Выбрать главу

— Não devemos — sussurrou Angelique, ofegante.

— Sei disso... mas quero tanto...

Os lábios de Malcolm eram quentes, insistentes, e os de Angelique reagiram. Agora, a mão dele acariciava sua coxa, ateando mais fogo na virilha, e foi subindo e subindo, algoz irresistível, e ela queria mais, só que se conteve a beira do abismo, e tornou a se desvencilhar, sussurrando:

— Não, chéri.

Mas desta vez ele se mostrou surpreendentemente mais forte, o outro braço a deteve, num torno amoroso, a voz e os lábios cada vez mais persuasivos, mais prementes, até que, sem pensar, ele se virou de forma brusca e a dor invadiu seu corpo.

— Oh, Deus!

— O que foi? — balbuciou Angelique, assustada. — Você está bem?

— Acho que sim... Oh, Deus Todo-Poderoso!

Malcolm levou um momento para se recuperar, a dor intensa esvaziando o ardor, mas a ânsia persistindo, o sofrimento tornando-a ainda maior. Suas mãos ainda a seguravam, ainda tremiam, mas sem força.

— Desculpe...

— Não precisa se desculpar, meu querido.

Depois de recuperar o próprio fôlego, agradecida, Angelique levantou-se, serviu um pouco do chá frio que ele mantinha na mesinha-de-cabeceira. Sentia um calor na virilha, estava nervosa, o coração agitado, não querendo parar, mas sabendo que devia, uns poucos minutos a mais e não teria conseguido, preciso encontrar um meio de alcançar a segurança, para ele, para mim, para nós... e uma voz apregoava a litania em sua mente, “um homem jamais casa com sua amante, nada antes do casamento, tudo é permitido depois”, insistindo, até que pudesse compreender.

— Tome aqui — murmurou ela, estendendo a xícara.

Angelique ajoelhou-se, observou-o fechar os olhos, o suor aflorando no rosto, manchando o chambre. Mais um instante, e a maior parte da angústia dela se dissolveu. Pôs a mão no joelho de Malcolm, que a cobriu com a sua.

— Ficar tão perto é ruim para nós, Malcolm — murmurou ela, gostando muito dele, amando-o, mas não muito certa sobre o amor. — É difícil para nós dois chéri, pois também o desejo, também o amo.

Ele só falou depois de um longo momento, com alguma dificuldade, a voz baixa, angustiada:

— Sei disso, mas... mas você pode ajudar.

— Não podemos, querido, não antes de casarmos... não agora.

Abruptamente, a dor e a frustração de Malcolm alcançaram o auge, ao ter passado a noite inteira vendo-a dançar com outros homens, desejando-a, quando mal podia andar, ao mesmo tempo em que sabia que um mês atrás era melhor dançarino do que qualquer outro.

Por que não agora?, ele teve vontade de gritar. Que diferença um ou dois meses podem fazer? Pelo amor de Deus... mas tudo bem, aceitarei isso, que no casamento uma moça decente deve ser virgem, ou é uma mulher fácil, aceitarei que um cavalheiro não lhe faz mal antes do casamento. Aceito tudo! Mas há outros meios.

— Sei... sei que não podemos agora — balbuciou ele, a voz rouca. — Mas. -por favor, Angelique, ajude-me.

— Como?

Mais uma vez, ele foi sufocado pelas palavras. Pelo amor de Deus, faça como as mulheres das casas, que beijam, acariciam, fazem um homem se aliviar... Pensa que o ato de amor é apenas abrir as pernas e ficar imóvel como uma posta de carne? Essas mulheres fazem coisas bem simples, sem qualquer alarde, e sentem-se felizes pelo homem depois, perguntam se foi bom.

Mas Malcolm sabia que nunca poderia dizer isso a Angelique. Era contra toda a sua criação. Como explicar à moça que você ama, quando ela é tão jovem e ingênua, ou tão egoísta, ou apenas ignorante? Subitamente, a verdade tornou-se amarga. Alguma coisa nele mudou e foi com uma voz diferente que disse:

— Tem toda razão, Angelique, é difícil para nós dois. Desculpe. Talvez seja melhor você voltar para a legação francesa, até partirmos para Hong Kong. Agora Que estou melhorando, devemos zelar por sua reputação.

Ela ficou aturdida, desconcertada com a mudança.

— Mas estou bem aqui, Malcolm, e bem perto, caso precise de mim.

— Ora, claro que preciso de você. — Ele contraiu os lábios, na insinuação de um sorriso irônico. — Pedirei a Jamie para providenciar tudo.

Angelique hesitou, surpresa, sem saber como continuar.

— Se é assim que você quer, chéri...

— É melhor. Como você disse, essa proximidade é difícil para nós dois. Boa noite, meu amor. Fico contente que tenha gostado de sua festa.

Ela sentiu um calafrio percorrer seu corpo, mas não sabia se vinha de fora ou de dentro. Beijou-o, esperando por uma paixão retribuída, mas não encontrou nenhuma. O que o mudara?

— Duma bem, Malcolm. Eu amo você.

Ainda nada. Não importa, pensou Angelique, os homens são melancólicos e difíceis. Sorrindo como se nada houvesse de errado, ela foi tirar a tranca da porta e soprou-lhe um beijo terno e passou para seu quarto.

Malcolm olhou para a porta de comunicação. Estava entreaberta. Como sempre. Mas tudo no mundo dos dois não era mais como sempre. A porta e a proximidade de Angelique não mais o tentavam. Sentia-se diferente, de alguma forma remodelado. Não sabia por que, mas estava muito triste, muito velho, algum instinto lhe dizia que, por mais que a amasse, por mais que tentasse fisicamente Angelique nunca poderia, em toda a vida comum, satisfazê-lo por completo.

Usando a bengala, Malcolm levantou-se, claudicou tão silenciosamente quanto podia até a cômoda. Pegou na gaveta de cima o vidro do medicamento, que escondera para as noites em que a mera idéia de dormir se tornasse insuportável. Tomou tudo. Arrastou-se para a cama. Rangendo os dentes, deitou-se, deixou escapar um suspiro, enquanto a maior parte da dor desaparecia. O fato de ter consumido até a última gota a poção que lhe proporcionava um pouco de paz não o incomodava. Chen, Ah Tok ou qualquer dos outros criados poderia providenciar mais, no momento em que assim desejasse. Afinal, a Struan não era a grande fornecedora da China?

No outro lado da porta, Angelique ainda se encostava na parede, na maior agitação, sem saber se devia voltar ou deixá-lo sozinho. Ouvira-o ir até a cômoda, abrir a gaveta, mas não sabia o motivo, ouvira as molas da cama rangerem e o profundo suspiro de alívio de Malcolm.

Era apenas a dor e porque não podemos, não agora, pensou ela, tranqüilizando-se outra vez, reprimindo um bocejo nervoso. E também porque ele teve de permanecer sentado durante todo o baile, quando é um excelente dançarino, o melhor que já conheci... não foi isso o que primeiro me atraiu, em Hong Kong, entre todos os outros?

Não há nada de errado que ele queira fazer amor... e não foi por culpa minha que ficou ferido. Pobre Malcolm, ele está apenas esgotado. Amanhã terá esquecido e tudo estará bem... e é melhor eu agir agora, tenho de cuidar do outro problema. Mas tudo vai dar certo.