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Ele estremeceu. A doença das pústulas! Uma doença gai-jin, trazida de fora! Tudo que é pútrido vem de fora, os gai-jin devem ser expulsos e mantidos a distância para sempre. Furioso, ele observou a banda que começava a tocar, os soldados se preparando para a marcha, sua mente ainda concentrada no shishi que procurava.

Não era possível que aquele jardineiro fosse um famoso shishi, o Hiraga. Karma que meus homens e eu chegássemos tarde demais naquele dia, para vê-lo e aos outros que escaparam. Não karma, apenas Deus velava por mim. Se eu os tivesse visto, não poderia fingir aceitar o que Joun indicou. Onde se encontra esse Hiraga? Está escondido em algum lugar. Por favor, Deus, ajude-me.

A vida é curiosa. Odeio os gai-jin, mas acredito em seu deus, Jesus, embora secretamente, como meu pai e o pai dele antes. Isso mesmo, acredito no deus Jesus a única coisa de valor que veio de fora. Os príncipes mestres jesuítas não diziam que a fé nos dá um poder adicional e que quando tivéssemos um problema deveríamos nos preocupar como um cachorro se preocupa com um osso?

Hiraga escondeu-se em algum lugar. Revistei tudo com o maior cuidado Portanto, ele se disfarçou. De que maneira? Como uma árvore? O quê?

Dentro dos muros, os preparativos para a partida continuavam. A bandeira foi arriada. Os cavaleiros montaram. As macas foram levadas para uma carroça. Os portões se abriram, os soldados montados entraram em formação, liderados pelo gai-jin com o nome japonês, passaram por ele, começaram a descer a ladeira...

As bandagens! A revelação aflorou de repente na mente do oficial dos samurais. Não há nenhuma doença! Muito esperto, pensou ele, excitado, mas não esperto o suficiente! E se eu os confrontasse agora, encurralando-os numa das ruas estreitas? Ou se destacasse espiões para segui-lo e o vigiasse para que me leve aos outros?

Vou mandar segui-lo.

19

Terça-feira, 14 de outubro:

A festa de noivado estava no auge, sob os lampiões a óleo que iluminavam a sala principal apinhada do clube... todo o prédio requisitado por Malcolm Struan e ornamentado para sua comemoração. Todos os membros respeitáveis da colônia haviam sido convidados e se encontravam presentes, assim como todos os oficiais que podiam ser dispensados da esquadra e do exército... e lá fora, na High Street, patrulhas das duas armas se achavam preparadas para controlar os bêbados e indesejáveis.

Angelique nunca parecera mais deslumbrante — crinolina, chapéu com plumas de ave-do-paraíso e um ofuscante anel de noivado. A dança era uma valsa vibrante, de Johann Strauss, o Jovem. Acabara de chegar de Viena, pela mala diplomática, e André Poncin a tocava ao piano com a maior animação, acompanhado por alguns músicos da banda da marinha, em uniforme de gala para a ocasião. O parceiro de Angelique era Settry Pallidar; seu anúncio de que representaria o exército fora recebido com gritos de aprovação e tremenda inveja.

Victoria Lunkchurch e Mabel Swann também dançavam, desta vez com Sir William e Norbert Greyforth, seus cartões de dança lotados desde o momento em que a festa fora anunciada. Apesar de todo o volume, as duas eram excelentes dançarinas. Também usavam vestidos de crinolina, só que não podiam se comparar com o de Angelique, nem na riqueza, nem no decote.

— Você é um miserável sovina, Barnaby — sibilou Victoria ao marido. — tambén queremos roupas novas, nem que isso custe todo o seu dinheiro! E também queremos penantes como o dela!

— Querem o quê?

— Você sabe muito bem o quê! Penantes... chapéus!

O chapéu emplumado de Angelique fora o golpe de misericórdia para as duas.

É a guerra, ela contra nós!

Apesar de tudo, a popularidade das duas no baile superou a inveja e dançavam com a maior alegria.

— Miserável sortudo! — murmurou Marlowe, olhando para seu rival.

A túnica azul do uniforme naval reluzia com os alamares dourados adicionais de um ajudante-de-ordens, calça branca de seda e sapatos pretos com fivelas prateadas.

— Quem? — indagou Tyrer, passando com outro copo de champanhe afogueado e excitado com a noite, e também com seu êxito ao tirar Nakama, o samurai, de Iedo, instalando-o em sua casa, com a aprovação de Sir William, como professor de japonês. — Quem é o miserável, Marlowe?

— Vá se... como se não soubesse! — Marlowe sorriu. — Escute, sou o representante da marinha, tenho direito à próxima dança, e darei uma lição no miserável ou morrerei na tentativa!

— Que demônio afortunado! O que estão tocando?

— Uma polca.

— Essa não! Foi você quem pediu?

— Claro que não.

A polca, baseada numa dança folclórica da Boêmia, era outro acréscimo recente aos salões de baile da Europa, causando o maior furor, embora ainda fosse considerada um tanto indecente.

— Está no programa — acrescentou Marlowe. — Não tinha notado?

— Não. Tenho muitas outras coisas em que pensar.

O tom de Tyrer era de felicidade. Ansiava em contar a alguém como fora esperto. Sua satisfação era ainda maior naquela noite, pois assim que pudesse atravessaria a ponte do paraíso e iria para os braços de sua amada... lamentando apenas ter jurado segredo.

— Ela dança como um sonho, não acha?

— Ei, jovem Tyrer... — Era Dmitri Syborodin, os cabelos oleosos, suando, com uma caneca de rum na mão. — Pedi ao mestre da banda para tocar um cancã. Ele disse que fui o quinto a pedir.

— E ele vai mesmo tocar? — perguntou Tyrer, consternado. — Assisti uma vez em Paris... não vai acreditar, mas as mulheres não usam nenhuma calça por baixo.

— Mas claro que acredito! — Dmitri soltou uma risada. — Só que Peito-de-Anjo tem uma calça por baixo esta noite e não sente o menor medo de mostrá-la!

— Ei, escute aqui... — protestou Marlowe, veemente.

— Ora, John, ele só está brincando. Dmitri, você é insuportável! O mestre da banda não ousaria, não é?

— Não, a menos que Malc concorde.

Os três olharam através da sala. Malcolm Struan estava sentado com o Dr. Hoag, Babcott, Seratard e outros ministros, observando a pista de dança, os olhos fixados apenas em Angelique, enquanto ela se inclinava e girava, ao compasso da música moderna, encantadora e ousada, deixando a todos inebriados. A mão de Struan apoiava-se numa bengala grossa, o anel de sinete de ouro faiscando, enquanto os dedos se moviam ao ritmo, vestindo um traje a rigor de seda, colarinho levantado, gravata creme, alfinete de diamante, botas de couro vindas de Paris.