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— Não compreendo. Uma busca como?

— Quer olhar dentro de sua casa, tudo.

— Compreendo entrar. Por quê?

— Já disse, uma busca...

— Ei, você, jardineiro! — gritou o oficial dos samurais.

Hiraga teve um sobressalto, uma onda de raiva percorreu seu corpo. Pela primeira vez na vida, ali, o centro das atenções, de joelhos na frente de um gai-jin sabendo que sob o chapéu usava um turbante tosco, que se fosse tirado revelaria a cabeça raspada e o penacho de samurai, ele sentiu um súbito e doentio medo.

— Ei, você, jardineiro! — gritou Uraga de novo, tornando a sacudir os portões. — Diga a esse tolo que só quero procurar por assassinos... assassinos shishi!

Desesperado, Hiraga murmurou:

— Taira-sama, os samurais querem entrar, olhar para todos. Diga a eles que estão indo embora, e depois poderão entrar.

— Não compreendo. Ukiya, vá até lá! — Tyrer apontou para os portões. — Diga a eles para irem embora!

— Não posso! Não posso! — sussurrou Hiraga, tentando pôr a mente para funcionar, superar a náusea.

— Phillip — interveio Pallidar, o suor manchando as costas do uniforme — o que ele está tentando lhe dizer?

— Não sei.

A tensão aumentou, enquanto o oficial dos samurais sacudia mais uma vez os portões, exigindo que lhe permitissem a entrada. Seus homens se adiantaram e seguraram as barras para ajudá-lo. Estimulado à ação, Pallidar chegou mais perto. Friamente, bateu continência. O homem fez uma reverência com a mesma frieza. Depois, em voz pausada, Pallidar declarou:

— Isto é território britânico. Eu lhes ordeno que se retirem em paz ou aceitem as conseqüências.

O oficial fitou-o em silêncio, aturdido por um instante, depois reiterou, com palavras e atos, que deviam abrir os portões... e depressa.

— Retirem-se daqui! — Sem se virar, Pallidar gritou: — Dragões apenas preparar para uma rajada!

No mesmo instante, os dez dragões se adiantaram, em formação, postaram-se em duas fileiras diante dos portões, a da frente ficou de joelhos, as dez travas de segurança foram puxadas ao mesmo tempo, os cartuchos colocados, os rifles apontados. No repentino silêncio, Pallidar desafivelou seu coldre.

— Retirem-se!

Abruptamente, o oficial dos samurais desatou a rir, e o riso espalhou-se pela multidão.

Havia centenas de samurais, outros milhares nas proximidades, e mais outros milhares ao fácil alcance. Mas nenhum deles jamais testemunhara a carnificina que uns poucos soldados ingleses, resolutos e disciplinados, podiam afligir com seus rifles de carregar pela culatra, rápidos e fáceis de usar.

Tão depressa quanto se espalhou, o riso cessou. Os dois lados esperavam pelo inevitável primeiro movimento. Uma expectativa frenética dominou a todos: Será a morte, shi kiraru beki, Deus Todo-Poderoso, Namu Amida Butsu...

Hiraga lançou um olhar rápido para Tyrer, percebeu seu desamparo atordoado e praguejou interiormente, sabendo que a qualquer momento o oficial deveria ordenar o ataque, para resguardar as aparências, em meio à hostilidade crescente lá fora. Antes que Hiraga pudesse se conter, seu mecanismo de auto-sobrevivência decidiu assumir um risco e ele se ouviu sussurrar, em inglês... embora nem uma única vez antes tivesse dado a Tyrer qualquer indicação de que conhecia a língua:

— Por favor, confie... por favor, diga palavras... Sencho... doz...

Tyrer ficou espantado.

— Como? Você disse “confie”?

Comprometido agora, o coração disparado, torcendo para que os dois oficiais britânicos ali perto estivessem tão concentrados no exterior não o ouviriam, Hiraga sussurrou, hesitante, a pronúncia por pouco incompreensível, o impossível para ele:

— Por favor, quieto. Perigo. Finja palavras suas. Diga Sencho, dozo shizuka ni... diga palavras!

Doente de medo, ele esperou por um instante, sentindo que a tensão dos samurais lá fora estava prestes a explodir, e logo insistiu, em inglês, como uma ordem:

— Diga palavras agora! Agora! Sencho... dozo shizuka ni... Depressa! Quase fora de si, Tyrer obedeceu:

— Sencho, dozo shizuka ni...

Repetiu as palavras com precisão, estas e as subsequentes, sem saber o que dizia, e esforçando-se para pôr em perspectiva o fato de que aquele jardineiro sabia falar inglês, e que isso não era um sonho. Em poucos segundos, ele constatou que as palavras surtiam algum efeito. O oficial dos samurais gritou por silêncio. A tensão diminuía na praça. De vez em quando, o oficial, escutando-o com o máximo de atenção, murmurava “Hai, wakatta”. Sim, eu compreendo. A coragem de Tyrer voltou e ele se concentrou em Hiraga e no oficial japonês. As palavras logo terminaram, com um “Domo”.

No mesmo instante, o oficial dos samurais iniciou uma resposta. Hiraga esperou até que terminasse e sussurrou:

— Balance cabeça. Diga Iyé, domo, faça uma reverência rápida e volte para Casa. Ordene eu ir também.

Mais controlado agora, Tyrer sacudiu a cabeça com firmeza. “Iyé, domo!”

Sentindo-se muito importante, num silêncio respeitoso, o centro do mundo, ele encaminhou-se para a casa, parou em súbita confusão, virou-se e gritou em inglês:

— Ukiya, venha comigo... oh, Deus!

Frenético, Tyrer procurou pela palavra japonesa, encontrou-a e acrescentou:

Ukiya, isogi!

Ainda quase rastejando, Hiraga seguiu-o. No alto dos degraus, a fim de que só Tyrer pudesse ouvi-lo, abaixado numa posição subserviente, de costas par todos os olhos, ele disse:

— Por favor, ordem outros homens, agora seguro. Dentro casa, depressa, por favor.

Obediente, Tyrer gritou:

— Capitão Pallidar, mande seus homens recuarem. A situação já é segura agora!

Dentro da legação, fora das vistas dos outros, o alívio pálido de Tyrer transformou-se em raiva.

— Quem é você? O que me mandou dizer ao samurai?

— Explicar depois, Taira-san. Samurai queria busca, você, outros homens, queria levar armas.

Hiraga truncava as palavras, ainda não recuperado do próprio medo. Empertigou-se agora, fitou Tyrer nos olhos, não tão alto, mas igualmente suado, sabendo que ainda não escapara da armadilha.