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— Linda, como sempre. Nós a recebemos como convidada de honra no rancho. Ela chegou como uma deusa, escoltada pelo ministro francês, um idiota pomposo e o tal de André Poncin... não gosto de nenhum dos dois. Foi...

— André até que é simpático... está me ajudando muito com o meu japonês.

— Pode ser, mas não confio nele. Há um longo artigo no Times sobre o iminente conflito europeu: França e provavelmente a Rússia contra a Alemanha. Seremos arrastados à guerra outra vez.

— Eis aí uma guerra que podemos dispensar. Mas o que aconteceu?

Um enorme sorriso.

— Foi uma noite espetacular. Dancei uma vez com ela. Maravilhoso! Uma polca... dancei com o coração na boca. Bem perto dela... mas sem ser desrespeitoso. Posso dizer que seus seios são como leite e mel, e seu perfume...

Por um instante, Pallidar reviveu aquele momento inebriante, o centro das atenções na pista de dança construída as pressas, Angelique a única mulher presente, a iluminação de velas e lampiões a óleo, a banda da guarda tocando com a maior animação, a dança se prolongando, o casal perfeito, todos consumidos pelo ciúme.

— Não me importo de admitir que sinto inveja de Struan.

— Como ele está?

— Ahn... Struan? Um pouco melhor, pelo que dizem. Não o tenho visto ultimamente, mas fui informado que já se levanta. Perguntei a Angelique, mas ela se limitou a dizer que ele está muito melhor.

Uma pausa, com outro sorriso radiante.

— O novo médico, Dr. Hoag, médico da família, assumiu os cuidados. Soube que ele é excelente.

Pallidar terminou sua cerveja. Outra foi estendida pelo sempre atento Chen, Risonho e rotundo, um padrão de Lim, e também um primo distante do compradore da Struan.

— Obrigado. — Pallidar tomou um gole, satisfeito. — Uma excelente cerveja.

— É local. Ukiya diz que os japoneses a produzem há anos, a melhor de Nagasáqui. Imagino que a copiaram de alguma cerveja portuguesa, há muitos anos.

Pallidar olhou para Tyrer, pensativo.

— O que acha da história do assassino de Hoag? Da operação, a moça misteriosa?

— Não sei o que pensar. Pensei ter reconhecido um deles, lembra? O sugeito foi ferido no mesmo lugar. Tudo combina. É uma pena que você e Marlowe não conseguiram pegá-lo. Irônico se um dos nossos o curou, para que ele possa assassinar mais alguns de nós.

Tyrer baixou a voz, pois sempre havia criados por perto, sem falar nos soldados.

— Aqui entre nós, meu caro, Sir William está mandando vir mais soldados nos navios de Hong Kong.

— Também já soube. Haverá guerra em breve ou teremos de interferir se eles começarem a lutar entre si...

Hiraga escutava com a maior atenção, enquanto se agachava e capinava; embora perdesse muitas palavras, captou o essencial; a notícia confirmou suas crescentes preocupações.

Após atearem fogo à mansão de Utani, ele e seus amigos haviam alcançado a segurança da casa próxima sem incidentes. Todo e os outros queriam voltar a Kanagawa assim que as barreiras fossem abertas, ao amanhecer, e logo partiram. Hiraga, Joun e Akimoto decidiram permanecer escondidos, em habitações separadas, aguardando uma oportunidade de atacarem a legação.

Naquela mesma manhã, com rapidez incrível, sem precedentes, o Bakufu dobrara as barreiras na Tokaidô, estendera seu controle a todas as outras quatro estradas principais, a todos os caminhos e até trilhas que saíam de Iedo. Com o aumento da vigilância, eles se encontravam confinados ali, junto com todos os outros shishi e antagonistas na capital.

Quatro dias atrás, a mama-san Noriko enviara uma carta de Kanagawa, dizendo que, por causa do incremento da atividade hostil, aquela era sua primeira oportunidade, falando sobre Ori, Sumomo e o médico gai-jin, arrematando:

Ainda não há sinal de Todo e dos dois outros shishi — desapareceram sem deixar vestígios. Sabemos que passaram pela primeira barreira, entretanto nada mais. Receamos que tenham sido traídos e que vocês também foram denunciados. Fujam enquanto podem. Ori se torna mais e mais forte a cada dia, seu ferimento continua limpo. Mandei-o para a segurança perto de Iocoama, o último lugar em que o Bakufu deve esperar encontrá-lo. Sua dama se recusa a partir sem uma ordem sua... mande-a imediatamente, pois receio que minha casa esteja sendo vigiada. Se formos atacados, procure notícias de Raiko, da Casa das Três Carpas, em Iocoama. A notícia do assassinato de Utani espalhou-se depressa por todo o Nipão, semeando o terror. Sonno-joi!

Ele começara a escrever uma resposta, mas o mensageiro de Noriko ficara com medo.

— Chegar aqui foi terrível, Hiraga-san. Os guardas nas barreiras ordenam que todos tirem as roupas, homens e mulheres, até mesmo crianças, à procura de mensagens escondidas nas tangas. Aconteceu comigo.

— E como escapou?

O mensageiro apontara para seu traseiro.

— Guardei a mensagem num pequeno tubo de metal, Hiraga-san. Não quero correr esse risco de novo, já que alguns guardas conhecem os segredos dos contrabandistas. Por favor, confie em mim com uma mensagem falada.

— Pois então transmita à sua ama meus agradecimentos e esperança de que tudo corra bem e que mande Sumomo-san se apresentar imediatamente a Shinsaku.

Hiraga usara o nome particular de seu pai, que apenas ela conheceria, e assim teria certeza de que a ordem de voltar para casa partira dele. Pagara o homem e concluíra:

— Tome cuidado.

— Karma.

Isso mesmo, karma, pensou Hiraga, voltando a se concentrar nas palavras estrangeiras, contente por Ori estar vivo, apreciando a ironia de que um gai-jin o salvara para que pudesse matar mais gai-jin, como ele próprio mataria aqueles dois. Quando eles se retirarem, durante a confusão da partida, posso fazer isso, se não os dois, pelo menos um deles, quem quer que seja o primeiro alvo. Que todos os deuses, se é que existem, velem e guardem Sumomo. Ainda bem que ela resistiu a seus pais, foi para a casa dos meus pais em Choshu, depois para Kanagawa, e teve a coragem de me acompanhar na batalha... será uma mãe digna para as minhas gerações, se for esse o meu karma. Portanto, é melhor que volte agora para a segurança de casa. Melhor que esteja em Choshu, longe do perigo...

Seus ouvidos captaram a palavra “Shimonoseki”. O oficial gai-jin falava com a maior loquacidade, parecia bastante excitado. Embora perdesse a maioria das palavras, Hiraga deduziu que canhões haviam sido disparados contra alguns navios, nos estreitos, matando uns poucos marujos, e todos os gai-jin estavam furiosos, porque os estreitos eram essenciais para sua navegação.

É isso mesmo, pensou Hiraga, com um sombrio divertimento, é exatamente por isso que nunca terão os nossos estreitos. Com os canhões de que já dispomos agora, podemos fechá-los e mantê-los fechados, contra qualquer esquadra estrangeira... e muito em breve nossa fábrica de armamentos, construída e projetada pelos holandeses, estará moldando canhões de sessenta libras, numa média de três por mês, junto com todos os acessórios!