— Três vivas! Iocoama, aqui vou eu!
— Quando quer partir?
— Imediatamente, diz o grande pai branco, e será imediatamente. Não pode esperar. Que tal depois do almoço? Vamos sentar. Quais são as novidades em Yokopoko?
— Não há muito o que contar.
Enquanto eles se encaminhavam para as cadeiras na varanda, Hiraga se aproximou do prédio e continuou a trabalhar com a enxada. Pallidar acendeu um charuto.
— Sir William, o general e o almirante tiveram outra confrontação com o governador local e o pessoal do Bakufu, jurando que os estripariam se não apresentassem logo os assassinos de Canterbury... e agora também o de Lun, uma coisa horrível, não é mesmo? Mas só conseguiram as bajulações habituais, “sinto muito, estamos vigiando todas as estradas, todos os caminhos, para captura-los, lamentamos pelos atrasos e inconveniências.”
— Quer dizer que já sabem que são?, — perguntou Sir William.
— Oh, não, disseram os japas, mas se investigar-mos todos os documentos e vigiarmos todo mundo, talvez possamos descobri-los; Estamos fazendo tudo o que é possível, por favor, ajudem-nos, tomando mais esses dados com os revolucionários. Tudo conversa fiada! Poderiam pegá-los, se quisessem. Não passam de mentirosos.
— É terrível o que aconteceu com Lun. Macabro! Fiquei chocado. Sir William quase teve um ataque. Ainda não há a menor pista sobre como os assinos entraram em nosso prédio em Kanagawa?
— Nada, assim como também não houve na vez anterior. — Pallidar notara muitas páginas com caracteres, mas não fez qualquer comentário. — O cabo no comando foi rebaixado e ele e os outros dois receberam cinqüenta chibatadas por negligência no cumprimento do dever. Uma estupidez não se manterem em alerta total depois do outro ataque. Mas por que a cabeça de macaco?
Tyrer estremeceu.
— Sir William acha que foi porque Lun escarneceu da delegação deles, chamando-os de “macacos”, e essa foi a forma de se vingarem.
Pallidar assoviou.
— Isso significa que pelo menos um deles, sem que o nosso pessoal saiba, compreende secretamente o inglês... ou pelo menos o pidgin.
— Chegamos à mesma conclusão. — Com grande esforço, Tyrer reprimiu seu medo. — Ora, que se dane isso! Não imagina como estou satisfeito em vê-lo. Mais alguma novidade?
Pallidar observava Hiraga, mas sem muita atenção.
— O general acha que há mais do que a vista pode perceber no aumento das barricadas e movimentação das tropas nativas. Os mercadores dizem que seus contatos japoneses sussurram que todas as estradas que saem de Iedo são vigiadas, e que o verdadeiro motivo é a guerra civil. É terrível não sabermos de nada. Deveríamos estar circulando, como o tratado permite, deveríamos descobrir por nós mesmos... O general e o almirante concordam, para variar, que deveríamos operar aqui como na índia, ou em qualquer outro lugar, enviar patrulhas, talvez um ou dois regimentos, para mostrar a bandeira, procurar alguns dos reis descontentes e lançá-los contra os outros. Tem uma cerveja?
— Claro. Chen!
— Pois não, amo?
Traga uma cerveja.
Tyrer não tinha certeza se a posição militarista do amigo seria o esquema certo, nesse momento, o chefe dos jardineiros aproximou-se, parou no jardim lá embaixo e fez uma reverência profunda. Para surpresa de Pallidar, Tyrer respondeu com uma mesura, embora ligeira.
— Hai, Shikisha? Nan desu ka? Sim, Shikisha? O que você quer?
Com um espanto ainda maior, Pallidar ouviu o homem perguntar alguma coisa, ouviu Tyrer responder com fluência, a conversa prolongando-se por um momento. O primeiro homem fez outra reverência e se afastou.
— Taira-sama, domo.
— Por Deus, Phillip, que história é essa?
— Como? O velho Shikisha? Ele apenas queria saber se pode levar seu pessoal para preparar o terreno nos fundos. Sir William quer legumes frescos, couve-flor, cebola, couve-de-bruxelas, batatas cozidas e... Qual é o problema?
— Quer dizer que você fala mesmo japonês?
Tyrer riu.
— Claro que não, mas passei dez dias retido aqui, sem nada para fazer, e me empenhei em aprender algumas palavras e frases. E, para ser franco, embora Sir William possa me aplicar a lei da insubordinação por ser tão intrometido, estou gostando imensamente. Sinto o maior prazer em ser capaz de me comunicar.
O rosto de Fujiko aflorou em sua mente, todos os contatos com ela, as horas que passara em sua companhia... a última vez há dez dias, quando voltara a Iocoama por um dia e uma noite. Um hurra para Sir William, porque ainda esta noite ou amanhã, tornarei a vê-la, e isso é maravilhoso.
— Maravilhoso! — exclamou ele, sem pensar, radiante. Uma pausa, e se apressou em acrescentar: — Ah... gostaria de tentar aprender a falar, ler e escrever a língua. O velho Shikisha me ensinou várias palavras, a maioria de seu trabalho. Já Ukiya...
Ele apontou para Hiraga, que trabalhava com a maior diligência, sempre por perto, sem saber que “Ukiya” era um pseudônimo e significava apenas “jardineiro”.
— ...ele está me ajudando com a escrita. Até que é bastante inteligente para um japonês.
Durante uma aula de escrita no dia anterior, ele conferira os rumores que ouvira, pedindo-lhe, com os sinais e palavras que Poncin lhe ensinara, que Ukiya escrevesse os caracteres para “guerra”, senso, e “logo”, jiki-ni. Depois, combinara suas toscas tentativas de escrita com “guerra, no Nipão, logo. Por favor?”
Percebera uma súbita mudança e surpresa.
— Gai-jin toh nihon-go ka? Estrangeiros e japoneses?
— Iyé, Ukiya. Nihonjin to nihonjin. Não, Ukiya, japoneses e japoneses.
O homem soltara uma risada repentina. Tyrer constatara como ele era bem-apessoado, diferente dos outros jardineiros, e especulara por que parecia muito mais inteligente do que os companheiros, embora a maioria dos trabalhadores japoneses, ao contrário dos equivalentes britânicos, soubesse ler e escrever.
— Nihonjin tsuneni senso nihonjin! Japoneses estão sempre lutando com japoneses.
Ukiya arrematara a resposta com outra risada, e Tyrer rira também, simpatizando cada vez mais com o homem. Agora, ele sorriu para Pallidar.
— Mas quais são as outras novidades? Nada de negócios, por favor. Como está Angelique?
Pallidar soltou um grunhido.
— Interessado nela, hem? — indagou ele, em tom incisivo, saboreando interiormente a ironia.
— Nem tanto. — respondeu Tyrer, no mesmo tom, também zombeteiro, o que fez os dois rirem.
— Amanhã é a festa de noivado.
— Malcolm é que é um homem de sorte! Graças aDeus fui liberado de minha missão aqui. Detestaria perder essa festa. Como ela está?