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"O islão teve nos primeiros tempos um crescimento glorioso", começou Ayman por dizer, voltando a um tema que a todos era caro naquelas aulas. "O

exército do Profeta, que a paz esteja com ele, submeteu toda a Arábia à vontade de Alá, e logo a seguir, seguindo a ordem de Deus dada através do Santo Alcorão ou da sunnah, os nossos valentes mudjahedin atacaram e impuseram o islão aos países vizinhos. Foi um período de luta constante, de guerras e batalhas, mas o islão saía sempre vencedor."

"Allah u akbar!", exclamaram alguns alunos, pressentindo que vinha aí mais uma grande narrativa épica.

O professor fez sinal para se calarem.

"Ao fim de algum tempo, porém, alguns crentes mais fracos começaram a sentir-se cansados de guerra. Estavam mais preocupados com o seu bem-estar do que em obedecer às ordens de Alá no Santo Alcorão e espalhar a palavra de Deus. Quando o nosso exército conquistou povos que não eram árabes, como aqui no Egipto ou ali na Síria, esses crentes fracos tiveram contactos com os kafirun cristãos que por aqui viviam e acabaram por ser influenciados por eles."

"O que quer dizer com isso de haver crentes influenciados pelos kafirun, senhor professor?", perguntou um aluno, estranhando a observação.

"Por exemplo, viam os monges cristãos fechados num mosteiro a dizer que estavam em meditação para comungar com Deus e para encontrar a paz e o amor. Toda essa conversa influenciou os crentes fracos, muitos dos quais se puseram então a falar no amor de Alá, não na força de Alá. Nasceu assim o sufismo, um movimento que prega o amor, a paz e a espiritualidade." A cabeça de Ayman girou pela sala.

"Algum de vós por acaso é sufi?"

Três mãos hesitantes ergueram-se no ar. O

professor fixou o rosto dos três alunos e esboçou uma expressão de desdém.

"Pois ficai a saber que o sufismo não é islão."

Os três arregalaram os olhos, surpreendidos. Os olhares dos colegas incidiram de imediato sobre eles, deixando-os subitamente intimidados. O que queria o professor dizer com aquilo?

"Mas eu sou crente, senhor professor", argumentou um deles, quase num queixume assustado. "Faço o salat completo, cumpro a zakat, respeito o..."

"O mero respeito de alguns preceitos do islão não faz de uma pessoa um crente", cortou Ayman, um tom agreste a en-sombrar-lhe a voz. "Para se ser muçulmano é preciso respeitar todos os preceitos, sem excepção. Todos. E isso o que Alá diz na sura 4, versículo 65 do Santo Alcorão e é isso o que está estabelecido na sunnab do Profeta, como é relatado num hadith apropriado. O mensageiro de Alá comandava homens no campo de batalha e os sufis vêm agora desvalorizar a importância da guerra? Os sufis renegam o exemplo do Profeta, que a paz esteja com ele, e ainda acham que são crentes?

Acaso não está estabelecido por Alá na sura 33, versículo 21 do Santo Alcorão: «No Enviado tendes um formoso exemplo»? Se o Profeta, ele próprio, fazia a guerra e mandava degolar kafirun, não é isso um formoso exemplo? Se ele mandava matar em guerra, quem são os sufis para desvalorizar a guerra?" O olhar de Ayman cravou-se num dos outros alunos que dissera ser sufi, um rapaz gordo de grandes olhos negros. "Onde está dito no Santo Alcorão que devemos evitar o uso da força?"

A pergunta ficou a pairar no silêncio, os olhos do professor sempre fixos naquele aluno. Sentindo-se interpelado, o rapaz viu-se na obrigação de responder. Estava encolhido no seu lugar e, quando falou, a sua voz não passava de um fio trémulo.

"Como... como diz, senhor professor?"

"Mostra-me onde está a ordem de Alá no Santo Alcorão a dizer que devemos evitar o uso da força."

O rapaz olhou atrapalhado para o volume que tinha diante de si.

