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Juliette Benzoni

Fiora e o Papa Sisto IV

Primeira parte

UMA OUTRA RAZÃO PARA AMAR

CAPÍTULO I

OS IRREDUTÍVEIS

Philippe de Selongey esperava a morte.

Não como uma inimiga encontrara-a demasiadas vezes por ocasião dos cercos e das batalhas para a confundir com um adversário qualquer. Nem com terror, porque ela podia ser a suprema visão da misericórdia. Antes como uma visitante inoportuna, que se insinua e instala quando menos se deseja a sua presença. Podia ter aparecido numa emboscada sem que ele dela se apercebesse, de chofre, por ocasião do cerco interminável de Neuss ou na planície de Grandson, para onde um acaso providencial o havia atirado, seriamente ferido, quando o exército borgonhês o deixara sem mais forças do que uma estrela-do-mar abandonada na praia pela maré, enquanto os seus companheiros fugiam diante dos Suíços. Teria sido normal, até lógico e conforme àquele estranho contrato que concluíra em Florença num dia de Janeiro de 1475 com um dos homens mais ricos da cidade, Francesco Beltrami: em troca da mão da bela Fiora, sua filha adoptiva e do dote real que a acompanhava. Philippe jurara exigir apenas uma noite, após a qual desapareceria para nunca mais voltar.

Então, fora sincero. Por aquela fortuna destinada aos exércitos do Temerário e por algumas horas de amor, lançara alegremente a sua vida para a balança do mercador, pensando assim consumir toda a felicidade a que tinha direito neste mundo. No entanto, a armadilha do amor fechara-se sobre ele e em vez de procurar a morte, Philippe fizera tudo para a evitar na esperança de rever, nem que fosse por uma única vez, o rosto daquela que amava. E revira-o.

Fiora e ele tinham-se amado de novo enquanto soava ainda o toque a finados do grande duque do Ocidente e da Borgonha soberana. Tinham vivido esse fim e também essa aurora de um tempo novo que Philippe pensava poder partilhar com ela até ao fim da sua jornada neste mundo. E depois, tudo ruíra no caos...

Fiora acreditava que iriam conhecer uma existência tranquila de castelões, unicamente ocupados na fundação de uma família. Ele sabia que essa paz não era possível, já que a Borgonha tinha ainda de lutar pela sua princesa Maria contra a força irresistível do Rei de França. Esperava que a sua jovem mulher esperasse sensatamente o seu regresso em Selongey, na grande casa familiar, mas Fiora não quisera compreender, não quisera admitir que ele desejasse, após tantas atribulações, afastar-se dela para colocar a sua espada ao serviço de uma soberana que não passava, para ela, de mais uma mulher. E depois houvera aquela palavra infeliz acerca de obediência que Philippe deixara escapar...

Nem que vivesse cem anos o que era absolutamente improvável esqueceria aquela última imagem da sua amada: envolta à pressa no lençol que acabava de tirar do leito, os cabelos negros em desordem sobre os ombros nus e os grandes olhos cinzentos carregados de nuvens de tempestade, Fiora era a imagem da revolta e não mastigara as suas palavras.

Nunca o seu pai a obrigara à ”obediência!” Era um termo que não fazia parte do seu vocabulário. Quanto a ele, o marido reencontrado após tanto tempo e que ousava falar-lhe como seu senhor, que fosse, se realmente a queria ver, a Touraine, ao solar que o Rei Luís lhe oferecera como recompensa pelas penas sofridas ao seu serviço.

