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— Vocês ainda lutam contra os trolls?

— Não. Há muito tempo a paz reina aqui. Às vezes, quando um barco é empurrado bem para norte por uma tempestade, os pescadores veem no meio da névoa um dos grandes navios trolls. Às vezes, no inverno, alguns caçadores também encontram pegadas de trolls na neve. Mas as lutas acabaram. — O rei lançou um olhar sério a Mandred: — Por que você veio, Mandred Torgridson?

— Queria abraçar Alfadas, meu filho, mais uma vez.

O rosto do rei ficou sombrio.

— Deve estar claro para você que nenhum humano vive por séculos. Diga-me o verdadeiro motivo para estar aqui.

O tom de voz do rei soou quase como hostil.

— Quando se viaja com elfos, o tempo passa mais lentamente. Para mim, parece que só três ou quatro anos se passaram desde meu último encontro com Alfadas. Olhe para mim. Ainda sou jovem, Njauldred, mesmo que seja pai de Alfadas.

O soberano acariciou a barba, pensativo.

— Vejo que a sua dor pela morte de Alfadas é genuína, então quero acreditar em você. Porém, a sua chegada a Firnstayn mergulhou-me em grande inquietação.

Mandred estava admirado e também um pouco irritado.

— Eu não aspiro a seu trono, Njauldred.

— Eu o entregaria a você, se quisesse tê-lo — retrucou o rei, nervoso. — Trata-se da sua saga. Alfadas também sempre falou sobre isso.

— O quê?

— Dizem que você retornaria ao seu povo em um momento de grande urgência. Não estamos vivendo nenhum perigo, Mandred. Então me pergunto o que está por vir. Primeiro, encontramos uma elfa muito ferida, depois de ninguém ter visto sequer um elfo em todo o reino por mais de trinta anos. E então você vem com um companheiro elfo tão belo e inacessível como um mensageiro da morte. Minhas preocupações são profundas, Mandred. Será que haverá uma nova guerra dos trolls?

O jarl abanou a cabeça.

— Não acredito nisso. Não tenho nenhum conflito com trolls. Nunca vi um deles na vida.

Njauldred apontou para a imagem de Alfadas e Gornbor.

— Eles são horríveis. Dizem que um deles é tão forte quanto dez homens. Fique contente por jamais ter encontrado um. Um homem sozinho não consegue sair vitorioso contra um troll. Só Alfadas conseguia.

— E quanto a essa elfa? De onde ela vem?

O rei deu de ombros.

— Ninguém sabe dizer. Está gravemente ferida, como se um urso a tivesse atacado. Quando foi encontrada, estava quase congelando. Tinha febre alta e falava dormindo, mas não a entendíamos. Espero que seu companheiro seja um feiticeiro poderoso. Só uma magia forte poderá salvá-la. Minha filha Ragna é uma curandeira talentosa. Ela acabou com as dores da elfa e fez a febre baixar. Mas os ferimentos não querem fechar há semanas. Está ficando cada vez mais fraca. Ragna teme que ela morrerá ainda esta noite. Mas agora o seu companheiro está lá.

Mandred queria que fosse Nuramon quem estivesse sentado junto ao leito da elfa. Ele seria capaz de trazê-la de volta até dos átrios dourados dos deuses. Mas Farodin... O elfo louro era um guerreiro, não um curador.

— Você pode me levar até a elfa?

— Claro. — O rei o encarou com olhos arregalados. — Você também é um curandeiro?

— Não — Mandred sorriu. — O rei devia pensar que quem pudesse sobreviver aos séculos era capaz de tudo.

Eles deixaram a sala do trono e adentraram uma ala lateral. Mandred ficou admirado com as tapeçarias artisticamente tecidas que adornavam as paredes de pedra. Njauldred subiu com ele uma escada estreita até um corredor de onde saíam várias portas. Uma pira rasa afastava o frio que se instalara nos muros de pedra. Diante da última porta estavam um guerreiro e a jovem do vestido de couro que Mandred já vira na sala solene.

Ragna abriu os braços num gesto de desamparo.

— Ele não deixa ninguém entrar. No começo podíamos ouvir sua voz. Mas agora o quarto já está em silêncio há muito tempo.

— E houve aquela luz — disse o guerreiro respeitosamente. — Por que não conta sobre ela, Ragna? Uma luz prateada saía por debaixo da porta. E o cheiro era estranho. Como o de botões de flores.

— E depois disso não veio mais nenhum som do quarto? — perguntou o rei.

— Nada — confirmou o guarda.

Mandred aproximou-se da porta.

