Mandred sentia-se dividido entre sentimentos conflitantes. Ficou aborrecido que o velho não tivesse lhe contado nada sobre Alfadas. Por outro lado, também estava orgulhoso. Ele era famoso! Todos na cidade pareciam conhecer o seu nome. Certamente havia cantos heroicos sobre sua luta contra o homem-javali!
Estavam quase chegando ao salão da corte quando Mandred virou-se e olhou para a praça. Todos lá embaixo pareciam estar olhando para ele. Cada um dos comerciantes estava imóvel.
O jarl puxou o machado e esticou o braço para o céu.
— Minhas saudações ao povo de Firnstayn! Aqui está Mandred Torgridson, que retornou para visitar seus herdeiros!
Brados de júbilo vieram de encontro a ele, que saboreava a gritaria e o entusiasmo. Quando finalmente se virou, um vulto robusto o aguardava no fim da escada, um guerreiro de barba selvagem e vermelha, onde se aninhavam largas mechas grisalhas. Um séquito de homens jovens e bem armados o cercava.
— Então você diz ser Mandred — disse o guerreiro mais velho de forma desafiadora. — E por que deveria acreditar?
O jarl pousou a mão sobre o machado. Sua vontade era de inculcar um pouco de respeito naquele sujeito. Então não conteve um sorriso. A cabeça-dura do velho... Devia ser coisa de família. Sem dúvida...
— Vocês não terão dificuldades para reconhecer Mandred Torgridson, já que ele viaja na companhia de um elfo — intrometeu-se Farodin, puxando seus longos cabelos louros para trás, para que todos pudessem ver melhor suas orelhas pontudas.
O rei franziu a testa. De repente, parecia sério, admirado como se tivesse acabado de receber uma notícia terrível.
Mandred permaneceu ali em pé como se petrificado. Se esse velho homem ali em cima fosse seu neto, então Alfadas já devia estar morto havia muito tempo.
— Você é Faredred ou Nuredred? — perguntou educadamente o rei.
— Farodin — respondeu o elfo.
Mandred sentiu seus joelhos começarem a tremer. Tentava se manter firme e imóvel, mas já não tinha mais domínio de si.
— Alfadas — disse baixo. — Alfadas.
O rei desceu a escada e envolveu Mandred com os braços. Novamente soaram na praça gritos altos de júbilo.
— O que você tem? — perguntou Njauldred em voz baixa.
Mandred sacudiu a cabeça.
— O que houve com Alfadas?
O rei passou um braço sob os ombros de Mandred para ampará-lo. Para todos os outros deve ter parecido um gesto de amizade.
— Vamos conversar na minha sala, não aqui.
Subiram devagar os últimos degraus. Os portões da sala do rei estavam bem abertos. O interior era iluminado pela clara luz de tochas, que se refletia nas colunas guarnecidas de ouro. Bandeiras capturadas pendiam do teto alto. Na outra ponta do átrio, havia um trono de madeira escura sobre um pedestal.
Aquele luxo surpreendeu Mandred. Nem mesmo o átrio dourado de Horsa Starkschild era tão impressionante. Uma das paredes era enfeitada com escudos grandes como portas e com machados de pedra que pareciam pesados demais para terem sido feitos para mãos humanas.
De trás de uma das colunas apareceu uma mulher ruiva e jovem. Trajava um vestido longo de couro de antílope, totalmente enfeitado com ossículos, penas e amuletos de pedra.
— Senhor, ela não vai durar até o pôr do sol. Não há nada que possamos fazer.
— Então tragam uma maca. Nós a levaremos lá em cima até o círculo de pedras. Mandred e seu companheiro Faredred vieram para buscá-la.
— Ela também está fraca demais para isso. Mesmo sobre uma maca e envolta em cobertas quentes ela não resistirá à subida do rochedo. É um milagre que ela tenha sobrevivido por tanto tempo.
— Levem-me até ela — exigiu Farodin. — Imediatamente!
O rei consentiu. Então, a mulher do vestido de couro tomou Farodin pela mão e levou-o embora.
Mandred encostou-se em uma das colunas. A visão da sala o fizera esquecer por um instante de sua fraqueza.
— Alfadas? — perguntou suplicante, com os olhos fixos nas mechas grisalhas da barba do rei.
