— Capitão muito zangado, quer armas, levar armas, quer procurar... inimigo do Bakufu. Você dizer ele: “Não, capitão, kinjiru, proibido procurar. Hoje eu e homens sair daqui, depois procura. Agora não, kinjiru. Guardamos armas quando ir embora. Kinjiru proibido deter nós. Obrigado. Agora preparar ir para Iocoama.
— Foi isso que eu disse?
— Sim. Por favor, agora lá fora, ordenar jardineiros voltar trabalho, muito zangado. Palavra hataraki-mashoi. Falar depois, em segredo, você e eu, sim?
— Sim, mas não a sós, com um oficial presente.
— Então não falar, sentir muito.
Hiraga tornou a assumir sua posição subserviente e saiu da sala, de costas, o diálogo tendo durado apenas uns poucos segundos. Mais uma vez caiu de joelhos diante de Tyrer, o traseiro virado para o pátio. Apreensivo, Tyrer saiu para a luz-Viu que todos ainda aguardavam.
— Capitão Pallidar... e capitão McGregor, digam a seus homens que podem recuar e, depois, juntem-se a mim para uma conferência. Hataraki-mashoi-Ikimasho! Voltem ao trabalho! Depressa!
As ordens finais foram endereçadas aos jardineiros, que trataram de obedecer.Agradecido, Hiraga fugiu para a segurança do jardim e murmurou para que os jardineiros lhe dessem cobertura. Oficiais e sargentos começaram a berrar ordens e o tumulto recomeçou.
Indiferente a tudo, Tyrer ficou na varanda, observando Hiraga, indeciso.
Consternado por saber que se tratava de um espião, mas ao mesmo tempo abençoando-o por salvar a todos.
— Queria falar conosco? — indagou Pallidar, interrompendo seu devaneio.
— Quero, sim... por favor, acompanhem-me.
Ele levou-os para sua sala, fechou a porta e explicou o que dissera ao chefe dos samurais. Ambos lhe deram os parabéns.
— Foi impressionante, Phillip — comentou Pallidar. — Por um momento pensei que teríamos uma confrontação; só Deus sabe o que poderia acontecer. Havia patifes demais... e acabariam nos dominando. Mais cedo ou mais tarde. Claro que a esquadra nos vingaria, mas estaríamos sob as margaridas, um pensamento nada agradável.
— Mais do que desagradável — murmurou o capitão McGregor, olhando em seguida para Tyrer. — O que quer que façamos agora, senhor?
Tyrer hesitou, espantado por nenhum dos dois ter ouvido o inglês de Hiraga, mas satisfeito com sua nova estatura... pois era a primeira vez que McGregor o tratava por “senhor”.
— É melhor obedecermos a Sir William. Ordenem que todos arrumem suas coisas... mas sem dar a impressão de que é uma retirada ignominiosa. Não podemos deixar que fiquem com nossas armas... que desfaçatez!... ou fazê-los pensar que estamos fugindo. Vamos sair marchando, com toda pompa, a banda tocando.
— Perfeito! Depois de baixarmos a bandeira, com a devida cerimônia.
— Combinado. Agora, é melhor eu... eu verificar se todos os documentos já foram encaixotados.
O capitão McGregor disse:
— Posso sugerir, senhor... Acho que merece uma taça de champanhe... e creio que ainda nos restam algumas garrafas.
— Obrigado — respondeu Tyrer, radiante. — Talvez possamos... ora, vamos servir também uma ração de rum a todos os homens. E também faremos uma refeição leve antes da partida... vamos mostrar a eles que ninguém pode nos obrigar a uma partida precipitada.
— Organizarei tudo imediatamente — disse McGregor. — Foi muito hábil de sua parte chamar aquele jardineiro para ajudá-lo com as palavras. Algumas até pareciam inglesas. Mas por que queriam revistar a legação?
— Para descobrir... para procurar inimigos do Bakufu. Os dois ficaram aturdidos.
Mas não há japas aqui, à exceção dos jardineiros, se é mesmo que eles queriam.
Tyrer sentiu o coração bater mais forte, pois isso incriminava Ukiya, mas Pallidar logo acrescentou:
Não vai permitir que eles revistem a nossa legação, não é? Isso criaria um precedente perigoso. A fleuma desapareceu; Pallidar tinha toda razão.
Precedente perigoso.
— Droga! Não pensei nisso na ocasião! McGregor rompeu o silêncio:
— Antes de partirmos, senhor, talvez pudesse convidar o oficial dos samurais a dar uma volta conosco, inspecionando a legação. Não haveria nada de errado em convidá-lo. Ele pode interrogar os jardineiros nesse momento ou podemos dispensá-los, antes de irmos embora, e trancarmos os portões.
— Uma solução perfeita — concordou Pallidar, satisfeito.
Hiraga tirava as ervas daninhas de um canteiro, perto de uma porta lateral da legação, junto a uma janela aberta, suado e sujo, o sol do fim de tarde ainda quente A bagagem estava sendo empilhada em carroças no pátio, cavalos arreados, alguns soldados já haviam assumido suas posições de marcha. Sentinelas patrulhavam os muros. Lá fora, os samurais se agachavam sob sombrinhas, olhavam ao redor soturnos.
— Agora!
A voz de Tyrer veio da sala. Hiraga certifícou-se de que não era observado, abaixou-se entre as moitas e abriu a porta. Apressado, Tyrer seguiu na frente até uma sala que dava para o pátio e trancou a porta depois que entraram. As cortinas nas janelas fechadas filtravam a luz do sol. Uma escrivaninha e umas poucas cadeiras, rolos de documentos, arquivos, e um revólver na mesa. Tyrer sentou por trás da mesa e indicou uma cadeira.
— Por favor, sente-se. E agora me diga quem é você.
— Primeiro, segredo eu falar inglês, hem?
Hiraga permaneceu de pé, empertigado em toda a sua altura, de certa forma ameaçador.
— Primeiro me diga quem é você, depois decidiremos.
— Não, sentir muito, Taira-san, ser útil você, salvar homens. Muito útil. Verdade, neh ?
— Sim, é verdade. Por que devo manter em segredo?
— Seguro eu... também você.
— Por que eu?
— Talvez não sábio ter... como vocês dizer... ah, sim... segredo outros gai-jin não saber. Eu muito útil. Ajudar aprender língua, aprender sobre Nipão. Eu dizer verdade, você dizer verdade também, você me ajudar, eu ajudar você. Qual idade. por favor?
— Tenho vinte e um anos.
Hiraga disfarçou sua surpresa e sorriu por baixo da aba do chapéu. Era muito difícil calcular a idade dos gai-jin, já que todos pareciam iguais. Quanto à arma que seu inimigo pusera em cima da mesa, era cômica. Poderia matar aquele tolo com as mãos antes que ele pudesse alcançá-la. Seria muito simples, e era bastante tentador, o lugar perfeito, fácil de escapar... mas depois que saísse, não seria tão fácil escapar dos samurais.