— Talvez, chéri, pudéssemos passar a lua-de-mel em Paris... dançaríamos pela noite afora.
— Dança muito bem, mademoiselle, em qualquer cidade — comentou Hoag, suado, desconfortável nas roupas apertadas. — Eu gostaria de poder dizer a mesma coisa a meu respeito. Posso suge...
— Não dança nunca, doutor?
— Anos atrás, quando estive na índia, até que dançava, mas parei quando minha esposa morreu. Ela gostava tanto de dançar que agora não sinto o menor prazer. Uma festa maravilhosa, Malcolm. Posso sugerir que encerremos a noite?
Angelique fitou-o, seu sorriso se desvanecendo, notou a cautela no rosto de Hoag. Olhou para Malcolm e percebeu a exaustão. É horrível que ele esteja tão doente, pensou ela.
— Mas que droga! Ainda é cedo — protestou Malcolm, embora ansiasse em deitar. — Não concorda comigo, Angelique?
— Devo confessar que me também me sinto bastante cansada — disse ela, no mesmo instante.
Angelique fechou o leque, baixou-o, sorriu para ele, Poncin e os outros preparando-se para ir embora.
— Talvez possamos escapulir e deixar a festa continuar... Apresentaram suas desculpas às pessoas ao redor. Todos os outros fingiram não notar que eles haviam se retirado, mas ficou um vazio na esteira de Angelique. Na porta, ela parou.
— Ah, esqueci o leque. Vou buscá-lo num instante, querido. Ela voltou apressada. Poncin interceptou-a.
— Mademoiselle, creio que isto lhe pertence — disse ele, em francês.
— É muito gentil...
Angelique pegou o leque, satisfeita porque seu estratagema dera certo, e por André ser tão observador quanto esperara. Quando ele se inclinou para beijar sua mão, ela sussurrou, em francês:
— Preciso vê-lo amanhã.
— Na legação, ao meio-dia. Peça para falar com Seratard, que não estará presente.
Ela escovava os cabelos diante do espelho, ainda cantarolando a última valsa que dançara. Qual foi melhor? — perguntou a si mesma. A melhor dança? É fácil, Marlowe e a polca, melhor do que Pallidar e as valsas... só se deve valsar com o amor de sua vida, permitindo que a música penetre em sua cabeça, com adoração e anseio, levando-a às nuvens, cintilando, como me sinto esta noite, o melhor dia de minha vida, noiva de um homem extraordinário e amada por ele até a loucura.
Deveria ser o melhor dia, mas não é.
Estranho que eu tenha apreciado a noite, e tendo sido capaz de agir e pensar com calma, quando já passou o dia, estou atrasada, e assim tudo indica que tenho uma criança de um estuprador, que deve ser retirada.
Ela observava seu reflexo como se fosse outra pessoa, as escovadelas firmes, massageando o couro cabeludo, atônita por ainda estar viva e exteriormente a mesma, depois de tanta agonia.
Curioso. Cada dia, depois do primeiro, parece mais fácil.
Por que será?
Não sei. E não importa. Amanhã estará resolvido o problema do atraso, talvez a esta hora, pois começarei de noite, e não haverá mais necessidade de tanto medo e choro, mais medo, mais choro. Dezenas de milhares de mulheres já fofam acuadas na situação em que me encontro agora e escaparam, sem muito sofrimento. Apenas uma pequena poção, e tudo voltará a ser como antes, sem que ninguem saiba. Exceto você e Deus! Exceto você e o médico, ou você e a parteira, ou feiticeira.
Já chega por esta noite, Angelique. Confie em Deus e na Santa Mãe que ela ajudará, pois é inocente. Ficou noiva de um homem maravilhoso, vai casar, viver feliz para sempre. Amanhã... amanhã começarão o onde e o como.
Por trás dela, Ah Soh arrumava a cama de baldaquino, pegando suas meias e roupas de baixo. A saia de crinolina já fora pendurada num cabideiro, junto com as outras, e meia dúzia de vestidos novos para o dia ainda se encontravam envoltos em papel-de-arroz. Pela janela aberta, vinha o som dos risos e cantorias, bêbados e da música no clube, que não dava o menor sinal de que acabaria logo.
Angelique suspirou, com vontade de estar no baile. Os movimentos com a escova se tornaram mais vigorosos.
— Deseja mais alguma coisa?
— Não. Pode ir se deitar.
— Boa noite.
Angelique trancou a porta depois da saída de Ah Soh. A porta de ligação com a suíte de Struan se encontrava fechada, mas não trancada. Pelo costume, ela deveria ir até lá, assim que terminasse de se arrumar, bater, entrar para lhe dar um beijo de boa noite, talvez conversar um pouco, depois retornar a seu quarto, deixando a porta entreaberta, para o caso de Malcolm ter um ataque durante a noite. Eram cada vez mais raros agora, embora ele se mostrasse irrequieto, desde que parara de tomar o medicamento da noite, há uma semana, mal conseguisse dormir, apesar de jamais exigir qualquer coisa.
Ela voltou a sentar diante do espelho, satisfeita com o que via. Seu penhoar era de seda e renda parisiense, uma cópia local de outro que trouxera... e não vai acreditar na qualidade do trabalho, Colette, ou na rapidez do alfaiate chinês, escrevera ela naquela tarde, uma carta que partiria no navio de correspondência, no dia seguinte.
Agora, posso mandar copiar qualquer coisa. Por favor, envie-me alguns moldes ou recortes de La Parisienne ou L’Haute Couture, mostrando os últimos figurinos, ou qualquer outra coisa maravilhosa... meu Malcolm é muito generoso e muito rico! Ele diz que posso pedir o que eu quiser!
E meu anel! Um diamante enorme, com quatorze menores ao redor. Perguntei como o adquirira, em que lugar de locoama, e ele se limitou a sorrir. Preciso ser mais cuidadosa, e não fazer perguntas tolas. Colette, tudo é maravilhoso, só que estou preocupada com a saúde de Malcolm. A melhoria é muito lenta e ele anda com a maior dificuldade. Mas seu ardor aumenta, o pobre coitado, e tenho de me precaver... Devo me vestir para a festa agora, mas voltarei a escrever mais antes de despachar. Meu amor eterno por enquanto.
Colette é afortunada, pois sua gravidez é uma dádiva de Deus. Pare com isso! Não fique assim ou as lágrimas e o terror voltarão. Ponha o dilema de lado. Decidiu o que fazer, se estivesse, ou se não estivesse. Como executar o outro plano... o que mais pode fazer?
Um pouco de perfume por trás das orelhas, nos seios, um ligeiro ajuste das rodas. Uma batida gentil na porta.
— Malcolm?
— Entre... estou sozinho.
Inesperadamente, ele não se encontrava na cama, mas sentado na poltrona. Um chambre vermelho de seda, uma estranha expressão nos olhos. No mesmo instante, algum instinto a fez erguer a guarda. Trancou a porta, como sempre e adiantou-se.
— Não se sente cansado, meu amor?
— Não e sim. Você me deixa tonto.
Ele estendeu as mãos e Angelique se aproximou ainda mais, o coração acelerando. As mãos de Malcolm tremiam. Ele a atraiu para mais perto, beijou suas mãos, braços, seios. Por um momento, ela não resistiu, apreciando aquela adoração, desejando-o. Inclinou-se, beijou-o, deixou que a acariciasse. Depois, o calor aumentando depressa, arriou de joelhos ao lado da poltrona, o coração batendo forte, rompeu em parte o abraço.