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A mama-san piscou.

— Um samurai de Satsuma permite que sua filha fique noiva de um samurai de Choshu... quer seja shishi ou não, ronin ou não?

— Meu pai não aprovou. Nem minha mãe. Mas Shorin aceitou. E eu não aprovei a escolha que eles fizeram para mim.

— Ah, sinto muito. — Noriko ficou triste, sabendo muito bem o que significava a pressão incessante, o confinamento em sua própria casa ou até pior. — Foi proscrita de sua família?

Sumomo permaneceu imóvel, a voz se manteve calma:

— Há poucos meses, decidi seguir meu irmão e Hiraga-san, a fim de poupar meu pai dessa vergonha. Sou agora uma ronin.

— Enlouqueceu? Mulheres não podem se tornar ronin.

— Noriko — disse Sumomo, resolvendo assumir um risco —, concordo que devemos ser irmãs de sangue.

Um estilete apareceu em sua mão. Noriko piscou outra vez, aturdida, pois não vira de onde saíra o estilete. Observou Sumomo espetar seu dedo e lhe oferecer a lâmina. Sem hesitação, fez a mesma coisa. Encostaram os dedos, misturando o Sangue, e depois fizeram uma reverência solene.

— Sinto-me honrada. Obrigada, Sumomo. — Sorrindo, a mama-san devolveu o estilete. — Agora sou um pouquinho samurai, não é?

O estilete foi guardado de volta na bainha da manga.

— Quando o imperador recuperar todo o seu poder, ELE promoverá a samurais todos aqueles que merecem. Pediremos por você, Hiraga-san, Ori e eu.

Noriko fez outra reverência em agradecimento, adorando a idéia, mas convencida de que se situava além de qualquer possibilidade e de que nunca viveria para ver o inconcebível acontecer: o xogunato Toranaga cessar de existir.

— Em nome de toda a minha linhagem, obrigada. Agora... Saquê!

— Não, obrigada. Lamento muito, mas Sensei Katsumata fez com que as mulheres em sua turma renunciassem ao saquê, dizendo-nos que embotaria para sempre nossa habilidade e prejudicaria nossa mira. Por favor, onde está Hiraga-san?

Noriko observou-a, escondendo seu sorriso.

— Katsumata, o grande senseil Estudou com ele? Shorin nos contou que você sabia usar a espada, a faca e o shuriken. É verdade?

Com surpreendente rapidez, Sumomo enfiou a mão na obi, tirou um shuriken e arremessou o pequeno círculo de aço, com cinco lâminas, muito afiadas, através da sala, cravando-o no centro exato de um poste. Mal se mexera.

— Por favor, onde está Hiraga-san? — indagou ela, gentilmente.

17

IEDO

Naquela noite, hiraga comandou o ataque silencioso, passando por cima da estacada do palácio de um daimio, no segundo círculo, fora das muralhas do castelo. Correram pelo jardim para a entrada dos fundos da mansão, a noite iluminada por uma lua fria. Todos os seis homens usavam o mesmo quimono curto, preto, o traje de combate noturno, sem armadura, para não prejudicar a velocidade e o silêncio. Todos levavam espadas, facas e garrotes. Todos eram ronin de Choshu, convocados por Hiraga com urgência de Kanagawa, para o ataque daquela noite.

Em torno da mansão, havia alojamentos, estábulos e aposentos para os criados, onde normalmente deveriam estar instalados quinhentos guerreiros, a família e os criados do daimio. Só que agora se encontravam vazios. Apenas duas sentinelas sonolentas se postavam na porta dos fundos. Viram os atacantes tarde demais para darem o alarme e morreram. Akimoto tirou o uniforme de uma sentinela, vestiu-o, arrastou os corpos para as moitas e foi se juntar aos outros na varanda. Esperaram, imóveis, escutando com toda atenção. Não ouviram gritos de alerta, o que os levaria a desistir do ataque no mesmo instante.

— Não tem importância se tivermos de bater em retirada — explicara Hiraga, ao crepúsculo, quando os outros chegaram a Iedo.— Já é suficiente conseguirmos nos infiltrar tão perto do castelo. O objetivo desta noite é o terror, matar e semear o terror, para fazê-los acreditar que ninguém e nenhum lugar se encontram além do nosso alcance e de nossos espiões. O terror, entrar e sair depressa, com o máximo de surpresa e sem baixas. Esta noite é uma oportunidade excepcional. Ele sorrira, antes de acrescentar: — Quando Anjo e os anciãos cancelaram o sankin-kotai, escavaram a sepultura do xogunato.

— Vamos incendiar o palácio, primo? — perguntara Akimoto, feliz.

— Depois de matar.

— E quem é ele?

— É velho, cabelos grisalhos, baixo e magro, Utani, o ancião roju. Todos se mostraram espantados.

— O daimio de Watasa?

— O próprio. Infelizmente, nunca o vi. Alguém sabe como ele é?

— Acho que posso reconhecê-lo — dissera o jovem de dezoito anos, com uma cicatriz horrível estendendo-se pelo lado do rosto. — É esquelético, como uma galinha doente. Vi-o uma ocasião em Quioto. Quer dizer que esta noite vamos despachar um ancião para o outro mundo, nem... um daimio? Mas isso é sensacional!

Ele sorrira, coçara a cicatriz, um legado da malsucedida tentativa Choshu de capturar os portões do palácio, em Quioto, na primavera passada, antes de acrescentar:

— Utani não correrá mais para lugar nenhum depois desta noite. É louco por dormir fora das muralhas e deixar que se saiba disso! E sem guardas? Que estúpido!

Joun, de dezessete anos, sempre o cauteloso, comentara:

— Desculpe, Hiraga-san, mas tem certeza de que não é uma armadilha, preparada com uma falsa informação? Yoshi é conhecido como raposa, Anjo é ainda pior. Há altas recompensas por nossas cabeças, não é? Concordo com meu irmão: como Utani pode ser tão estúpido?

— Porque ele tem um encontro secreto. É um pederasta. Todos o fitaram, aturdidos.

— Por que ele haveria de manter isso em segredo?

— O rapaz é um dos íntimos de Anjo.

So ka! — Os olhos de Joun faiscaram. — Neste caso, acho que eu também manteria em segredo. Mas porque um rapaz bonito haveria de se entregar a alguém como Utani, quando já conta com um protetor poderoso?

Hiraga dera de ombros.

— Por dinheiro, o que mais? Nori é um avarento, Utani generoso... Os camponeses de Anjo não são os mais tributados em todo o Japão? As dívidas dele não sobem até o céu? Ele não é conhecido por consumir moedas de ouro como se fossem grãos de arroz? Muito em breve, de um jeito ou de outro, Anjo deixará este mundo. Talvez esse rapaz bonito pense que Utani sobreviverá a ele e que o risco vale a pena. Afinal, Utani tem influência na corte, não é? Koku! Por que não? Sua família deve ser miserável, afogada em dívidas... não é o que acontece com quase todos os samurais, abaixo da posição de hirazamurai, que vivem no nível de pobreza?