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— Não pense que eu não posso...

— Por favor — murmurou Hiraga, suplicante, sabendo que aquela era a sua única chance real de escapar da armadilha, mas pensando: Depressa, concorde logo, ou vou matá-lo e tentar escapar pulando o muro. — Nakama jurar por deuses ajudar Taira-san.

— Jura solenemente pelos seus deuses que responderá a todas as minhas perguntas com a verdade?

— Hai — respondeu Hiraga no mesmo instante, atônito por Tyrer ser tão ingênuo a ponto de fazer uma pergunta a um inimigo ou acreditar em sua resposta afirmativa. Ele não pode ser tão estúpido assim, não é? Que deus ou deuses? Não existe nenhum. — Por deuses, eu jurar.

— Espere aqui. Tranque a porta e só a abra para mim.

Tyrer pôs o revólver no bolso, saiu à procura de Pallidar e McGregor, levando-os para um canto.

— Preciso de ajuda. Descobri que Ukiya é um dos homens procurados pelos samurais, uma espécie de dissidente. Quero disfarçá-lo como um soldado e tirá-lo daqui quando partirmos.

Os dois oficiais se mostraram surpresos. McGregor foi o primeiro a se manifestar:

— Desculpe, senhor, mas acha que isso é sensato? Afinal, o Bakufu é o governo legal e se formos descobertos...

— Isso não vai acontecer. Apenas vamos vesti-lo de soldado e colocá-lo no meio dos outros. O que acha, Settry?

— Podemos fazer isso, Phillip, mas se ele for reconhecido, e se nos detiverem será como navegar contra a correnteza sem remo.

— Tem alguma sugestão alternativa? — indagou Tyrer, o nervosismo patente na voz, à medida que aumentava o excitamento e o medo. — Quero tirá-lo daqui. Sem a ajuda dele, provavelmente estaríamos todos mortos. Além disso, ele pode se muito útil para nós.

Apreensivos, os dois oficiais trocaram um olhar e tornaram a fitar Tyrer.

— Lamento, mas é perigoso demais — disse Pallidar.

— Não acho! — protestou Tyrer, a voz ríspida, a cabeça latejando. — Quero que seja feito! É uma questão de extrema importância para o governo de sua majestade e ponto final!

McGregor suspirou.

— Certo, senhor. Capitão, o que acha de levá-lo num cavalo?

— Como um dragão? Uma idéia absurda. Um jardineiro não sabe montar. É muito melhor que ele marche, no meio dos sol...

— Cinqüenta libras contra um quarto de penny como o patife não será capaz de manter o passo. Será tão óbvio quanto uma prostituta com a ceroula de um bispo!

Tyrer interveio:

— Podemos metê-lo num uniforme, cobrir seu rosto e mãos com ataduras, carregá-lo numa maca... fingindo que ele está doente.

Os oficiais ficaram radiantes.

— Boa idéia!

— Ainda melhor — acrescentou Pallidar, jovial. — Podemos fingir que ele tem alguma doença horrível... varíola... sarampo... a peste!

Todos riram, em uníssono.

O oficial samurai e os guardas que receberam permissão para entrar na legação, agora vazia, seguiram Tyrer, McGregor e quatro dragões pela casa. A busca foi meticulosa, cada cômodo, cada armário, até mesmo o sótão. Ao final, ele ficou satisfeito. No vestíbulo, havia duas macas, um soldado em cada uma, ambos febris, ambos enfaixados, um parcialmente, outro por completo, Hiraga, cabeça, pés e mãos, nada aparecendo fora do uniforme encharcado de suor.

— Dois muito doentes — disse Tyrer, em japonês, as palavras informadas por Hiraga. — Este soldado tem doença de pústulas.

A simples menção fez com que o samurai empalidecesse e recuasse um passo. As erupções de varíola eram endêmicas na cidade, mas nunca tão terríveis quanto na China, onde centenas de milhares de pessoas morriam.

— Isto... isto deve ser comunicado — murmurou o oficial samurai.

Ele e seus homens cobriram a boca, pois todos acreditavam que a infecção e a disseminação da doença eram causadas por respirar o ar contaminado perto de um sofredor. Tyrer não compreendeu e limitou-se a dar de ombros.

— Homem muito doente. Não chegar perto.

— Claro que não chegarei perto dele. Pensa que sou louco?

O homem saiu para a varanda e disse em voz baixa aos homens que acompanhavam:

— Não digam uma só palavra a respeito para os outros na praça, pois pode haver pânico. Cães estrangeiros repulsivos. Mas fiquem de olhos abertos. O tal de Hiraga se encontra em algum lugar por aqui.

Eles revistaram o terreno e as privadas externas, enquanto os funcionários da legação e os soldados, parados na sombra, aguardavam impacientes o momento de iniciar a marcha até o cais, onde embarcariam nos barcos à espera. Finalmente satisfeito, o oficial samurai fez umareverência e recuou pelos portões. Os samurais ainda se concentravam lá fora, Joun amarrado na frente, os apavorados jardineiros ajoelhados em fila, todos sem chapéu, nus. Quando o oficial se aproximou, eles se inclinaram ainda mais para o chão.

— Levantem-se! — gritou o homem, furioso.

Irritara-se ao constatar, quando ordenou que tirassem as roupas, que nenhum deles tinha a cabeça raspada com o penacho de um samurai, nem cortes de espada, ferimentos ou outros sinais que indicavam a condição de samurai. Por isso, fora forçado a concluir que sua presa ainda se encontrava lá dentro ou escapara. Agora, sua raiva era ainda maior e foi bater com os pés na frente de Joun.

— Para se disfarçar, o ronin Hiraga raspou a cabeça ou deixou que seus cabelos crescessem, como um desses jardineiros ordinários. Identifique-o!

Joun estava de joelhos, espancado, quase à morte. Fora torturado até desmaiar, fizeram-no recuperar os sentidos e o torturaram de novo, por ordem de Anjo.

— Identifique esse Hiraga!

— Ele... ele não está aqui.

O jovem soltou um grito quando o pé do oficial, duro como ferro, atingiu suas partes mais sensíveis, duas vezes. Os jardineiros tremiam, apavorados.

— Ele não... está aqui...

Outra vez o golpe impiedoso. Numa agonia desesperada, impotente, fora de si, Joun apontou para um rapaz, que se prostrou no chão, clamando sua inocência.

— Façam-no calar! — berrou o oficial. — Levem-no à presença do juiz e, de lá, para a prisão! Crucifiquem o canalha! Levem todos, pois são culpados de esconder Hiraga!

Os jardineiros foram arrastados dali, aos gritos, o rapaz berrando que vira Hiraga antes, perto da casa, e que mostraria o lugar, se o deixassem, mas ninguém lhe prestou atenção. Não demorou muito para que todos os gritos fossem reprimidos, brutalmente.

O oficial limpou o suor do rosto, convencido de que cumprira suas ordens. Tomou um gole de água de uma garrafa, bochechou e cuspiu, para limpar a boca, depois bebeu, satisfeito.