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Ela meteu-se na cama e mergulhou num sono fácil, mas os sonhos logo foram povoados por monstros estranhos, com rostos retorcidos de bebê, soltando risadas estridentes, puxando-a, “mamãe... mamãe”, escrevendo nos lençóis com seu próprio sangue, a vazar do dedo, usado como caneta, traçando e retraçando aqueles caracteres... os que encontrara na colcha, gravados para sempre em sua mente. Ainda não tivera coragem de perguntar a André ou Tyrer o que significavam.

Alguma coisa a arrancou do sono. As paisagens noturnas se desvaneceram Apreensiva, olhou para a porta, meio esperando vê-lo ali. Mas não o encontrou, ouviu sua respiração, pesada, regular. Recostou-se nos travesseiros e pensou: foi o vento, uma janela batendo.

Mon Dieu, estou cansada, mas como me diverti no baile! E que anel lindo ele me deu!

Cantarolando a polca, com alguma inveja do sucesso de John Marlowe, e convencido de que também poderia se sair tão bem, Phillip Tyrer seguiu quase que dançando até a porta da casa das Três Carpas, na viela pequena e deserta, e bateu com um floreio. Ali, a Yoshiwara parecia adormecida, mas não muito longe, na Main Street, as casas e bares fervilhavam, a noite era jovem, com o barulho de homens rindo, cantos roucos, os acordes ocasionais de uma samisen, misturados com risadas e palavras de pidgin.

A grade da porta foi aberta.

— O que é?

Por favor, fale japonês. Sou Taira-san, e tenho um encontro marcado.

Ah, é isso? — murmurou a corpulenta criada. — Taira-san, hem? Falarei com a mama-san.

A grade foi fechada. Enquanto esperava, Tyrer tamborilou com os dedos na madeira antiga. Passara todo o tempo no dia de ontem e na noite anterior com Sir William, explicando sobre Nakama e a legação, providenciando um modus vivendi para seu novo professor... e sentindo-se culpado por não ter revelado a verdade vital de que o homem sabia falar alguma coisa de inglês. Mas fizera um juramento, e a palavra de um inglês é o seu grilhão.

Sir William acabara concordando que “Nakama” podia ser um samurai — filhos de famílias samurais haviam sido instalados nas legações britânica e francesa, por curtos períodos, no passado, assim como Babcott tinha ajudantes japoneses. Mas Sir William determinara que ele não deveria usar ou guardar espadas dentro da cerca da colônia. Essa regra aplicava-se a todos os samurais, à exceção dos guardas da colônia, sob o comando de um oficial, em suas raras patrulhas, aprovadas com antecedência. Além disso, Nakama não poderia se vestir de forma ostentosa, nem se aproximar da casa da guarda ou da alfândega, e teria de se manter fora de vista tanto quanto possível, pois se fosse descoberto e reclamado pelo Bakufu, a culpa seria sua e não relutariam em entregá-lo.

Tyrer chamara Nakama e explicou-lhe o que Sir William determinara. Àquela altura, sentia-se cansado demais para Fujiko.

Agora, Nakama, preciso mandar uma mensagem, e quero que você a entregue. Por favor, escreva os caracteres para: “Por favor, arrume...”

— Arrume, por favor?

— Significa marcar. “Por favor, marque um encontro para mim, amanhã à noite, com...” Deixe o espaço em branco para o nome.

Hiraga não demorara muito a entender o que Tyrer queria dele e por quê. Em desespero, Tyrer acabara dando o nome de Fujiko e da Casa das Três Carpas.

— Ah. Três Carpas? — dissera Hiraga. — So ka! Entregar mensagem mama-san, sem errar, marcar você ver musume amanhã, sim?

— Isso mesmo, por favor.

Nakama lhe mostrara como escrever os caracteres e Tyrer os copiara; muito satisfeito consigo, assinara a mensagem e agora se encontrava à porta.

— Vamos logo, depressa — murmurou ele, sentindo-se ansioso, muito capaz.

A grade na porta foi logo aberta de novo por Raiko.

Ah, boa noite, Taira-san, quer que a gente fale japonês, certo — disse ela com um sorriso e uma pequena reverência.

Seguiu-se um fluxo de japonês que ele não entendeu, à exceção do nome Fujiko, repetido várias vezes, e o finaclass="underline"

Sinto muito.

— Como? Ahn... Sente muito? Por que, Raiko-san? Boa noite. Tenho um encontro Fujiko... com Fujiko.

Sinto muito — repetiu ela —, mas Fujiko não está disponível esta noite, e não ficará livre por algum tempo. Sinto muito, mas não há nada que eu possa fazer. Ela pede desculpas e sente muito. Todas as minhas outras damas também estão ocupadas. Sinto muito.

Mais uma vez, Tyrer não entendeu tudo. Absorveu a essência. Desolado, compreendeu que Fujiko não se encontrava, mas não o motivo de sua ausência.

Mas carta ontem... minha mensagem, Nakama lhe trazer, hem?

Oh, sim! Nakama-san trouxe a mensagem e eu disse a ele que estava tudo certo, mas sinto muito, agora não é possível atendê-lo. Sinto muito, Taira-san. Obrigado por se lembrar de nós. Boa noite.

— Espere! — gritou Tyrer, em inglês,quando a grade era fechada, para depois acrescentar, suplicante: — Disse que ela não está aqui, não é? Esperar, por favor, Raiko-san. Amanhã... amanhã, Fujiko, sim?

Raiko sacudiu a cabeça, com uma cara de tristeza.

Ah, sinto muito, amanhã também não será possível e muito me aflige ter de dizer isso. Espero que compreenda. Sinto muito.

Tyrer estava consternado.

Não amanhã? Dia seguinte, sim?

Ela hesitou, sorriu, fez outra reverência.

Talvez, Taira-san, talvez, mas sinto muito, não posso prometer nada. Por favor, peça a Nakama para vir aqui durante o dia e direi a ele. Compreendeu? Mande Nakama-san. Boa noite.

Aturdido, Tyrer ficou olhando para a porta, praguejou amargurado, cerrou os punhos, querendo bater em alguma coisa. Levou um momento para se recuperar do intenso desapontamento e depois, abatido, afastou-se.