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Eu devia estar louco ao levar minha amada para aqueles invernos insuportáveis, despedido, quebrado, sem emprego, tendo de começar tudo de novo. Oh, Deus, deveria ter ficado, lutado contra a Companhia; minha competência como médico acabaria obrigando-os a me aceitarem de volta, o que nos salvaria...

As duas sentinelas deixadas no prédio bateram continência quando eles entraram. O jantar fora posto para dois.

— Scotch ou champanhe? — perguntou Babcott, para gritar em seguida: —

Lun!

— Champanhe. Quer que eu abra?

— Pode deixar comigo.

Babcott abriu a champanhe, que esperava num balde de gelo de prata georgiano.

— Saúde! LUN!

— E felicidade! Retiniram os copos.

— Perfeita! — exclamou Hoag. — Como é seu chef?

— De razoável para horrível, mas a qualidade de nossos frutos do mar é excelente, camarões, ostras, e dezenas de peixes diferentes. Onde será que Lun se meteu? — Babcott suspirou. — Aquele desgraçado precisa de uma surra. Grite com ele, está bem?

Mas a copa, onde o mordomo costumava ficar, estava vazia. Lun também não se encontrava na cozinha. Acabaram por encontrá-lo no jardim, ao lado de um caminho. Fora decapitado, a cabeça jogada para o lado. Em seu lugar, havia a cabeça de um macaco.

— Não, senhora — murmurou a mama-san, apavorada, — não pode deixar Ori-san aqui amanhã. Tem de partir ao amanhecer. Sumomo declarou:

— Sinto muito, mas Ori-san ficará até...

— Também sinto muito. Desde o ataque ao ministro-chefe Anjo, a caçada aos shishi é intensa, as recompensas por informações vão até o céu, com a pena de morte... para qualquer pessoa numa casa que os abrigue.

— Essa ordem é para Iedo, não prevalece aqui em Kanagawa — insistiu Sumomo.

— Sinto muito, mas alguém falou — disse a mama-san, os lábios contraídos. Seu nome era Noriko e as duas estavam a sós em seus aposentos particulares, na estalagem das Flores da Meia-Noite, ajoelhadas sobre almofadas púrpuras, o cômodo iluminado por velas, uma mesa baixa com chá entre elas. Noriko acabara de voltar de uma furiosa reunião com o mercador de arroz que emprestava dinheiro. Ele aumentara os juros sobre sua hipoteca de trinta para trinta e cinco por cento, alegando a situação perigosa no reino. Cão sem mãe, pensou ela, fervendo de raiva, para depois isolar o caso, e se concentrar no problema mais imediato que tinha pela frente.

— Esta manhã soubemos que os vigilantes...

— Quem?

— Os vigilantes? São patrulhas especiais de interrogatório do Bakufu, homens sem misericórdia. Chegaram durante a noite. Espero receber uma visita Sinto muito, mas ele deve partir ao amanhecer.

— Vai mantê-lo aqui até que ele fique bom.

— Mas não posso! Não depois do que aconteceu na estalagem dos Quarenta e Sete Ronin. Os vigilantes são impiedosos. Não quero esta cabeça espetada na ponta de um chuço.

— Isso foi em Iedo e estamos em Kanagawa. Esta é a estalagem das Flores da Meia-Noite. Lamento, mas Hiraga-san exigiria.

— Ninguém exige nada aqui, senhora — proclamou Noriko, a voz estridente.

— Nem mesmo Hiraga-san. Tenho que pensar em meu próprio filho e na minha casa.

— Faz muito bem. E eu tenho de pensar no amigo de meu irmão e aliado de Hiraga. Também devo lembrar do rosto de meu irmão. Estou autorizada a acertar suas dívidas.

Noriko se mostrou surpresa.

— Todas as dívidas de Shorin?

— Metade agora, a outra metade quando Sonno-joi prevalecer.

— Negócio fechado — disse Noriko, tão atordoada com a sorte inesperada, por um dinheiro que nunca imaginara que viria a receber, que cedeu na barganha.

— Mas nada de médicos gai-jin e apenas por uma semana.

— Combinado.

No mesmo instante, a moça enfiou a mão na manga, a fim de pegar a bolsa, escondida num compartimento secreto. Noriko prendeu a respiração ao ver tantas moedas de ouro.

— Aqui estão dez oban. Vai me dar um recibo, junto com sua conta detalhada, a metade da dívida, como combinamos, no momento em que formos embora. Onde Ori-san pode ficar em segurança?

Noriko se censurou por ter sido tão precipitada, mas já que concordara, agora era uma questão de honra. Enquanto considerava o que fazer, estudou a jovem a sua frente, Sumomo Anato, irmã mais nova de Shorin Anato, o shishi, o selvagem, o menino que ela iniciara no mundo dos homens, há tantos anos. Ah, quanto desejo. Que vigor para alguém tão jovem, pensou ela, com uma saudade agradável, embora imprópria. E que memorável cortesã aquela moça daria. Juntas, poderiam ganhar uma fortuna; em um ou dois anos ela casaria com um daimio e, se ainda for virgem, que preço eu poderia obter! Ela é tão bonita quanto Shorin disse, uma Satsuma clássica... segundo ele, samurai sob todos os aspectos. Linda da cabeça aos pés.

— Quantos anos tem, senhora?

Sumomo surpreendeu-se com a pergunta.

— Dezesseis.

— Sabe como Shorin morreu?

— Sei. Serei vingada.

— Hiraga lhe contou?

— Você faz perguntas demais — protestou Sumomo, a voz ríspida.

Noriko achou engraçado.

— No jogo em que nos empenhamos, você e eu, embora seja uma samurai e eu uma mama-san, somos irmãs.

— Acha mesmo?

— Acho, sim. Por isso, neste jogo tão sério de dar cobertura a nossos homens, protegê-los de sua bravura... ou estupidez, dependendo do lado em que a gente se encontra, arriscando nossas vidas para resguardá-los de seus próprios méritos, devemos ter confiança uma na outra. Confiança de irmãs de sangue. Assim, torno a perguntar: Hiraga lhe falou de Shorin?

Sumomo sabia que sua posição era delicada.

— Falou.

— Hiraga é seu amante?

Os olhos de Sumomo se contraíram.

— Hiraga é... era meu noivo, antes de... antes de partir para servir Sonno-joi.