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— Guardar segredo?

— Quem é você? Seu nome não é Ukiya, não é mesmo?

— Prometer segredo?

Tyrer respirou fundo, avaliou as conseqüências e deparou com o desastre por todos os lados.

— Concordo.

Seu coração disparou quando Hiraga tirou a lâmina da aba do chapéu, e se censurou por ter sido tão descuidado para assumir aquele risco.

— Perdido por um, perdido por mil — murmurou ele.

— Quê?

— Nada.

Ele observou Hiraga espetar o dedo e depois lhe estender a faca.

— Agora você, por favor.

Tyrer hesitou, sabendo o que estava para acontecer, mas, tendo tomado sua decisão, deu de ombros e obedeceu. Solene, Hiraga encostou seu dedo no de Tyrer, misturando o sangue de ambos.

— Jurar por deuses manter segredo sobre você. Dizer mesma coisa pelo deus cristão, por favor, Taira-san.

— Juro por Deus que manterei segredo por tanto tempo quanto eu puder — declarou Tyrer, solene, perguntando-se para onde o julgamento o levaria. — Onde aprendeu inglês? Numa escola missionária?

Hai, mas eu não cristão.

Não era seguro falar sobre as escolas de Choshu, pensou Hiraga, nem sobre o Sr. Grande Cheiro, o holandês, nosso professor de inglês, que dizia ter sido um padre antes de se tornar pirata. A verdade ou mentira para Taira não tinha a menor importância, já que ele é gai-jin, um líder menor do nosso mais poderoso inimigo externo, e por isso alguém a ser usado, desconfiado, odiado e morto, no momento mais conveniente.

— Ajudar eu escapar?

— Quem é você? De onde veio? Seu nome não é Ukiya. Hiraga sorriu, acomodou-se numa das cadeiras.

— Ukiya significar jardineiro, Taira-san. Nome família Ikeda. — Ele disse a mentira com a maior facilidade. — Nakama Ikeda, eu quem oficial procurar. Eu vinte dois anos.

— Por quê?

— Porque eu e família, de Choshu, lutar contra Bakufu. Bakufu tomar poder do imperador e...

— Está se referindo ao xógum?

Hiraga sacudiu a cabeça.

— Xógum ser Bakufu, chefe do Bakufu. Ele... — Depois de pensar por um momento, Hiraga imitou um títere suspenso de cordões. — Entender?

— Títere?

Sim, títere, tyrer se surpreendeu.

— O xógum é um títere?

Hiraga acenou com a cabeça, mais confiante agora que se comunicava precisando se esforçar para recordar as palavras.

— Xógum Nobusada, menino, dezesseis anos, títere Bakufu. Ele viver Iedo imperador viver Quioto. Agora imperador sem poder. Mais de duzentos anos xógum Toranaga tomar poder. Lutamos tirar poder do xógum e Bakufu, devolver imperador.

A mente de Tyrer, latejando de tanta concentração — era difícil entender a fala do homem —, compreendeu no mesmo instante as profundas implicações.

— Esse menino xógum, que idade ele tem, por favor?

— Xógum Nobusada dezesseis anos. Bakufu dizer o que ele fazer. — Hiraga fez um esforço para conter sua irritação, sabendo que devia ser paciente. — Imperador muito poder mas não...

Ele procurou pela palavra certa, não conseguiu encontrá-la e tratou de explicar de outra maneira:

— Imperador não como daimio. Daimio ter samurai, ter arma, muito. Não poder fazer Bakufu obedecer. Bakufu ter exércitos, imperador não, wakatta?

— Hai, Nakama, wakatta.

Mil perguntas esperavam para ser formuladas. Tyrer sabia que aquele homem podia ser um poço de informações a ser esvaziado, mas devia agir com cautela, não naquele lugar. Percebeu a intensa concentração no rosto do homem e especulou o quanto do que dissesse Nakama poderia compreender. Lembrou a si mesmo para falar devagar, da maneira mais simples possível.

— Quantos de vocês lutam contra o Bakufu!

— Muitos.

Hiraga bateu com a mão num mosquito errante.

— Centenas, milhares? Que tipo de pessoas... pessoas comuns, jardineiros, trabalhadores, mercadores?

Hiraga se espantou com a pergunta.

— Eles nada. Só samurais servir. Só samurais lutar. Só samurais ter armas. Kinjiru outro ter armas.

Tyrer tornou a piscar, aturdido.

— Você é samurai?

Mais espanto de Hiraga.

— Samurai lutar. Eu dizer lutar Bakufu, sim? Nakama samurai!

Hiraga tirou o chapéu, removeu o pano sujo, manchado de suor, que servia como turbante, para revelar a cabeça raspada, com o penacho. Agora que podia ver seu rosto com clareza, pela primeira vez sem o chapéu de cule, e também a primeira vez em que o observava com mais atenção, Tyrer constatou que ele possuía os mesmos olhos frios do guerreiro de duas espadas, e que tinha uma vasta diferença dos aldeões na estrutura óssea.

— Quando Shenso, capitão samurai ver eu assim, eu morrer.

Tyrer balançou a cabeça, em confusão.

— Ajudar eu escapar. Por favor, dar eu roupa soldado.

Tyrer encontrava a maior dificuldade para impedir que seu excitamento e horror transparecessem no rosto. Parte dele queria desesperadamente fugir daquela situação mas a outra estava ansiosa em obter todas as informações que pudesse daquele samurai, um conhecimento que poderia ser — não, que seria — uma chave fundamental para abrir o mundo do Nipão, assim como seu próprio futuro, se manipulasse tudo da maneira correta. No momento em que já ia anunciar sua concordância, lembrou-se da advertência anterior de Sir William; e, agradecido, demorou um pouco para recuperar o controle.

— Fácil eu escapar, sim? — insistiu Hiraga, impaciente.

— Não fácil, mas possível. E arriscado. Primeiro, tenho de me convencer de que vale a pena salvá-lo.

Tyrer percebeu o súbito ímpeto de raiva... talvez fosse raiva junto com medo, não pôde determinar. Por Deus, um samurai! Gostaria que Sir William estivesse aqui, pois estou acima do meu nível.