II
A voz de trovão rasgou o ar num tom imperativo.
"Ahmed, anda cá!"
O rapaz ergueu-se de um salto, quase com medo daquele rugido, e nem se permitiu hesitar. Saiu do quarto a correr e deu com o pai sentado no sofá da sala ao lado de um ancião de barbas brancas pontiagudas e um turbante na cabeça, uma figura que Ahmed conhecia à distância na mesquita; vira-o inúmeras vezes a conduzir as orações.
"Sim, pai?"
Ignorando a pergunta do filho, o senhor Barakah voltou-se para o visitante.
"E este o meu rapaz."
O ancião passou os olhos atentos por Ahmed, estudando-o com uma expressão de bonomia.
"Quando quer que eu comece?"
"Amanhã, se for possível", disse o senhor Barakah.
"Era bom aproveitar o início do novo ano." Voltou-se para trás e
meneou os dedos cobertos de anéis, chamando o filho. "Anda cá, Ahmed. Já cumprimentaste o xeque Saad?"
Ahmed deu dois passos em frente e baixou a cabeça, quase envergonhado.
"As salaatn alekum", murmurou num fio de voz.
"Wa alekum salema", devolveu o clérigo, inclinando também a cabeça. "Então és tu o famoso Ahmed?" »
"Sim, xeque."
"Quantos anos tens?"
"Sete."
"És um bom muçulmano?"
Ahmed balouçou a cabeça afirmativamente, com convicção. "Sou."
"Cumpres jejum no Ramadão?"
O rapaz ficou atrapalhado e olhou para o pai de esguelha, incerto quanto ao que deveria responder.
"Eu... a minha família...", gaguejou. "O meu pai... o meu pai não deixa."
O xeque Saad soltou uma gargalhada, no que foi acompanhado pelo anfitrião.
"E faz ele muito bem!", exclamou o visitante, ainda a rir--se com o embaraço do rapaz. "O Profeta, na sua imensa sabedoria, isentou as crianças do jejum."
Ajeitou o turbante, que se deslocara com a gargalhada. "Agora diz-me lá, quantas vezes rezas ao dia?"
O rapaz abriu a mão e exibiu a palma e os dedos esticados.
"Cinco."
O mullah soergueu o sobrolho com uma expressão céptica, como se duvidasse.
"De certeza?", inquiriu. "Acordas mesmo de madrugada para a primeira oração?"
"Sim", devolveu Ahmed com grande resolução.
"Não acredito!"
"Juro."
O clérigo olhou para o anfitrião, procurando confirmar o que lhe era dito.
"É verdade", garantiu o senhor Barakah. "Ainda o Sol não nasceu e já o vejo a rezar. E muito devoto."
"E faz isso todos os dias?"
O pai olhou de relance para o filho.
"Bem... todos não. Às vezes fica-se a dormir, coitado."
"Seja como for, parece-me muito bom", considerou o xeque Saad, impressionado. "Muito bem, Ahmed!
Estás de parabéns, sim senhor! Es mesmo um bom muçulmano!"
O rapaz quase rebentava de orgulho.
"Cumpro apenas o meu dever", disse, simulando modéstia.
O clérigo fez um gesto na direcção do seu anfitrião.
"O teu pai acredita que gostarias de conhecer melhor a palavra de Alá. É mesmo assim?"
Ahmed hesitou e lançou um novo olhar fugidio para o pai, como se tentasse perceber o sentido daquela pergunta.
"Já viste o xeque Saad na nossa mesquita, não viste?", interveio o senhor Barakah. "Ele é o mullah que nos guia e um profundo conhecedor do Livro Sagrado. Convidei-o para te ensinar o Alcorão e as orações e para te ajudar a aprofundar os conhecimentos em relação ao islão. Ele deu-nos a suprema honra de aceitar essa responsabilidade. O
xeque será doravante o teu mestre. Percebeste?"
"Sim, meu pai."
"Serás um bom aluno e crescerás como um muçulmano virtuoso", sentenciou o senhor Barakah.
"Viverás conforme os ensinamentos do Profeta e as leis de Alá."
"Sim, meu pai."
O anfitrião inclinou-se sobre a mesa, pegou num bule fumegante e deitou chá na chávena do visitante, que mantinha nos olhos uma expressão de bondosa afabilidade.
