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— E o que isso significa?

— Sabe que contamos o tempo em ciclos de doze anos, como os chineses cada ano com um nome de animal, dragão, serpente, galo, touro, cavalo e assim por diante. Mas cada ano também tem um dos cinco elementos, fogo, água, terra, ferro, madeira, que variam, ciclo por ciclo. As mulheres nascidas no ano do cavalo, com o signo do fogo, são consideradas... desafortunadas.

— Não acredito em superstições. Por favor, diga o preço.

— Ela é uma Flor na cama de preço inestimável.

— O preço, Raiko.

— Para a outra casa, dez koku, Furansu-san. Para esta casa, dois koku por ano, e o preço de sua casa, dentro dos meus muros, duas criadas, todas as roupas que ela quiser e um presente de despedida de dois koku, quando você não desejar mais seus serviços, quantia a ser depositada com o nosso banqueiro-mercador de arroz em Gyokoyama, a juros que serão seus, até o momento da despedida... tudo por escrito, assinado e registrado com o Bakufu.

A quantia era imensa, pelos padrões japoneses, extravagante, pelos europeus, considerando-se até mesmo a taxa de câmbio, que tanto favorecia os europeus. Por uma semana, ele barganhara, e só conseguira reduzir o preço em uns poucos sous. Mas todas as noites sonhava com Hana e, por isso, acabara concordando. Com o ritual devido, sete meses atrás, ela lhe fora apresentada formalmente. Aceitara-o formalmente. Os dois assinaram o contrato formalmente. Na noite seguinte, foram juntos para a cama e ela se mostrara tudo o que André imaginara. Risonha, feliz, vibrante, terna, amorosa.

— Ela foi um presente de Deus, Henri.

— Ou do demônio. A mama-san também.

— A culpa não foi sua. Um dia antes de eu receber Hana, Raiko me declarou, formalmente... o que também fazia parte do acordo de pagamento... que o passado era o passado, prometeu cuidar de Hana como sua filha e se certificar de que Hana nunca receberia outros homens, seria só minha, daquele dia em diante.

— E depois ela a matou?

André serviu-se de mais conhaque.

— Pedi a Hana para me dar os nomes dos três homens, um deles é o meu assassino, mas ela não podia... ou não queria dizer. Bati em seu rosto, a fim de arrancar os nomes, mas ela apenas gemeu, não chorou. Tive vontade de mata-la admito, mas a amava muito... e fui embora. Sentia-me como um cão raivoso, já eram três ou quatro horas da madrugada a esta altura, e fui andando pelo mar adentro. Talvez quisesse me afogar, não sei, não me lembro exatamente, mas a água fria me fez recuperar o controle. Quando retornei à casa, Raiko e as outras se encontravam em estado de choque, incoerentes. Eu deixara Hana prostrada ao sair e a encontrei numa poça de sangue, com minha faca na garganta.

— Quer dizer que ela cometeu suicídio?

— Foi o que Raiko disse.

— Mas você não acredita?

— Não sei em que acreditar — respondeu André, angustiado. — Sei apenas que tinha voltado para dizer que a amava, a sífilis era karma, não culpa sua, que me arrependia das coisas que dissera e fizera, que tudo voltaria a ser como antes... até o momento em que se tornasse patente, quando então nos mataríamos juntos...

Henri tentava pensar de maneira objetiva, seu cérebro também confuso. Nunca sequer ouvira falar da casa das Três Carpas até que os rumores sobre a morte da moça circulassem pela colônia. André sempre tivera um comportamento reservado, pensou ele, o que era um direito seu, isso não era da minha conta... até que o Bakufu tornara o caso oficial.

— Os três homens... Raiko sabe quem eram?

Atordoado, André balançou a cabeça.

— Não, não sabe, e a outra mama-san não quis lhe dizer.

— Quem é ela? Qual é o seu nome? Onde podemos encontrá-la? Vamos denunciá-la ao Bakufu, que lhe arrancará os nomes.

— Eles não se importariam; por que deveriam? A outra casa... era um ponto de encontro de revolucionários, a estalagem dos Quarenta e Sete Ronin... foi incendiada há cerca de uma semana, a mama-san teve a cabeça cortada e espetada na ponta de um chuço. Santa Mãe de Deus, Henri, o que vou fazer? Hana está morta e eu continuo vivo...

16

No início daquela tarde, o Dr. Hoag estava no cúter, seguindo para o cais da legação, em Kanagawa. Babcott mandara o aviso de que não podia se ausentar de Kanagawa, já que tinha de trabalhar na clínica ali, mas voltaria o mais depressa possível... lamento, mas não poderá ser antes de tarde da noite, mais provavelmente não antes de amanhã de manhã. Será bem-vindo se quiser vir se encontrar comigo aqui, mas esteja preparado para passar a noite, já que o tempo pode mudar...

Hoag encontrou no cais, à sua espera, um granadeiro e Lim, que usava um casaco branco, calça preta larga, sandálias e um pequeno solidéu. Assim que ele desembarcou, Hoag fez uma indolente e simbólica reverência.

— Ei, amo, Lim, garoto número um.

— Vamos esquecer essa conversa de cule em pidgin, Lim. — disse Hoag, num cantonês passável, fazendo com que os olhos do chinês se contraíssem. — Sou o Doutor em Medicina Sábio Duminado.

Esse era o nome chinês de Hoag — o significado dos dois caracteres mais próximos do som cantonês de “ho” e “ag”, selecionado entre dezenas de possibilidades por Gordon Chen, o compradore da Struan, um de seus pacientes.

Lim fitou-o fixamente, fingindo não entender, a maneira usual e mais rápida de fazer um demônio estrangeiro perder a compostura, um demônio que tivera a impertinência de aprender umas poucas palavras da língua civilizada. Aiê, pensou ele, quem é esse fornicador astuto, esse pútrido demônio vermelho comedor de mãe, com o pescoço de touro, esse macaco de cara de sapo, que tem a desfaçatez de falar a nossa língua com uma superioridade tão repulsiva...

Aiê — murmurou Hoag —, também tenho muitas e muitas palavras sórdidas para descrever a mãe de um fornicador e suas partes putrefatas, se um homem de uma aldeia de mijo de cachorro, monte de estrume, tenta me esnobar... fingindo que não me entende.

— Doutor em Medicina Sábio Iluminado? Aiê, é um bom nome! — Lim soltou uma risadinha. — Há muitos anos que não ouço um demônio estrangeiro falar tão bem.

— E em breve ouvirá mais, se eu for chamado outra vez de demônio estrangeiro. Foi Chen da Casa Nobre quem escolheu meu nome.

— Chen da Casa Nobre? — Lim ficou espantado. — Ilustre Chen, que tem mais sacos de ouro do que um boi tem pêlos? Aiê, que privilégio!