Njauldred bateu palmas e fez um gesto amplo para seu séquito.
— Tragam hidromel e dois chifres de beber. E então me deixem sozinho com o meu antepassado!
Antepassado! Algo em Mandred se encolheu.
Os jovens guerreiros se retiraram. Uma criada trouxe os dois chifres de beber e deixou um grande jarro de barro com hidromel. Eram belos chifres, circundados por largas faixas douradas.
— Há quanto tempo Alfadas está morto? — perguntou Mandred com a voz afônica.
— Beba! — foi só o que Njauldred respondeu. — Eu vou responder a todas as suas perguntas.
Mandred pousou o chifre. O hidromel era doce e ao mesmo tempo forte. Delicioso. Quando Mandred encheu mais um chifre, Njauldred esclareceu a ele sem rodeios que era o décimo primeiro rei das terras do fiorde da linhagem de Alfadas. Pousou a mão no ombro de Mandred tentando consolá-lo, e começou a contar:
— Pouco depois de você deixar Firnstayn, Alfadas tornou-se jarl e, em poucos anos, ascendeu à nobreza da corte. Tornou-se homem de confiança do rei e de seus generais em tempos de guerra. Alguns anos se passaram e, pouco depois dos festejos de um solstício de verão, um elfo veio a Firnstayn e pediu a ajuda dele. Um exército de trolls invadira a Terra dos Albos e tudo ia muito mal para os elfos. Alfadas aconselhou-se com o rei e com o príncipe das terras do fiorde, e por fim formou o maior exército jamais visto no norte. Eles atravessaram por um portal aberto pelos elfos e lutaram lado a lado com centauros, duendes e elfos. A guerra continuou por muitos anos. Quando finalmente os trolls foram expulsos da Terra dos Albos, eles começaram a atacar cidades e aldeias nas terras do fiorde. Conquistaram Gonthabu e assassinaram o rei e toda a família dele. Pouco depois, Alfadas cercou os saqueadores no fiorde de Göndir e os presenteou com uma amarga derrota. Ainda no campo de batalha, o nobre Alfadas foi proclamado o novo rei. Juntamente com seus aliados elfos, expulsou os trolls para o norte. Alfadas tornou Firnstayn capital, porque ao mesmo tempo tem um portal para a Terra dos Albos e fica tão ao norte que a fronteira para os trolls é próxima. Desde esses tempos há uma aliança entre os elfos da Terra dos Albos e os homens das terras do fiorde.
— E o que aconteceu com o meu filho? — Mandred quis saber. ansioso.
— Ele morreu como herói. Alfadas caiu em uma emboscada e foi morto por trolls que roubaram o seu cadáver. Mas seu amigo elfo Ollwyn trouxe o corpo sem vida do rei de volta e vingou de forma sangrenta o seu assassinato. Alfadas foi sepultado em Firnstayn. Ao lado de sua mãe, sob o Carvalho de Mandred, ele encontrou sua última morada.
Amargura e orgulho — esses eram os sentimentos conflitantes que agora comoviam Mandred. Como gostaria de ter passado mais uma vez algumas semanas despreocupadas com Alfadas, como daquela vez que vieram juntos a Firnstayn! Ele ergueu seu chifre de beber em direção ao teto.
— Que você possa encontrar para sempre um lugar de honra à mesa dos deuses, ao lado de Luth — sussurrou.
Então derramou um pouco do seu hidromel em homenagem ao deus e esvaziou o seu chifre.
— Com certeza ele terá seu lugar de honra nessa mesa — disse o rei.
Njauldred se levantara e apontava para uma coluna dourada. No ouro estavam presos largos painéis com personagens, exibindo guerreiros sobre cavalos. Njauldred apontou um cavaleiro enfiando sua lança no ventre de um gigante.
— Está vendo? Este aqui é o seu filho, quando ele matou o príncipe troll Gornbor. — O rei apontou para cima na longa sala. — Em quase todas as colunas você encontrará uma imagem de Alfadas. Seus feitos heroicos são inúmeros. Ele cavalgou muitas vezes com o elfo Ollwyn para caçar os espiões dos trolls. Ao mesmo tempo, ele é nosso orgulho e nossa maldição, pois a partir dele mais ninguém pôde concorrer com seu heroísmo.