"Amanhã é o primeiro dia do mês de Moharram e vamos celebrar a Hégira", disse o mullab. Fez uma pausa para beber um trago do chá. "Sabes o que é?"
"E a fuga do Profeta para Medina, xeque."
*
O clérigo pousou a chávena e sorriu.
"E um excelente dia para começarmos as lições."
O xeque Saad pousou o livro com grande cerimonial e, sem o ler, começou a recitar, a voz a fluir numa melodia cadenciada, os olhos cerrados na adoração das palavras divinas, as mãos abrindo-se como se recebessem o céu.
"Biçmillab Irrahman Irrahim!", entoou. "Em nome de Deus, beneficente e misericordioso!"
Fez uma pausa, dando ao seu pupilo oportunidade para lançar o versículo seguinte.
"Al-bâmdo li' Llábi Râbbil-álamin, arrabmáni rrahim, Máliqui yâumi ddinl", devolveu Ahmed.
"Louvado seja Deus, Senhor dos Mundos, Beneficente e Misericordioso, Senhor do Dia do Julgamento!"
"lyyáca nâebudo wa-lyáca naçtaín!", retomou o clérigo. "A Ti somente adoramos, de Ti somente esperamos socorro!"
"Ehdená' çeráta' Imustaquim, çeráta' ladina aneâmta âlaihim, gâiri' Imaghdubi âlaibim, wala dalinl", entoou o rapaz. "Mostra-nos o bom caminho, o caminho desses que tens favorecido, não o caminho desses que incorrem na Tua cólera nem o dos que se perdem!"
"Amin!", solfejaram ambos em simultâneo, proferindo o ámen final.
O xeque Saad abriu os olhos, acariciou a capa com ternura e olhou enfim o jovem pupilo.
"Reza assim a fatiha, a primeira sura do Alcorão", disse, referindo-se ao curto capítulo inicial. Pegou no livro com cuidado e ergueu-o diante do rosto de Ahmed, como se ostentasse nas mãos uma coroa imperial. "O que sabes tu sobre o Alcorão?"
O rapaz arregalou os olhos.
"Eu, xeque? É o Livro dos Livros, a voz de Alá a falar directamente para nós."
"E sabes quem o escreveu?"
Ahmed mirou o livro, depois o mestre, depois o livro outra vez; sentia-se surpreendido com a pergunta, tão óbvia era a resposta.
"Bem... foi Alá, Ele próprio."
O clérigo sorriu e afagou de novo o volume que tinha nas mãos.
"Esta é uma cópia perfeita do livro eterno, o Umm Al-Kittab, que Deus guarda sempre junto de si. O
Alcorão regista, de facto, as palavras de Alá a dirigir-se directamente aos crentes e a fazer a última revelação à humanidade. A voz de Deus, vibrante e poderosa, jorra destas páginas sagradas, der-ramando-se por estes versículos de beleza sem igual. Mas não te esqueças de que, para transmitir a Sua mensagem, Alá Al--Khalid, o Criador, recorreu ao serviço do Seu mensageiro, o Profeta. No último sermão antes de morrer, Maomé disse: «Deixo atrás de mim duas coisas, o Alcorão e o meu exemplo, a sunnah, e se os seguirem nunca se sentirão perdidos.» Louvado seja o Senhor!"
"Alá An-Nur", devolveu o pupilo. "Deus é a luz."
"A primeira vez que Deus se manifestou foi numa noite do mês do Ramadão, quando Maomé, como fazia habitualmente, se recolheu a uma gruta de Hira para meditar. Só que dessa feita apareceu de repente o anjo Gabriel, que lhe disse: «Lê!» Ora Maomé era analfabeto e explicou ao anjo que não sabia ler. Mas o anjo insistiu três vezes e, como por magia, o coração de Maomé abriu-se às palavras de Alá."
O xeque abriu de novo o Alcorão, foi direito às páginas
finais e localizou o capítulo 96.
*■ 0
"Esta é a sura da revelação", disse, estendendo o livro ao seu pupilo. "Lê tu os versículos revelados ao Profeta na gruta de Hira."
Ahmed pegou no volume e leu a sura 96, reproduzindo as primeiras palavras divinas escutadas por Maomé.