"Está ... está na... na sura 3, senhor professor."

"Recita o versículo."

O aluno não o sabia de cor e abriu o Alcorão, a mão sapuda agitando-se de nervos. Localizou o terceiro capítulo e deslizou o indicador grosseiro pelas folhas, seguindo em silêncio os versículos sucessivos.

O processo prolongou-se, mas o professor deixou correr; aquele silêncio aumentava a intensidade dramática do momento.

"Está aqui!", exclamou enfim o aluno, um tom quase aliviado na voz. "Está aqui! E o versículo 134!"

"Recita-o."

O rapaz bufou para aliviar o nervoso miudinho, como se fosse uma máquina a vapor e tivesse de descarregar a pressão para não explodir. O corpanzil tremia-lhe e a leitura saiu-lhe aos solavancos no momento em que começou a recitar o versículo.

"«Esses que praticam a caridade, obedecendo a Deus nas alegrias e nas desgraças, que reprimem a cólera e apagam a ofensa dos homens - Deus ama os que fazem o bem!»"

"Só isso?"

O aluno gordo ergueu a cabeça; transpirava abundantemente e engolia em seco.

"Há outras suras onde... onde Alá diz o mesmo, senhor professor."

"Claro que há", assentiu Ayman, a voz gelada. "Por exemplo, na sura 42, versículo 37, Deus promete o melhoo»para aqueles «que se afastam dos grandes pecados e das torpezas e que, quando se irritam, perdoam»." Encolheu os ombros. "E depois? Alá quer que haja perdão entre os crentes e que se faça o bem. Perdoemos então e façamos o bem entre os crentes. E por isso que somos bons muçulmanos. Mas engrandecer o islão também é fazer o bem! Perdoar os kafirun que se convertam ao islão também é perdoar! Há, no entanto, limites ao perdão. Ou não há? O que diz Alá no Santo Alcorão para os que roubam? Diz para perdoar? Não! Diz para lhes cortarem as mãos! O que diz Alá através da sunnah para as adúlteras? Diz para perdoar? Não! Diz para as lapidarem até à morte! O que diz Alá no Santo Alcorão para os idólatras? Diz para perdoar? Não!

Diz para os emboscar e para os matar! O Santo Alcorão é para ler no seu todo, a sharia é para ser respeitada no seu todo! Entenderam?"

Um murmúrio de assentimento percorreu a aula.

Apontou para o aluno gordo que regressara ao silêncio e permanecia encolhido no seu lugar.

"Os sufis enfraqueceram o islão", acusou, como se aquele rapaz representasse todos os sufis. "Quando os kafirun cruzados invadiram o islão e conquistaram Al-Quds, que Alá os amaldiçoe para sempre, alguns sufis opuseram-se ao uso da força, dizendo que a guerra pregada no Santo Alcorão não era física, mas espiritual. Esta conversa enfraqueceu o islão e foi Por causa desses sufis malditos que os cruzados conseguiram humilhar a umma. E quando, mais tarde, os Mongóis atacaram e conquistaram a sede do califado, Bagdade, vários sufis repetiram a mesma heresia, afirmando que não se devia lutar com as armas, que pela força não se resolvia nada... essa conversa cristã. Qual foi o resultado disso?

Enfraqueceram de novo o islão e deixaram mais uma vez humilhar a umma! E sabem quem se ergueu contra os sufis e os denunciou como hereges? Foi Ibn Taymiyyah! Sabem o que disse Ibn Taymiyyah?"

Encarou a classe, como se aguardasse resposta, embora todos soubessem perfeitamente que a pergunta era retórica e que ninguém iria responder.

"Ibn Taymiyyah declarou que o sufismo é um movimento cristão!" Ergueu o dedo, para sublinhar a afirmação. "Um movimento cristão! Dizem-se crentes, mas são cristãos! Tal como os kafirun cristãos, os sufis acham que, quando oram a Alá, eles estão com Alá e Alá está com eles. Onde se encontra isto escrito no Santo Alcorão? Em parte nenhuma!