar ao fundo. Então me ofereci, pois domino um feitiço da água e do ar. Mas Farodin disse que eu não conseguiria encontrar o que ele procura. Então mergulhamos juntos e, de tempos em tempos, eu lhe dava ar. No fundo do mar algo estranho: meteu a mão na areia e fez um sinal para subirmos. Lá em cima abriu a mão cheia de areia. Nela procurou algo: um único grão! Confesso que pareceu haver algo de mágico nele...