— Você não deveria fazer isso — disse Ragna. — Ele disse muito claramente que não toleraria ninguém no quarto. Nas sagas dos escaldos, os elfos são mais educados.

O jarl empunhou a maçaneta.

— Ele me tolerará ao seu lado. — Certeza absoluta ele não tinha. — Mas nenhum de vocês deve vir atrás.

Mandred entrou e fechou imediatamente a porta atrás de si. Estava num pequeno quarto no sótão. Grande parte do cômodo era tomada pelo leito. Uma bela tapeçaria estava estendida nas vigas do telhado. Mostrava uma cena de caça com javalis. O quarto cheirava a flores.

Em cima da cama havia uma grossa coberta de lã e várias peles de ovelha. Havia uma pequena concavidade no colchão. Farodin estava ajoelhado diante da cama, com o rosto escondido entre as mãos. Mandred não via a elfa em lugar algum. E não havia local no pequeno quarto onde ela pudesse estar escondida.

— Farodin?

O elfo ergueu a cabeça lentamente.

— Ela partiu para o luar. Ela esteve viva até cumprir o seu destino, que era transmitir a notícia.

— Você quer dizer que ela morreu?

— Não, não é a mesma coisa. — Farodin levantou-se. Seu rosto era inexpressivo. — Agora ela está onde todos os filhos dos albos vão um dia. O seu fardo ela deixou comigo.

Ele puxou a espada e testou a lâmina com os polegares.

Mandred nunca presenciara seu companheiro com um humor como esse. Não se atrevia a falar com Farodin. Uma gota de sangue correu pelo fio da espada do elfo.

— Trolls! — disse Farodin finalmente, depois de um longo silêncio. — Trolls. Houve uma guerra contra eles, que já está terminada há muitos anos. Já no final da guerra, eles capturaram um grande veleiro. Quase trezentos elfos estavam a bordo. Eles foram raptados e aprisionados. Alguns deles ainda estão vivos. Yilvina está entre eles.

— Yilvina? A nossa Yilvina?

Mandred lembrou da jovem e loura elfa. Com suas duas espadas curtas ela sempre lhe parecera invencível na luta. Como era possível que tivesse sido presa?

— Yilvina e meia dúzia de outros. Sim. Eles ainda estão vivos, mesmo depois de mais de dois séculos na prisão. Orgrim, o comandante dos trolls, simplesmente ficou com eles, mesmo que haja paz há muito tempo. — Farodin apontou para a cama vazia. — Shalawyn escapou deles. Eles a acossaram como um animal selvagem. Ela queria voltar à Terra dos Albos para avisar Emerelle.

— Devemos agora mudar de plano para levar a notícia dela à Terra dos Albos? — para Mandred era desconfortável a ideia de ter de se apresentar novamente à rainha.

Farodin limpou o sangue de sua espada com a coberta e empurrou-a de volta para a bainha.

— Não faria sentido. Emerelle mandaria um mensageiro à corte do rei dos trolls para perguntar sobre os prisioneiros. Ele então pediria explicações ao duque Orgrim e o general negaria convictamente o fato de ainda manter elfos prisioneiros. Agora não há mais nenhuma testemunha viva disso. Se Emerelle insistisse que Orgrim estaria mentindo, poderia ser o bastante para desencadear uma nova guerra contra os trolls. A rainha não correrá esse risco. Então tudo ficaria como está.

— Então Shalawyn fugiu em vão.

— Não, filho de humanos. É necessário que os trolls paguem pelo que estão fazendo com os prisioneiros. Ela me contou tudo.

Mandred recuou um passo. Havia algo no olhar de Farodin que o advertia a ter cuidado.

— O que... O que eles estão fazendo?

— Não pergunte! Só de uma coisa você precisa saber: o duque Orgrim vai pagar com sangue! Vou encontrar o caminho até ele e fazê-lo arrepender-se do que fez.

O enigma do portal

Lentamente Nuramon pisou em uma trilha alba, na frente de seu cavalo Felbion. Podia sentir como o poder da trilha era atraído por uma estrela alba. A esperança de finalmente chegar ao oráculo Dareen o preenchia. Várias vezes seguira por trajetos errados. Os humanos de Angnos não eram capazes de distinguir feitiços de ilusões e o que chamavam de oráculo não era nada mais que uma farsa. Lá não descobriu nada que ele mesmo ainda não soubesse. Desde essas experiências decepcionantes, Nuramon estava procurando por um velho oráculo que estivesse calado havia muito tempo ou que não concedesse acesso a mais ninguém.