Uma saída altiva, mas rápida, salvara a rebelde de uma violenta reacção de cólera conjugal. Philippe estava ao corrente do tipo de serviços que Fiora prestara ao astuto soberano, como ela prendera na armadilha da sua beleza sedutora o condottiere Campobasso que, para a reconquistar, traíra o Temerário no dia do último combate. Fiora arrependera-se dessas horas de aberração, mas Philippe achara de muito mau gosto ela lembrar-lhas, evocando o pagamento que recebera. E não perseguira a fugitiva por essa única razão. Esperara que ela voltasse, um pouco confusa, mas terna e pronta a retomar com ele o jogo exaltante do amor. Mas ela não voltara. Fiora abandonava Nancy uma hora mais tarde em direcção a Plessis-lès-Tours, o castelo real, na companhia da sua velha amiga Léonarde Mercet e escoltada pelo sargento La Bourrasque, aliás Douglas Mortimer, dos Mortimer de Glen Livet, um dos mais brilhantes oficiais da famosa Guarda Escocesa do Rei Luís. Nenhuma reconciliação era possível porque, por nada deste mundo Philippe se lançaria em perseguição da sua mulher a partir do momento em que o seu rumo era na direcção do mais terrível inimigo do defunto duque de Borgonha. No dia seguinte, por sua vez, Philippe abandonava a Lorena para se juntar, em Gand, à princesa Maria de Borgonha e à duquesa viúva Margarida, que se esforçava por reunir os seus fiéis para fazer face a um horizonte singularmente sombrio. A política escavava de novo o fosso que o amor pensava ter enchido para sempre...

Para tentar expulsar aquela recordação que lhe fazia desaparecer a coragem, Philippe quis levantar-se, dar alguns passos. Restavam-lhe poucas horas de vida; não queria gastá-las em desgostos estéreis. Com o tilintar das longas correntes que lhe ligavam os punhos à muralha, abandonou a enxerga que lhe servia de leito, quatro pranchas chumbadas na alvenaria, e caminhou na direcção do respiradouro por onde entrava a luz do dia, tendo o cuidado de não se endireitar, porque o tecto de pedra era demasiado baixo para a sua alta estatura.

A janela dava para o pátio interior da casa do Singe, em Dijon, que albergava ao mesmo tempo os Paços do Concelho e a prisão. Aquele dia de Verão enchia-a de sol, cuja luz iluminava as celas e até as masmorras enterradas no solo. Alguns tufos de erva cresciam diante do respiradouro e o prisioneiro esforçou-se por chegar a eles. Teria gostado de os sentir na mão, esfregá-los para lhes respirar o odor a campo e impregnar-se um pouco com as alegrias simples da sua infância quase camponesa. Os laços que uniam o filho do castelão, entre os cinco e os dez anos, aos seus vassalos, eram estreitos. Só mais tarde a diferença se faria notar: os jovens plebeus tinham permanecido ligados à terra, ao ciclo das estações, às suas festas e trabalhos, ao passo que o pequeno nobre tinha ido aprender a vestir o que se tornaria a sua segunda pele essa combinação de couro e ferro que lhe permitiria afrontar o combate e a substituir as espadas e lanças de madeira por belas lâminas forjadas em Toledo ou Milão. Na cave de pedra, onde via uma antecâmara daquela que, definitiva, o esperava, o conde virava-se para a sua infância, como os idosos que sabem que a sua jornada está a chegar ao fim. Pensar na sua mulher era-lhe demasiado cruel e preferia esquecê-la. Quanto àquele último combate, pelo qual o tinham condenado, compreendia, finalmente, que sempre o considerara perdido.

Pouco ou nada restava dos belos exércitos que a má sorte fizera desaparecer em pouco mais de um ano e eram numerosos os borgonheses que desejavam a paz a qualquer preço. A herdeira, Maria de Borgonha, cuja causa Philippe abraçara impetuosamente, era quase tanto prisioneira no seu palácio de Gand como ele naquela masmorra de Dijon. A mais turbulenta das fortalezas flamengas fechara-se sobre ela e sobre a duquesa viúva como o cofre de um usurário; não lhe restituiria tão cedo a liberdade. E apesar de ser a duquesa soberana por nascimento, Maria tinha menos poder do que o mais modesto dos seus castelões.

Na verdade, era noiva do príncipe Maximiliano, herdeiro da Alemanha, mas o noivado manter-se-ia? O filho do Imperador não se afastaria da borgonhesa meio-arruinada para olhar para outros partidos mais interessantes? Como sabê-lo? As notícias da Flandres só dificilmente chegavam ao punhado de partidários que pretendiam conservar a Borgonha para a filha do Temerário

Nos primeiros tempos que se seguiram à morte do duque, as coisas tinham corrido bem. Primeiro, a notícia fúnebre encontrara muitos incrédulos. Dizia-se que Carlos escapara à morte, que se escondia algures em Souabe, onde convalescia dos seus ferimentos e preparava o seu regresso. Aliás, espalhar-se-iam, durante muito tempo, lendas acerca do fim do último